Seriam os subúrbios as cidades do futuro?

Seriam os subúrbios as cidades do futuro?

Os subúrbios americanos—como os conhecemos hoje—estão mudando, e embora esta transformação já esteja em curso a algum tempo, sua situação foi decisivamente agravada pela corrente pandemia. Em um momento em que temos sido convidados a passar mais tempo em casa do que talvez gostaríamos, passamos a reavaliar nossas próprias prioridades e a questionar o nosso atual modo de vida. Como consequências disso, boa parte dos habitantes das grandes cidades nos Estados Unidos, a qual historicamente se concentra em áreas urbanas, está se deslocando para o interior de forma aparentemente definitiva. Por assim dizer, estamos testemunhando um recente fenômeno de esvaziamento dos grandes centros do país, com a população urbana deixando as cidades em em busca de melhores condições de vida, neste caso, mais espaço, privacidade e tranquilidade. Acontece que, com o passar dos anos, os subúrbios americanos caíram nas graças da classe média, transformando-se na principal vertente de expansão urbana no país.

Há algumas décadas, o maior sonho de todo americano médio era construir a sua própria casa em algum dos centenas de milhares de subúrbios espalhados pelos quatro cantos do país. Estabelecer-se nos arredores de uma grande cidade era considerado um modo de vida quase perfeito, afastado da turbulenta agitação do centro da cidade. Com isso, a estrutura urbana do país inteiro foi sendo moldada, cidades pensadas para carros onde é praticamente impossível ir caminhando até o supermercado, a escola ou a igreja. Levando isso em consideração, nos cabe perguntar: será que os subúrbios americanos ainda existirão em um espaço de tempo de 30 anos? Ou será que encontraremos novas formas de lidar com este fenômeno?

Em primeiro lugar, é importante definir o que queremos dizer quando nos referimos a “subúrbios”. Embora localizados em zonas periféricas, subúrbios não podem ser considerados apenas áreas urbanas “adjacentes às grades cidades”, como no caso do conglomerado de centros urbanos que compõe a chamada Bay Area na região metropolitana de San Francisco. Os subúrbios americanos por excelência são cidades autônomas, um modelo de urbanização associado à expansão urbana, à dependência de automóveis e a predominância de zonas residências de uso exclusivo e de baixa densidade. Embora por décadas e décadas era muito fácil identificar os limites entre as áreas urbanas e suburbanas, entre as cidades e os subúrbios, essa fronteira começou lentamente a desaparecer à medida que as cidades avançavam em direção à periferia e os subúrbios se espalhavam para todos os lados. Como resultado disso, criou-se uma fusão entre cidade e subúrbio, um único e monótono padrão de urbanização que, com excessão das grandes metrópoles e das imensas áreas desabitadas do país, cobre praticamente toda a extensão do território nacional americano.

Pratt Landing Masterplan. Imagem © Twining Properties
Pratt Landing Masterplan. Imagem © Twining Properties

Tenhamos como exemplo a cidade de New Rochelle, mundialmente famosa como uma cidade dormitório subserviente à cidade de Nova Iorque—o refúgio perfeito para quem, ao final de uma cansativa jornada de trabalho, quer fugir da agitação da vida na maior cidade dos Estados Unidos. Guarnecida de uma ampla oferta de transporte público de e para Manhattan e com um custo de vida muito mais razoável, New Rochelle é um excelente exemplo do subúrbio americano por excelência. Mas, acontece que, sua identidade está se transformando muito rapidamente. A vida em New Rochelle já não é tão diferente assim da vida na cidade de Nova Iorque, a ponto de estar sendo rebatiza de “New New Rochelle”, ou seja, uma cidade autônoma, com seus próprios recursos, negócios, hotéis, arranha-céus e até mesmo uma cena cultural própria. Isso significa que New Rochelle, assim como muitos dos subúrbios americanos, não precisa mais estar a serviço de uma cidade irmã maior e mais importante. Antigos subúrbios estão se transformando em novas cidades, áreas urbanas auto-centradas, autônomas e independentes. Como decorrência deste fenômeno, novas leis de zoneamento foram submetidas e aprovadas, transformando New Rochelle em um canteiro de obras a céu aberto, adicionando à sua estrutura urbana mais de 1 milhão de metros quadrados de novos empreendimentos ao longo dos últimos anos.

New Development in New Rochelle, just north of New York City. Imagem via Ideally New Rochelle
New Development in New Rochelle, just north of New York City. Imagem via Ideally New Rochelle

Outro exemplo similar é a cidade de Columbus, uma típica cidade do meio-oeste e capital do estado de Ohio. Formalmente limitada e demarcada por um amplo sistema rodoviário de circunvalação que a conecta aos seus múltiplos pequenos subúrbios, a cidade e Columbus conta com uma muito modesta área central, com poucos edifícios residenciais e comerciais isolados. Mas se formos parar para analizar com mais atenção aquilo que acontece um pouco mais além do centro da cidade, onde normalmente encontramos os típicos bairros periféricos e suburbanos, nos deparamos com uma série de pequenas cidades que se reinventaram com o passar dos anos e atualmente contam com seus próprios centros comerciais, edifícios residenciais em altura e um amplo sistema de mobilidade que as conecta ao centro de Columbus. Em direção noroeste, Dublin Bridge Park estabeleceu seu próprio microcosmo a ponto de rivalizar com a própria cidade capital, atraindo novos empreendimentos, negócios, restaurantes e melhor do que isso, contando com uma urbanidade e modo de vida completamente diferente da cidade de Columbus.

Ainda assim é importante ressaltar que os subúrbios, como os conhecemos hoje, não serão os mesmos no futuro próximo. À medida que a tecnologia, o urbanismo e até mesmo o nosso próprio modo de vida se transforma, nossas cidades e subúrbios não terão um destino muito diferente. Este histórico padrão de urbanização, baseado em um expansão urbana horizontal de baixa densidade, está finalmente sucumbindo dos próprios males que ele mesmo ajudou a criar. Cidades satélite, historicamente dependentes dos seus centros gravitacionais, começaram a evoluir paralelamente para lidar com os principais problemas do século XXI. Para aqueles que estão pensando em deixar a cidade grande para viver em uma cidade menor, pode até ser que o seu estilo de vida não mude muito, mas com certeza mudará para melhor.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: O Futuro das Cidades. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Overstreet, Kaley. "Seriam os subúrbios as cidades do futuro?" [Are Suburbs the New Cities? Exploring the Future of Suburban Development in the United States] 13 Jan 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/954787/seriam-os-suburbios-as-cidades-do-futuro> ISSN 0719-8906

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