Para além da escala humana: ecossistemas, migrações e paisagens desumanizadas

Para além da escala humana: ecossistemas, migrações e paisagens desumanizadas

A escala humana na arquitetura abrange desde dimensões físicas de um determinado edifício ou ambiente construído até a percepção ou experiência do espaço por meio dos sentidos. Portanto, a escala humana pode ser entendida como um parâmetro que surge do confrontamento entre o nosso corpo e o ambiente no qual estamos inseridos. Entretanto, à medida que passamos a observar a arquitetura para além da escala humana, onde a ergonometria já não mais desempenha um papel primordial na concepção do espaço e seus componentes, nos deparamos com uma série de novas tipologias arquitetônicas, as quais nos permitem refletir e repensar a maneira como concebemos nossos edifícios e espaços urbanos.

Dairy Farms & Greenhouses | Automated Landscapes. Imagem © Johannes SchwartzCaribou Pivot Stations. Imagem Cortesia de Lateral OfficeTurning Dunes into Architecture. Imagem Cortesia de Magnus LarssonData Center. Imagem Cortesia de Intel+ 13

Dairy Farms & Greenhouses | Automated Landscapes. Imagem © Johannes Schwartz
Dairy Farms & Greenhouses | Automated Landscapes. Imagem © Johannes Schwartz

Ao longo dos últimos anos, disciplinas como a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo, têm começado a lidar com uma série de conceitos espaciais  emergentes, principalmente aqueles relacionados à chamada “ecologia performativa”. Diferentemente dos ambientes construídos mais tradicionais, onde nos situamos a partir de uma experiência corpórea e portanto, física do espaço, ecologias performativas ou performáticas, prescindem de qualquer limite físico. Como espaços arquitetônicos “inteligentes” capazes de dialogar conosco através de uma interface já não mais apenas física, estas ecologias nos permitem imergir em vários territórios distintos, engendrando complexos sistemas de escalas para além daquela humana. Neste contexto, ecologias também afetam a maneira como percebemos e nos relacionamos com a paisagem natural e o meio ambiente. Como consequências disso, arquitetos e arquitetas têm se dedicado com cada vez mais intensidade à exploração de projetos de edifícios e espaços onde a escala humana—aparentemente—já não mais desempenha um papel fundamental.

Já faz mais de dez anos que o arquiteto sueco Magnus Larsson recebeu o Prêmio LafargeHolcim. Tal honraria lhe foi outorgada em reconhecimento à seu inovador projeto no qual ele utilizava a biotecnologia para criar uma barreira natural para a contenção da expansão do deserto de Sokoto, na Nigéria. Apropriando-se da biotecnologia para criar uma faixa de proteção “anti-desertificação”, Larsson encontrou uma forma de frear o rápido avanço do deserto do Saara, o qual se deslocava em direção sul a um ritmo de cerca de 600 metros por ano, consumindo uma faixa de dois metros de área cultivável por dia—forçando os moradores da região a migrar constantemente.

Turning Dunes into Architecture. Imagem Cortesia de Magnus Larsson
Turning Dunes into Architecture. Imagem Cortesia de Magnus Larsson

A solução encontrada por Magnus Larsson utiliza microorganismos vivos capazes de combinar a areia solta das dunas à moléculas de arenito, criando formações semelhantes a dunas estáveis e desta forma freando o avanço do deserto e promovendo a recomposição natural da mata nativa que protege a terra do avanço das dunas. Fixando a areia solta do deserto, a bactéria Bacillus Pasteurii ajuda a conter a destruição causada pela desertificação. Essas novas dunas protegem o território criando uma espécie de oásis que permite aos moradores da região permanecerem em seus lugares de origem. Embora seja vista como uma estratégia conceitual, essa proposta poderia ser encarada como uma espécie de “arquitetura do território” porém, com uma escala humana implícita. Ao debruçar-se sobre um problema territorial na macro-escala, Larsson encontrou uma solução capaz de ressignificar a relação das pessoas com o próprio território.

Caribou Pivot Stations. Imagem Cortesia de Lateral Office
Caribou Pivot Stations. Imagem Cortesia de Lateral Office

Atualmente, poucos escritórios de arquitetura do mundo se dedicam à construção de sistemas—mais do que projetos. O Lateral Office é uma empresa dedicada ao desenvolvimento de soluções sistemáticas, ou oportunismo de infraestrutura como eles costumam chamar. Oportunismo, neste sentido, significa encarar o projeto de infraestruturas na escala territorial e continental como uma oportunidade para repensar a própria prática da arquitetura. Na intersecção entre o projeto do território, dos fenômenos migratórios de animais selagens e do atual nível de desenvolvimento das máquinas e novas tecnologias, seus projetos para as Estações Pivot Caribou podem ser vistos como um ótimo exemplo de projeto para além da escala humana. Conforme a própria equipe de projeto descreve, a proposta para as Estações Pivot Caribou se apropria da entrada de investimentos para as estações de pesquisa do Ártico, redirecionando parte deste capital para promover a salvaguarda de uma espécie local de rena ameaçada de extinção, fundamental para a manutenção do equilíbrio ambiental em todo o Ártico.

