PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 07.05.2024 - Fotos gerais enchentes, Av Loureiro da Silva, CAFF e região. Fotos: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini. Flickr user licensed under CC BY-NC 2.0 DEED Attribution-NonCommercial 2.0 Generic
O mundo mudou e aceitar este fato não é mais uma questão de escolha, e sim, de sobrevivência. Nossos regimes de chuvas, períodos de seca, temperaturas médias, nível do mar, tudo está em constante mudança e o posicionamento negacionista de muitos países, incluindo o Brasil, tem gerado situações calamitosas como esta que estamos enfrentando agora.
As enchentes que devastaram o sul do país nos últimos dias não podem ser consideradas fatos isolados. Por conta do aquecimento global, eventos climáticos como esse serão cada vez mais recorrentes. Ou seja, infelizmente, não poderemos impedir que eles aconteçam, mas podemos – e devemos - tornar nossas cidades mais resilientes a essas situações.
Faltando alguns dias para o fim do mês de novembro, Gramado, cidade conhecida como um dos destinos turísticos mais procurados do sul do Brasil, ganhou os holofotes da mídia nacional e internacional e, infelizmente, não foi por causa do seu festival de cinema ou pelas tradicionais e suntuosas festividades de natal. A cidade, que já vinha sendo castigada pela chuva persistente há semanas, viu o surgimento de enormes sulcos geológicos que rasgaram suas ruas e contribuíram para a formação de um cenário digno de filme pós-apocalíptico.
O perigo eminente da movimentação do solo colocou em alerta a população e os governantes que agilmente evacuaram as edificações localizadas nas colinas do bairro condenado. A conduta foi completamente efetiva e responsável, visto que um dos prédios que estavam na região delimitada, de fato, veio a desabar 3 dias após a evacuação. Entretanto, vale a pena reparar em um detalhe, o bairro em questão era composto por moradias de alto padrão, além de hotéis e pousadas de luxo, o que levanta uma pergunta: será que os esforços seriam os mesmos se a situação ocorresse em bairros periféricos de população de baixa renda?
As ondas de calor, cada vez mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, representam um desafio crítico para o desenho dos espaços urbanos. As altas temperaturas exacerbam problemas de saúde pública, aumentam o consumo de energia e diminuem a qualidade de vida nas cidades. Para mitigar esses efeitos, é essencial que os espaços urbanos adotem estratégias para promover a resiliência e não apenas reproduzam formatos que não levam em conta o estresse térmico à qual muitos estão sendo submetidos.
Há tempos entende-se os benefícios dos espaços verdes urbanos, do contato com a natureza, com a água, com a terra, das vantagens relacionadas a saúde e ao bem-estar da população que convive com parques nos arredores de suas casas. Uma questão ainda mais reforçada depois do pânico instaurado durante o período da pandemia de Covid-19. No entanto, o momento atual traz à tona novamente o impacto dos modelos urbanos na vida contemporânea que lida agora com temperaturas extremas nunca antes vistas.
Até hoje, mais de 90 países estabeleceram metas para emissões líquidas zero, comprometendo-se a contribuir para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Mas permanecem dúvidas quanto à credibilidade de muitos desses compromissos e se essas metas serão de fato cumpridas.
Juntos, os países que estabeleceram metas de zerar emissões líquidas – um grupo de inclui China, Estados Unidos e Índia – são responsáveis por quase 80% das emissões globais de gases do efeito estufa. Além deles, milhares de outras regiões, cidades e empresas também estabeleceram suas metas. Nunca antes tivemos tanta ambição e um momento tão propício para reduções tão profundas nas emissões.
https://www.archdaily.com.br/br/1004494/cinco-paises-que-estao-no-caminho-para-chegar-a-emissoes-liquidas-zeroClea Schumer, Cynthia Elliott e Rebecca Gasper
Climate Tile é um projeto-piloto para capturar e redirecionar 30% da água pluvial extra esperada por conta das mudanças climáticas. Criado pela THIRD NATURE com a IBF e a ACO Nordic, o projeto será inaugurado em um trecho de 50 metros de calçamento em Nørrebro, em Copenhague. A primeira calçada foi criada como um projeto climático inovador que utiliza o Climate Tile para conformar uma paisagem urbana bonita e adaptável. Destinado a cidades densamente povoadas, o piso manuseia a água através de um sistema técnico que trata a água como um recurso valioso.
A 3XN, trabalhando em colaboração com Orbicon e SLA, ganhou um concurso pelo projeto de um novo climatorium em Lemvig, na Dinamarca. A proposta busca criar uma interpretação moderna da natureza da área e da cultura de pesca, enquanto é também influenciada pelas condições climáticas locais.
