Como a "indústria da felicidade" tem transformado a arquitetura nas últimas décadas

Como a "indústria da felicidade" tem transformado a arquitetura nas últimas décadas

Ainda que o livro A Arquitetura da Felicidade não tenha causado muito alvoroço logo após a sua publicação no início dos anos 2000, o conceito defendido pelo seu escritor, Alan de Botton, de que a arquitetura é um elemento fundamental para a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas, parece estar ganhando cada vez mais força e seguidores ao longo dos últimos anos. Pensando nisso, o Canadian Centre for Architecture de Arquitetura (CCA), em parceria com o curador Francesco Garutti, está apresentando uma exposição questionando as maneiras pelas quais a "indústria da felicidade" tem passado a explorar e controlar a vida das pessoas depois da crise financeira de 2008.

Our Happy Life, Architecture and Well-being in the Age of Emotional Capitalism (Nossa Vida Feliz, Arquitetura e Bem-estar na Era do Capitalismo Emocional) é uma exposição de projetos de arquitetura, obras de arte e fotografias. Samuel Medina, editor da Metropolis Magazine, conversou com Garutti para esclarecer os conceitos por trás da exposição do CCA, o impacto das mídias sociais em nossas vidas e o significado da arquitetura nos dias de hoje.

"Lava dwellers” in Kalapana State Wayside Park on the island of Hawaii. Image © John Sanphillippo
"Lava dwellers” in Kalapana State Wayside Park on the island of Hawaii. Image © John Sanphillippo

A ideia para a exposição surgiu depois de um frutífero encontro entre Garutti e o artista Simon Fujiwara durante a Bienal de Berlim em 2016. O trabalho que Fujiwara apresentou durante a nona edição da Bienal alemã - aquela que pretendia apresentava uma visão multicultural inclusiva e tolerante da Alemanha- intitulada The Happy Museum, fazia uma reflexão sobre quanto esta ideia parecia remota no presente. Refletindo sobre isso, em uma era onde até a qualidade de vida passou a ser encarada como uma mercadoria, Garutti começou a perceber que a “verdadeira felicidade” poderia ser encontrada em outras coisas, em outras áreas como jornalismo e a literatura.

O que é felicidade? É um conjunto de valores. É uma agenda política. Então eu pensei comigo mesmo: "Vamos propor aos arquitetos que eles pensem sobre o significado de felicidade." - Francesco Garutti

A exposição é uma espécie de documentação de produtos, fotografias, documentários e eventos produzidos durante os dez anos que seguiram a crise internacional de 2008. Segundo a minha visão como curador da exposição, este é o período de tempo em que a “felicidade” e a “positividade” passaram a ser a mais poderosas ferramentas de marketing. Durante esse período assistimos a publicação do livro de Will Davies, The Happiness Industry e Richard Layard tornou-se mundialmente famoso por sua teoria da "economia da felicidade".

From Yuri Pattison's "Sleep Industry". Image Courtesy of Canadian Centre for Architecture
From Yuri Pattison's "Sleep Industry". Image Courtesy of Canadian Centre for Architecture

Após a crise financeira de 2008, o conceito de saúde foi estruturalmente alterado, começando nos Estados Unidos e se espalhando para todo o ocidente. Passamos a priorizar a saúde mental sobre aquela física, o que levou a mudar o foco de "felicidade", para ideia de "bem-estar" de uma maneira mais ampla. Paralelamente, a arquitetura testemunhou uma profunda mudança, priorizando o “bem-estar” das pessoas e a “sustentabilidade” sobre a simples ideia de “arquitetura da felicidade”. Garutti explica que a saúde mental passou a ser um elemento fundamental na prática da construção civil. Começamos a falar mais e mais sobre “qualidades ambientais” e com isso, a necessidade de projetarmos estruturas sustentáveis e ambientalmente corretas. Ele destaca essa nova linguagem da arquitetura como algo que despontou no início dos anos 2000 e ganhou uma força impressionante depois da crise mundial de 2008. O Atlanta Marriott Marquis, projetado por John Portman, é um projeto significativo por si só, um edifício que pode ser definido como a "arquitetura da nova felicidade".

Quanto à arquitetura, Garutti está interessado em explorar como os arquitetos passaram a se posicionar, já que a qualidade da arquitetura não pode mais ser apenas avaliada “formalmente”. As empresas agora precisam lidar com projetos urbanos e planos diretores cada vez mais complexos e rigorosos, enquanto os arquitetos estão cada vez mais focados na experiência espacial da arquitetura. Debruçar-se sobre o desenho do espaço de vida faz com que os arquitetos adicionem significado aos seus projetos, algo que para Garutti, é uma das melhores consequências da grande crise de 2008.

From Yuri Pattison's "Sleep Industry". Image Courtesy of Canadian Centre for Architecture
From Yuri Pattison's "Sleep Industry". Image Courtesy of Canadian Centre for Architecture

Our Happy Life, Architecture and Well-being in the Age of Emotional Capitalism está aberta ao público até o próximo dia 13 de Outubro no Canadian Centre for Architecture. Leia o artigo completo na Metropolis Magazine aqui.

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Sobre este autor
Cita: Stouhi, Dima. "Como a "indústria da felicidade" tem transformado a arquitetura nas últimas décadas" [The Impact of the "Happiness Industry" on Architecture ] 21 Mai 2019. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/917365/como-a-industria-da-felicidade-tem-transformado-a-arquitetura-nas-ultimas-decadas> ISSN 0719-8906

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