Caribou Pivot Stations. Imagem Cortesia de Lateral Office
Caribou Pivot Stations. Imagem Cortesia de Lateral Office

Com o passar dos anos, a medida que a camada de gelo no polo Ártico continua a crescer verticalmente, as renas encontram cada vez mais dificuldade em encontrar alimento. Da mesma forma, elas migram para o norte durante o verão para parir seus filhotes e voltam ao sul durante os meses de inverno. Pensando nisso, a equipe da Lateral Office propôs uma série de intervenções, ou estação de pesquisa, em pontos-chave ao longo das rotas migratórias das renas. Cada estação é capaz de criar um microclima, transformando áreas de gelo em campos de forragem que fornecem alimento fresco para os animais selvagens. A instalação destas estruturas, por fim, permite a proliferação de líquen que servirá de alimento para os rebanhos de renas. Como uma proposta arquitetônica concebida para resolver problemas para além da escala humana, a própria arquitetura é então ressignificada.

Encarando a arquitetura através de uma ótica complemente diferente, porém também alheia a escala humana, a arquiteta Andreea Cutieru—por sua vez—se dedica ao estudo dos ambientes construídos para máquinas. Como ela afirma, “concebidas para atender às crescentes demandas de uma sociedade cada vez mais dependente de máquinas, estas tipologias representam a antítese da abordagem centrada no usuário, evidenciando o surgimento de uma arquitetura onde a escala humana já não mais importa, onde os parâmetros que definem seus espaços parecem completamente alheios à condição humana em seu sentido mais amplo.”

Hunt Library. Imagem © Mark Herboth
Hunt Library. Imagem © Mark Herboth

Observando atentamente o trabalho desenvolvido por arquitetos como Liam Young e Geoff Manaugh, podemos considerar que espaços concebidos para máquinas autônomas ou semi-autônomas também contam com qualidades hápticas e ópticas. Segundo os arquitetos do escritório BERG, com sede em Londres, máquinas também contam com necessidades sensoriais específicas. Na atual era do Antropoceno, a escala da arquitetura e da paisagem é também a escala das máquinas. Isso significa que a escala humana está perdendo espaço, ou tendo que dividir as atenções dos arquitetos e arquitetas com outras escalas—ainda que isso não significa necessariamente que a escala humana esteja perdendo importância. Fato é que, a inteligência artificial e o aprendizado de máquina estão condicionando o mundo em que vivemos e portanto, transformando a maneira como nos relacionamos com a arquitetura e com o espaço construído.

Data Center Infrastructure. Imagem © Trevor Paglen
Data Center Infrastructure. Imagem © Trevor Paglen

Embora o futuro continue sendo uma incógnita, podemos sim aprender muito sobre a escala humana observando projetos que até parecem não importar-se com ela. Como foi dito no início, a escala humana também se refere a maneira como percebemos ou experimentamos o espaço por meio de nossos sentidos. Desta forma, nossos projetos de arquitetura devem primeiramente, e acima de tudo, fazer com que as pessoas reflitam sobre a sua própria condição humana. Isso significa dizer que, seja projetando ecossistemas desérticos, facilitando fenômenos migratórios de espécies selvagens ou construindo edifícios concebidos para máquinas, também estamos tangenciando, de alguma maneira, a dimensão humana da arquitetura e do espaço.

Este artigo faz parte do Tópico do Mês do ArchDaily: Escala Humana. Cada mês exploramos um tópico em profundidade por meio de artigos, entrevistas, notícias e obras. Conheça mais sobre nossos tópicos aqui. E como sempre, nós do ArchDaily, valorizamos as contribuições de nossos leitores. Se você deseja enviar um artigo ou trabalho, entre em contato conosco.

Sobre este autor
Cita: Baldwin, Eric. "Para além da escala humana: ecossistemas, migrações e paisagens desumanizadas" [Beyond Human-Scale: Designing for Ecosystems, Migration and Machines] 01 Nov 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/950397/para-alem-da-escala-humana-ecossistemas-migracoes-e-paisagens-desumanizadas> ISSN 0719-8906

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