A habitação moderna foi um dos campos em que o modernismo fez sua promessa mais ambiciosa: a de que a arquitetura poderia transformar não apenas a cidade, mas também a forma como as pessoas vivem dentro dela. Como argumenta o historiador da arquitetura argentino Ramón Gutiérrez, a habitação popular é "o grande tema não resolvido, aquele que geralmente não aparece nas histórias da arquitetura". Na América Latina, essa ausência é particularmente significativa. Ao longo do século XX, o crescimento das cidades transformou a habitação em um dos principais instrumentos para imaginar mudanças urbanas, e o modernismo passou a ocupar não apenas plantas e desenhos, mas também apartamentos, bairros, ruas e rotinas domésticas.
No entanto, uma vez construídos, esses projetos passaram a fazer parte de cidades moldadas pela política, pela memória, pelas desigualdades e pelas transformações nos modos de ocupação. Seus significados deixaram de pertencer apenas ao plano original, passando a ser definidos também pelas formas como foram habitados, modificados e transformados ao longo do tempo. O que essa história revela não é adaptação, mas fricção: o momento em que a arquitetura deixa de ser um modelo ideal e se confronta com a cidade que não consegue controlar plenamente.
O modernismo costuma ser compreendido por meio da arquitetura construída, de fachadas fotografadas, plantas canônicas e manifestos em concreto. Para a maioria das pessoas, porém, o primeiro contato com ele foi muito mais imediato. Foi uma cadeira em um escritório, uma estante em uma sala de estar ou um móvel compacto que reorganizou a forma de sentar, guardar objetos ou dormir. Muito antes de a arquitetura moderna poder ser amplamente encomendada, foram os móveis que penetraram os espaços cotidianos, carregando consigo uma nova lógica de habitar. A promessa modernista de transformar a vida frequentemente se materializou por meio desses objetos menores e reproduzíveis.
Para entender essa transformação, é preciso ler o mobiliário como uma forma condensada de arquitetura, e não como mera decoração. Os designers do início do século XX o entendiam exatamente dessa maneira. Le Corbusier descreveu os móveis como équipement de l'habitation (equipamento da habitação), inserindo-os no sistema operacional do edifício, e não como algo externo a ele. Da mesma forma, a Bauhaus abordou cadeiras e mesas como protótipos industriais, incorporando aos seus projetos princípios de padronização, eficiência e produção em massa. Como argumenta a historiadora da arquitetura Beatriz Colomina, a arquitetura moderna não se difundiu apenas por meio dos edifícios, mas também através de mídias e objetos que traduziram suas ideias para a vida cotidiana. O mobiliário tornou-se uma arquitetura em miniatura: portátil, reproduzível e capaz de reorganizar o espaço sem a necessidade de reconstruí-lo.
Quando a Cidade do México sediou os Jogos Olímpicos de 1968, foi a primeira vez que o evento aconteceu em um país latino-americano e também em uma nação de língua espanhola. Os Jogos representaram, portanto, uma oportunidade estratégica para projetar internacionalmente o México e sua cultura, levando o governo a formar um comitê organizador composto por importantes talentos locais. Pedro Ramírez Vázquez foi nomeado presidente da comissão — um arquiteto mexicano que exercia grande influência sobre os programas estatais de construção no período modernista. Sua abordagem era clara: utilizar a arquitetura como síntese entre a técnica modernista internacional, as referências pré-colombianas e a cultura material local. Sob sua direção, o comitê supervisionou a construção e adaptação de equipamentos espalhados pela zona sul da Cidade do México, quase todos projetados e executados por arquitetos, engenheiros e técnicos mexicanos.
À medida que 2025 se aproxima do fim, revisitamos um ano marcante no universo do design de interiores. No ano passado, os designers se voltaram para abordagens mais contidas e discretas, uma tendência que já vinha se consolidando. A ascensão da inteligência artificial intensificou debates sobre equidade digital e desinformação — discussões que continuaram em 2025, especialmente com o tema da Bienal de Arquitetura de Veneza, Intelligens. Esse contexto ampliou o diálogo sobre as oportunidades trazidas pelas tecnologias digitais, propondo um olhar mais esperançoso. Em contrapartida, os projetos de interiores concluídos ao longo do ano mantiveram o foco no tangível e no pragmático, valorizando materiais brutos e uma apreciação da história.