A proposta predominantemente em madeira equilibra o duplo papel de uma utilidade pública servindo à ciência e às artes e um laboratório de trabalho voltado para a mitigação das mudanças climáticas.
https://www.archdaily.com.br/br/901547/edificio-a-beira-mar-da-3xn-presta-homenagem-a-cultura-da-pesca-de-lemvig-dinamarcaNiall Patrick Walsh
Um ano após o lançamento do desafio Resilient by Design Bay Area, liderado pelo TLS Landscape, foram apresentados os nove conceitos finais de projeto. O desafio Bay Area foi lançado com uma chamada à ação para “reunir residentes locais, organizações comunitárias, funcionários públicos e especialistas locais, nacionais e internacionais para desenvolver soluções inovadoras que fortaleçam a resiliência da região ao aumento do nível do mar, tempestades severas, inundações, e terremotos". A ideia formulada como um “diagrama à resiliência” pode ser replicada e utilizada local e globalmente. Outros desafios urbanos também serão abordados, incluindo moradia, transporte, saúde e disparidade econômica como forma de não apenas proteger as regiões atuais, mas fortalecê-las.
As equipes colaborativas incluem projetistas de renome mundial como BIG, Mithun e HASSELL+.
Leia mais sobre cada um dos conceitos finais de projeto.
A New York Magazine perguntou a alguns renomados arquitetos de Nova Iorque como eles fariam para melhorar a cidade e salvá-la das mudanças climáticas. Veja, a seguir, as respostas.
Barcelona quer trazer as áreas verdes para próximo de toda a população. Foto: Jamison Wieser/Flickr-CC. Image Cortesia de TheCityFix Brasil
Barcelona, a segunda maior cidade espanhola, já virou referência em muitos aspectos devido ao planejamento urbano voltado às altas densidades, às medidas de redesenho urbano e a ações pela qualidade de vida da população. Grande parte das iniciativas fazem parte dos esforços para combater a poluição do ar e seus consequentes problemas. Agora, ao observar a distribuição dos espaços verdes, Barcelona traçou um plano que deverá transformar a cidade.
A população global continua crescendo, gerando, consequentemente, um contínuo aumento no número de automóveis e de questões relacionadas às mudanças climáticas. Estima-se que cerca de 30% dos veículos parados em congestionamentos urbanos sejam motoristas à procura de vagas para estacionar. A cultura do carro tem pressionado as cidades para que se construam mais estacionamentos, impondo esta necessidade em detrimento de outras benfeitorias urbanas. Enquanto isso, as mudanças climáticas continuam a desafiar as nossas cidades a lidar com o escoamento das águas pluviais. A temporada de furacões no Atlântico em 2017 é prova disso - até a última segunda-feira, 13 tempestades tropicais se formaram no oceano Atlântico, custando 210 vidas até agora.
A THIRD NATURE, um escritório de arquitetura da Dinamarca, projetou uma solução para lidar com as questões urbanas modernas à relacionadas às inundações, estacionamentos e falta de espaços verdes através de seu projeto POP-UP. Uma série de espaços verdes, um estacionamento e um reservatório de água, sobrepostos de cima para baixo, respectivamente. A proposta utiliza o princípio de Arquimedes para armazenar água enquanto cria um espaço flutuante para abrigar os veículos.
ZeroHouse pretende estabelecer uma nova referência para a adaptação sustentável. Image Cortesia de Snøhetta/Plompmozes
Como parte de um esforço global e interdisciplinar para combater as mudanças climáticas, os arquitetos estão dedicando recursos para otimizar a eficiência energética de edifícios antigos e novos. Este esforço é mais do que justificado, uma vez que os edifícios representam quase 40% das emissões do Reino Unido e dos EUA. Embora a sustentabilidade seja agora uma marca registrada de muitos novos projetos arquitetônicos, a ineficiência energética das estruturas dos séculos XVIII e XIX ainda contribui para as emissões globais de carbono em uma grande escala.
Para enfrentar o desafio da adaptação inteligente dos edifícios existentes, o Harvard Center for Green Buildings (CGBC) da Harvard University Graduate School of Design, em colaboração com Snøhetta e a Skanska Technology, está adaptando a sede do CGBC em uma fábrica de estrutura de madeira anterior a 1940, com o objetivo de criar um dos edifícios sustentáveis mais ambiciosos do mundo. HouseZero é conduzido por metas de desempenho intransigentes, como ventilação 100% natural, 100% de autonomia de luz natural e quase zero energia necessária para aquecimento e resfriamento. O resultado será um protótipo de ultra-eficiência, reduzindo a dependência de tecnologia intensiva em energia, criando simultaneamente um confortável ambiente interno.
https://www.archdaily.com.br/br/877150/harvard-housezero-um-projeto-que-responde-as-mudancas-climaticasNiall Patrick Walsh
James Hansen, professor de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade de Columbia, ex-funcionário da NASA e notável climatologista, foi um dos primeiros a alertar sobre a mudança climática durante seu depoimento em 1988 no Congresso dos EUA. Desde então, ele continuou a falar do problema através de palestras, entrevistas, conversas TED e seu blog. Advertiu que um pequeno aumento de 2 graus célsius na temperatura global poderia resultar em um aumento do nível do mar de cinco a nove metros até o final do século, inundando boa parte das as cidades costeiras e tornando-os inabitáveis.
