Para quem fazemos renders hiper-realistas?

Para quem fazemos renders hiper-realistas?

A pergunta pode parecer direta, mas a busca pelas respostas pode apontar para uma série de caminhos mais complexos que contribuem não apenas para o entendimento do público-alvo das renderizações hiper-realistas na arquitetura, mas também para problematizar quais são seus objetivos.

Vessel Public Landmark / Heatherwick Studio. Courtesy of Getty Images / Forbes MassieRender realizado por Nicholas Holanda. Imagem cortesia de CURAZaha Hadid Architects projeta a sede do CECEP em Shanghai. Render por Negativ.com. Image © Zaha Hadid ArchitectsLazy Sunday morning, rendered in Lumion by Gui Felix (project by Marcio Kogan of MK27)+ 7

Ainda que o público a quem a imagem é direcionada não seja propriamente o cliente de um projeto que de fato será construído, este método de representação tem como um de seus maiores atributos a promessa de oferecer uma imagem muito próxima à “realidade”. Por este motivo, as renderizações hiper-realistas não raramente costumam ser confundidas com imagens fotográficas, que neste caso retratam o edifício já construído.

Vessel Public Landmark / Heatherwick Studio. Courtesy of Getty Images / Forbes Massie
Vessel Public Landmark / Heatherwick Studio. Courtesy of Getty Images / Forbes Massie

Esta aproximação se deu a partir de um processo de constante aprimoramento das tecnologias, softwares e técnicas de renderização, com o paralelo surgimento de escritórios especializados na produção de maquetes eletrônicas e imagens hiper-realistas.

Peruri88 in Jakarta. Image © RSI-Studio
Peruri88 in Jakarta. Image © RSI-Studio

Na arquitetura, a visualização tridimensional – seja por meio de maquetes físicas, croquis, colagens etc. – é essencial para o entendimento do projeto por uma pessoa não familiarizada com desenhos mais técnicos e bidimensionais, como cortes ou plantas baixas. Com o desenvolvimento das renderizações hiper-realistas, as visualizações atingiram níveis de detalhamento muito elaborados. As configurações das rugosidades, reflexos e demais parâmetros de cada textura do ambiente somam-se ainda à meticulosidade no posicionamento da câmera e à edição da imagem em um processo conhecido como pós-produção, gerando assim uma cena quase fotográfica.

Zaha Hadid Architects projeta a sede do CECEP em Shanghai. Render por Negativ.com. Image © Zaha Hadid Architects
Zaha Hadid Architects projeta a sede do CECEP em Shanghai. Render por Negativ.com. Image © Zaha Hadid Architects

Se todos esses recursos podem, por um lado, oferecer uma ideia próxima ao que se entende por “real”, por outro, também auxiliam na construção de uma nova percepção sobre ela. Isto é, os limites entre o real e o virtual tornam-se pouco claros, e exatamente por isso, são capazes de forjar uma noção do que o edifício irá aparentar quando construído. Essa situação é recorrente, por exemplo, nas renderizações utilizadas para propagandas de empreendimentos imobiliários que desconsideram o entorno construído, fazendo com que as pessoas acreditem que o edifício tenha amplas vistas de paisagens naturais no intuito de impulsionar as vendas.

Nesse sentido, poderia-se dizer que nesses casos a “hiper-realidade”, por assim dizer, na verdade parece se afastar da noção de “real” que almeja, tornando-se menos um produto destinado à compreensão das soluções arquitetônicas pelo cliente que um produto com fins comerciais.

Vessel Public Landmark / Heatherwick Studio. Courtesy of Forbes Massie_Heatherwick Studio
Vessel Public Landmark / Heatherwick Studio. Courtesy of Forbes Massie_Heatherwick Studio

De forma semelhante à fotografia, a renderização hiper-realista tem um papel “embelezador” que pode transformar a imagem, mais que o objeto retratado, no padrão do belo. Este caráter sedutor das imagens hiper-realistas obtidas através da renderização colaboram para o seu sucesso na divulgação e comercialização de projetos e também nos concursos de arquitetura.

Por outro lado, as renderizações hiper-realistas podem, mais do que representar o projeto como uma espécie de imagem-produto, fazer parte do processo e guiar decisões ainda durante a sua elaboração. Nesse sentido, a possibilidade de reconhecer a influência da luz solar nos ambientes e visualizar a composição de texturas utilizadas, por exemplo, podem influenciar em decisões incluídas ainda no processo projetual, revelando-se assim, uma ferramenta muito útil para os próprios arquitetos e escritórios de arquitetura.

Render realizado por Nicholas Holanda. Imagem cortesia de CURA
Render realizado por Nicholas Holanda. Imagem cortesia de CURA
Lazy Sunday morning, rendered in Lumion by Gui Felix (project by Marcio Kogan of MK27)
Lazy Sunday morning, rendered in Lumion by Gui Felix (project by Marcio Kogan of MK27)

Seriam então os renders hiper-realistas um produto concebido pelos arquitetos para si próprios enquanto ferramenta projetual? Uma imagem destinada a um público não-especializado a fim de possibilitar uma maior compreensão da arquitetura? Ou, ainda, seriam uma forma de atrair clientes a partir do seu apelo visual? 

Estes questionamentos, mais que provocar respostas diretas e irrefutáveis, parecem apontar para outras direções e reflexões sobre o papel das renderizações na arquitetura. Entre elas, parece reforçar a noção de que a forma de representação a ser utilizada depende do projeto, do arquiteto e também, em grande parte, de para quem ela é destinada.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Rendering. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Susanna Moreira. "Para quem fazemos renders hiper-realistas?" 09 Mai 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/960537/para-quem-fazemos-renders-hiper-realistas> ISSN 0719-8906

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