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Como o espaço transforma a arte: instalações site specific

Como o espaço transforma a arte: instalações site specific

Quando pensamos em galerias, museus e espaços expositivos em geral é comum que nos venha à mente a imagem de um lugar fechado, iluminado, com paredes brancas e piso neutro, provavelmente em madeira. A ideia de pensar espaços expositivos como espaços “puros”, seja para dar foco à obra de arte em si, seja para permitir que exista a rotatividade das exposições, talvez seja a maior diretriz na produção de espaços expositivos nas últimas décadas. No entanto, da mesma forma em que a arte transforma o espaço, o espaço também pode ser um agente transformador da arte. É com essa reflexão que emergem produções artísticas pensadas para um espaço específico, mais conhecidas como instalações site specific.

Instalação A Praia e o Tempo / gru.a. © Rafael Salim
Instalação A Praia e o Tempo / gru.a. © Rafael Salim

O espaço como transformador da obra de arte não significa que o oposto não ocorra, isto é, não significa que a arte não atue também como transformadora do ambiente em que está inserida - seja ele aberto, fechado, público ou privado. Essa inter-relação ocorre independentemente do projeto em questão. Nas instalações site specific o espaço atua como potência transformadora no sentido de assumir a posição de diretriz para o projeto, e isso não significa que seja um delimitador ou redutor das ideias do artista, mas sim uma provocação para elas.

Com o desenvolvimento da arte moderna, a revolução proporcionada pelos seus diferentes movimentos foi além da forma de produzir arte e afetou a forma de expô-la. Em muitos casos, inclusive, esses dois pontos - forma de produzir e forma de expor - se tornam indissociáveis. As primeiras galerias surgiram a partir das coleções particulares, onde grandes salões de colecionadores, tinham suas paredes quase inteiramente preenchidas por quadros. Ao longo do tempo, assim como o conceito de arte foi posto em questão, também o foi o de espaço expositivo. Assim, as primeiras galerias modernas surgiram voltadas à centralidade da obra de arte em relação ao espaço, seguindo ideais racionalistas e progressistas.

Jewish Museum, Berlin / Studio Libeskind. Foto: Dominic Simpson via Flickr. Licença Creative Commons
Jewish Museum, Berlin / Studio Libeskind. Foto: Dominic Simpson via Flickr. Licença Creative Commons

White Cube

Na publicação “Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space”, o autor Brian O’Dohery descreve a galeria moderna como um espaço construído com o mesmo rigor de uma igreja medieval. Segundo ele, a sacralização do espaço expositivo nessas galerias faz com que as obras de arte pareçam alheias ao tempo e as suas vicissitudes. O modelo nasce da ideia que a obra de arte não deve sofrer nenhum tipo de intervenção externa, seja ela natural ou humana. O conceito se encaixa bem no contexto da arte contemplativa, na qual o espectador deve se manter a determinada distância da obra, que basta por si só e é no máximo acompanhada de uma pequena etiqueta ao lado com nome, ano e em alguns casos, uma breve explicação.

Galeria de Arte em Buenos Aires / Nicolás Fernández Sanz. © Javier Agustín Rojas
Galeria de Arte em Buenos Aires / Nicolás Fernández Sanz. © Javier Agustín Rojas

A autora Maddalena D’Alfonso, no seu livro “Come lo spazio trasforma l’arte, come l’arte trasforma lo spazio”, classifica e discorre sobre sete diferentes categorias da arte: contemplativa; cinética; dinâmica; semi-imersiva; imersiva; interativa e performativa. Seguindo essa classificação, é possível concluir que as artes imersivas, interativas e performativas não pressupõem necessariamente algum tipo de explicação em relação à obra: o objeto artístico não basta em si só, a sua compreensão depende da interação obra/espaço/espectador.

Instalações site specific

Como já foi dito, o termo site specific diz respeito a obras criadas de acordo com o ambiente e com um espaço determinado. De forma geral, são trabalhos planejados - muitas vezes fruto de convites - para um local específico, em que os elementos dialogam com o meio circundante, para o qual a obra é elaborada. Voltar-se para o espaço, seja incorporando-o à obra ou transformando-o, é uma das tendências da produção contemporânea, seja em galerias, ambientes naturais ou áreas urbanas. 