Inspirados por Hansen, os cineastas do estúdio Menilmonde imaginaram Manhattan submersa. Os vídeos anteriores da dupla francesa apresentam subversões sutis do mundo real, e este mais recente, intitulado two ° C New York City, é indiscutivelmente o mais poderoso até agora.
No início deste ano, o Global Seed Vault em Svalbard foi inundado após altas temperaturas no inverno terem causado o derretimento de parte do gelo permanente que cerca o edifício, relatou o The Guardian. O túnel de entrada do edifício foi inundado e depois congelou, dificultando sua entrada. Felizmente, a caixa-forte em si não foi violada, significando que nenhum dano chegou ao precioso conteúdo do edifício. No entanto, o incidente levantou questões sobre se o edifício será capaz de cumprir seu objectivo a longo prazo.
Paradoxalmente, os projetos mais interiorizados com seu país transcendem suas fronteiras. Pois, precisamente, seu trabalho de conexão interna e introspecção com as tradições das comunidades mais antigas e ocultas, leva-os a buscar mais conexões e ressonâncias fora dos limites. Esta viagem dentro-fora nos concerne a todos, vejamos o porquê...
O projeto "A través de las selvas del mundo", da associação peruana sem fins lucrativos Construye Identidad, é um trabalho multidisciplinar que vem sendo desenvolvido há mais de um ano nas comunidades da floresta peruana de Junín, documentando os desafios que enfrenta a arquitetura vernacular e o habitar da selva, na era da globalização e mudanças climáticas.
Agora começou a etapa seguinte, onde a equipe viajará ao longo da Franja Climática Tropical do mundo para visitar as selvas de quatro continentes, um país por continente: Indonésia, Camarões, Honduras e Peru. Estes foram selecionados com base na similaridade das características tanto geográficas como demográficas, os desafios econômicos e da riqueza cultural; a fim de evidenciar as problemáticas compartilhadas ao longo dos bosques tropicais do mundo.
Atualização: infelizmente não é mais possível assistir ao documentário gratuitamente. Ele esteve disponível por tempo limitado e a National Geographic removeu o vídeo. Se você não o assistiu, ainda é possível ver o DVD. No lugar do documentário, incluímos aqui o trailer do filme.
Os arquitetos são grandes entusiastas de iniciativas sustentáveis. Portanto, uma boa notícia para muitos é que recentemente houve o lançamento gratuito do último documentário sobre as mudanças climáticas. Realizado pela National Geographic, você pode assistir "Before the Flood" no Youtube, Facebook ou Twitter.
Apresentado pelo ator Leonardo DiCaprio, recém nomeado embaixador climático da ONU, o documentário talvez seja o filme mais ambicioso sobre a mudança climática desde "An Inconvenient Truth" de Al Gore, lançado em 2006. No filme de 90 minutos, DiCaprio viaja por todo o mundo para ver os danos causados pelos primeiros sinais de uma mudança climática irreversível, desde o derretimento de geleiras até cidades que recentemente sofreram com inundações. Conversando com diferentes líderes mundiais, entre eles Barack Obama e o Papa, o objetivo do ator não é convencer aos espectadores sobre a existência da mudança climática, mas investigar até que ponto avançamos pelo caminho errado, e se há alguma esperança de reverter a situação.
A Flórida é um estado em negação. Miami está no meio de uma das maiores explosões de edifícios na história da região. O skyline da cidade é repleto de guindastes que se elevam de torres com revestimentos dourados, brancos e verde-água sem fim de uso residencial ou hoteleiro. Este massivo fluxo de investimentos em dólares é absolutamente paradoxal, considerando a iminente calamidade que rodeia o sul da Flórida: o National Oceanic and Atmospheric Administration prevê que o nível do mar poderia, possivelmente, aumentar quase 0,89 metros até a metade do século. Se esta tendência persistir, este número será elevado a 2 metros até o ano de 2100, ameaçando a habitação de toda a região metropolitana.
Dado este angustiante cenário, Miami ou está se recusando a tomar conhecimento do inevitável, ou está desesperadamente tentando se tornar relevante o suficiente para ser salva—não que salvar a cidade seja realmente possível. A região se assenta numa rocha calcária extremamente porosa que claramente descarta a opção de uma barragem no estilo da dos Países Baixos. Se o Atlântico não pudesse fazer nenhuma incursão, a crescente maré iria simplesmente se desmontar por baixo. A topografia plana de Miami não tem nenhuma chance.