Na arquitetura moderna, a promenade architecturale destacou-se como uma estratégia projetual essencial para concretizar os princípios de funcionalidade, estética e integração ao contexto urbano. Projetos icônicos de Le Corbusier, como a Villa Savoye (1929), ilustram esse conceito ao guiar o visitante por um percurso ascendente que culmina na contemplação do terraço-jardim, um espaço aberto onde a edificação dialoga harmoniosamente com a natureza. Passados cem anos, o conceito continua influenciando projetos contemporâneos, explorando a relação entre movimento e espaço em diferentes tipologias arquitetônicas como casas, museus, bibliotecas e parques.
Park Hill, um amplo complexo de habitação social em Sheffield, se destaca como um dos exemplos mais ambiciosos de arquitetura modernista na Grã-Bretanha do pós-guerra. Projetado em 1961 por Jack Lynn e Ivor Smith, seu conceito inovador de "ruas no céu" buscava combinar habitação de alta densidade com o espírito comunitário de bairros tradicionais. No final do século XX, o complexo enfrentava uma profunda negligência, marcada por problemas sociais e degradação estrutural que comprometeram tanto sua funcionalidade quanto sua reputação. Gradualmente, Park Hill tornou-se sinônimo de fracasso do modernismo, carregando um pesado estigma social e marginalizando seus moradores. A partir dos anos 2000, começaram esforços significativos para reverter essa narrativa por meio de um processo de revitalização em duas fases. Na primeira fase, liderada pela Urban Splash, em colaboração com os escritórios Hawkins\Brown e Studio Egret West, a abordagem focou na preservação e valorização dos elementos históricos do edifício, introduzindo intervenções modernas para criar um espaço habitável, funcional e atrativo. Essa etapa demonstrou o potencial da reutilização adaptativa em revitalizar comunidades e resgatar ícones arquitetônicos. A segunda fase da renovação, conduzida pelo escritório Mikhail Riches, buscou expandir esse trabalho inicial, introduzindo novos elementos que aprofundaram a conexão entre os espaços existentes e a vida contemporânea. Com uma abordagem que uniu sensibilidade histórica e inovação arquitetônica, Mikhail Riches deu continuidade ao processo de transformar Park Hill em um exemplo emblemático de como a arquitetura modernista pode ser adaptada às necessidades atuais sem perder sua identidade original.
A fachada de concreto exposta foi cuidadosamente restaurada, janelas com eficiência energética substituíram unidades obsoletas e paineis de alumínio de cores vivas animaram o exterior. Os apartamentos foram reconfigurados para atender aos padrões modernos com plantas abertas, enquanto espaços compartilhados como pátios e centros comunitários foram revitalizados para promover a interação social. Medidas de sustentabilidade, incluindo cobertura verde e isolamento aprimorado minimizaram a pegada ambiental, mantendo o caráter brutalista icônico do projeto ao mesmo tempo em que criavam uma vibrante comunidade de uso misto de unidades residenciais, escritórios, espaços de varejo e locais culturais. O projeto destaca o potencial de reutilização adaptativa de projetos modernistas, algo que também carrega enormes desafios, sobretudo em termos programáticos e de materiais e soluções construtivas.
Em 21 de janeiro de 1958, três mulheres participaram como competidoras em um episódio do popular programa de televisão “To Tell the Truth”, um jogo de perguntas em que se tentava adivinhar quem era cada um dos competidores. O apresentador revela que se trata de uma arquiteta, que ela já projetou um hotel Hilton, é casada e mãe de quatro filhos. Cada uma das mulheres, vestida formalmente com saias lápis e blusas, se apresenta como Natalie De Blois. Enquanto os palestrantes revelam sua falta de conhecimento sobre arquitetura, apenas disparando perguntas sobre Frank Lloyd Wright, pergunta-se “Qual é o nome do prédio que foi demolido para construir a Union Carbide?” A verdadeira Natalie De Blois, na época arquiteta sênior da SOM, responde com firmeza: “Hotel Margery”.
Quando pensamos em mulheres que foram conhecidas como pioneiras da indústria, é surpreendente que muitas vezes falamos sobre aquelas com quem pudemos interagir no cotidiano de trabalho ou com quem tenhamos aprendido algo. Natalie De Blois foi uma pioneira moderna das mulheres arquitetas na força de trabalho e, embora seu legado tenha começado há apenas setenta anos, mudou significativamente a maneira como as mulheres podem participar da profissão hoje.