O artista dinamarquês Olafur Eliasson expôs em São Paulo entre 2011 e 2012 como parte do 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC Videobrasil. Seu corpo da obra, primeira mostra individual do artista na América Latina, esteve exposta em três diferentes espaços da capital paulista: Pinacoteca, SESC Belenzinho e SESC Pompéia.

Seu corpo da obra / Olafur Eliasson. Foto: Olafur Eliasson
Seu corpo da obra / Olafur Eliasson. Foto: Olafur Eliasson

"Nessas exposições, Olafur não trabalhou com obras como se elas ocupassem um cubo branco [como em espaços expositivos tradicionais]. Ele está lidando com o potencial que a arquitetura, de fato, sugere, ativando esses espaços." - Jochen Volz, curador de Seu corpo da obra

Outra instalação site specific no Brasil é a do artista norte-americano Doug Aitken, em Inhotim (Minas Gerais). A obra se trata de um pavilhão circular em vidro no qual um furo de 200 metros de profundidade no solo capta o som da Terra por meio de microfones. Este som é transmitido em tempo real, por meio de um sofisticado sistema de equalização e amplificação, que busca uma equivalência entre a experiência auditiva e experiência espacial.

Sonic Pavilion / Doug Aitken. © Manuel Sá
Sonic Pavilion / Doug Aitken. © Manuel Sá

As intervenções site specific muitas vezes ocupam espaços públicos e nem sempre despertam reações majoritariamente positivas. É o caso de Tilted Arc, polêmica obra do artista Richard Serra em Nova Iorque, que ocupou a Federal Plaza de 1981 a 1989. A grande chapa de aço corten dividia a praça em duas, bloqueando o caminho dos pedestres na busca de provocar uma tomada de consciência do espectador em relação a si mesmo e seu movimento no espaço - em contraponto à usual passagem rápida, na intenção de chegar a algum outro lugar. A obra foi removida em 1989 pelo Federal General Services Administration - mesmo órgão que havia encomendado a obra dez anos antes - por concluir que a instalação exercia um papel opressor no espaço.

Tilted Arc / Richard Serra. © David Aschkenas/pbs.org
Tilted Arc / Richard Serra. © David Aschkenas/pbs.org

“Naquela época, disse, 'Eu quero deixar perfeitamente claro que Tilted Arc foi financiado e projetado para um lugar particular: a Federal Plaza. É um trabalho para um lugar específico e como tal não deve ser relocado. Remover o trabalho é destruir o trabalho'. Isto foi concluído. Tilted Arc está destruído.” - Richard Serra

Referências bibliográficas

  • D’Alfonso, Maddalena. Come lo spazio trasforma l’arte, come l’arte trasforma lo spazio. Milão: Silvana Editoriale. 2016.
  • Cypriano, Fabio. Dinamarquês Olafur Eliasson inaugura obras em três espaços de SP e dialoga com locais de passagem. Folha de São Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3009201109.htm>. Acesso em: 10 de Out. 2019.
  • Galeria de Arte em Buenos Aires / Nicolás Fernández Sanz [Art Gallery in Buenos Aires / Nicolás Fernández Sanz] 14 Out 2015. ArchDaily Brasil. (Trad. Santiago Pedrotti, Gabriel) Acessado 10 Out 2019. <https://www.archdaily.com.br/br/775090/galeria-de-arte-em-buenos-aires-nicolas-fernandez-sanz>
  • MUSEU . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3807/museu>. Acesso em: 10 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
  • O’ Doherty, Brian. Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space. São Francisco: The Lapis Press, 1986.
  • Portugal, Amine. A escultura “Tilted Arc” do artista Richard Serra é removida em Nova York. Cronologia do pensamento Urbanístico. Disponível em: <http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1392>. Acesso em: 10 de Out. 2019.
  • SITE Specific. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo5419/site-specific>. Acesso em: 09 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.

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Sobre este autor
Cita: Susanna Moreira. "Como o espaço transforma a arte: instalações site specific" 11 Out 2019. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/926347/como-o-espaco-transforma-a-arte-instalacoes-site-specific> ISSN 0719-8906

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