Um conjunto de países do sul da Ásia experimentou em meados do século XX uma catarse coletiva do domínio colonizador. O período seguinte desencadeou em uma era de ideias e filosofias para um novo futuro. Durante este tempo, os arquitetos foram fundamentais na criação de estruturas modernistas que definiram as identidades pós-coloniais, pós-partição e pós-imperiais dos países. Arquitetos do sul da Ásia usaram o design como expressão de uma visão social de esperança. Mesmo com este sucesso na construção da nação, as mulheres arquitetas não são creditadas na formação da história do sul da Ásia.
Entre 1977 e 1983, o Teatro Nacional de Praga passou por uma significativa transformação com a inauguração do Nová Scéna, um "irmão moderno" do tradicional teatro neorrenascentista. Durante muitos anos, o Nová Scéna foi a sede do famoso Laterna Magika, considerado o primeiro teatro multimídia do mundo. Essa experiência inovadora misturava performances clássicas com efeitos visuais gerados por computador, proporcionando uma ação dramática que se destacava no imponente edifício de vidro, um ícone da era comunista e um símbolo do poder político da época. Em reconhecimento à sua importância, este edifício fez parte do festival Open House Praga em 2024, um evento anual que convida o público a explorar e apreciar o valor da arquitetura.
Instituto Jonas Salk de Ciências Biológicas (1959-65). Imagem cortesia de Form Portfolios
Na história da arquitetura moderna, Louis I. Kahn é considerado um incontestável mestre da monumentalidade nos Estados Unidos. No auge de sua carreira, Kahn conseguiu criar um tipo único de arquitetura que inspira sem ser excessiva, que expressa seu sistema construtivo sem exibicionismo estrutural, e que mergulha na história com uma nova linguagem e sistema de formas. Seu interesse pela luz como elemento funcional e pelas qualidades específicas dos materiais ia além de seus edifícios. Estava em todos os objetos que ele criava. Para celebrar esse legado, a Form Portfolios acaba de lançar "Monumental Modernism", a primeira coleção de objetos de decoração, iluminação e mobiliário modelados a partir daqueles encontrados nos edifícios de Louis I. Kahn.
A indústria de arquitetura e construção passou por uma transformação com a integração de diversas ferramentas digitais, agora essenciais para o processo de design. A adoção dessas tecnologias tem efetivamente acelerado as operações, aprimorado a eficiência e elevado a qualidade do design. No entanto, essa mudança digital também gerou uma divisão digital que vai além da acessibilidade às ferramentas e softwares. Ela abrange o desafio crucial de integrar comunidades tradicionais e indígenas no contexto do desenvolvimento urbano. Será que a tecnologia avançada pode apoiar o crescimento da arquitetura vernacular? Será que as práticas construtivas indígenas podem encontrar um lugar na visão de um futuro digitalizado?
A estrutura foi originalmente construída para sediar partidas internacionais e domésticas de críquete. Na década de 1950, o Clube de Críquete de Ahmedabad recebeu um terreno de 67.000 metros quadrados para construir um Estádio de Críquete. Ele foi o primeiro campo de grama do país e testemunhou a realização da primeira partida de críquete na Índia. O SVP é um lugar significativo para a comunidade do críquete no país, pois tem sido um berço de talentos e tem contribuído para o desenvolvimento de jovens jogadores de críquete. Vários jogadores lendários da Índia também jogaram no estádio.
No centro da cidade de Lugano, na Suíça, o arquiteto Mario Botta projetou uma nova solução habitacional sobre as fundações do antigo Cinema Teatro Cittadella. Feita por Paul Clemence, esta série de fotos exibe o novo conjunto nessa cidade rica em passado artístico e cultural. O complexo residencial está localizado próximo à antiga basílica do Sagrado Coração de Lugano, situada em uma área tranquila, afastada do tráfego da cidade.
Desde sua estreia em 1959 pela Mattel, a Barbie transformou a indústria de brinquedos e se tornou um ícone da cultura popular. Três anos depois, a primeira Casa de Boneca Barbie foi criada, um lar para Barbie representando sua vida doméstica. Ao longo dos últimos 60 anos, as Casas da Barbie mudaram e evoluíram, cada versão adotando as tendências arquitetônicas e de design da época em que foi produzida. De fato, cada uma é uma mistura única de história, política, cultura popular, tendências e estilos de design que definem a arquitetura como a conhecemos.