Paisagens desumanizadas: arquiteturas construídas para as máquinas

Paisagens desumanizadas: arquiteturas construídas para as máquinas

Centros de processamento de dados, linhas de produção automatizadas, torres de telefonia e depósitos são algumas das principais tipologias utilitárias que povoam o nosso ambiente construído, infra-estruturas cada vez mais importantes para o desenvolvimento da vida cotidiana. Ainda que estejam longe de tangenciar o interesse da maioria dos arquitetos e arquitetas, estas tipologias estão se fazendo cada dia mais presentes em nossas vidas e, consequentemente, no discurso arquitetônico — levantando questões sobre como podemos dar um novo significado à estas estruturas que sustentam as engrenagens da nossa atual sociedade.

Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu SingletonDatacenter AM3 by Benthem Crouwel Architects. Image © Jannes LindersFacebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu SingletonSnøhetta's The Spark data centre. Image Courtesy of Snøhetta/Plompmozes+ 10

Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton
Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton

Concebidas para atender às crescentes demandas de uma sociedade cada vez mais dependente de máquinas, estas tipologias representam a antítese da abordagem centrada no usuário, evidenciando o surgimento de uma arquitetura onde a escala humana já não mais importa, onde os parâmetros que definem seus espaços parecem completamente alheios à condição humana em seu sentido mais amplo. Aqui, as decisões projetuais são tomadas simplesmente para otimizar o tempo, atender à requisitos técnicos e para tornar os processos mais eficientes. Em meio à um ambiente construído sempre mais mecânico e estranho à nós, deixamos de desempenhar o papel de atores para assumirmos uma posição de coadjuvantes, meros expectadores perdidos em meio aos novos processos que começam a tomar conta da nossa própria existência.

Aparentemente desprovidas de qualquer qualidade arquitetônica e, até certo ponto, alheias à própria condição humana, o que diferencia essas tipologias de uma mera infraestrutura é sua relação com a paisagem humana e cultural. O edifício anônimo que abriga os servidores da Google, por exemplo, pode ser visto como uma espécie de arquivo digital da vida contemporânea. O Centro de Processamento de Dados do Facebook, localizado em Prineville, é um arquivo sócio-cultural da humanidade do século XXI, uma base de dados que compreende detalhes da vida de mais de dois bilhões de pessoas. Rem Koolhaas foi quem brilhantemente percebeu a importância desta tipologia nos dias de hoje: “no momento em que a memória coletiva está migrando para o digital, centros de processamento de dados podem ser vistos como uma de nossas tipologias culturais mais significativas”.

Datacenter AM3 by Benthem Crouwel Architects. Image © Jannes Linders
Datacenter AM3 by Benthem Crouwel Architects. Image © Jannes Linders

Estas tipologias arquitetônicas estão longe de ser novidade no contexto da arquitetura contemporânea. Não nos faltam exemplos de edifícios onde a escala humana parece já não fazem mais nenhum sentido. Tomemos como exemplo o percursor edifício da AT&T em Nova Iorque com suas monumentais paredes cegas concebidas para ocultar os seus complexos sistemas de telefonia. Com o recente desenvolvimento tecnológico e a banalização dos processos autônomos, tais tipologias foram impulsionadas de tal maneira que os arquitetos já não podem mais ignorar o impacto que elas produzem em nosso ambiente construído. É em meio ao caos deste cenário automatizado que reside o espírito desta época. Em uma entrevista à Strelka Mag, o arquiteto Liam Young faz uma comparação entre estas novas tipologias “e as antigas catedrais e bibliotecas”, afirmando que “estas estruturas são responsáveis por corporificar o espírito do nosso tempo”. Trabalhando como editor convidado da Architectural Design no volume intitulado “Machine Landscapes: Architectures of the Post-Antropoceno”, Young fez um mapeamento deste fenômeno, promovendo uma melhor compreensão sobre como os arquitetos desta geração têm se engajado na construção deste novo ambiente construído.

Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton
Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton

A arquitetura, como uma prática em constante evolução, está começando à se dar conta da importância destas estruturas como elementos representativos da nossa cultura e sociedade e mais do que isso, do seu potencial como símbolo de uma nova era. Algumas iniciativas e propostas recentes parecem reconsiderar e até subverter o seu papel meramente utilitário, construindo pontes entre diferentes comunidades e paisagens, sejam elas rurais ou urbanas. Por enquanto, é o centro de processamento de dado a tipologia à chamar mais atenção dos arquitetos e arquitetas. O coletivo de arquitetura Project Rhizome, por exemplo, encontrou neste campo um terreno fértil para explorar e desenvolver projetos e intervenções urbanas atraentes que encontram-se na interface entre à infra-estrutura da internet e os espaços públicos.

Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton
Facebook Prineville Data Center by Sheehan Partners. Image © Jonnu Singleton

Da mesma forma, o projeto conceitual The Spark—desenvolvido pelo Snøhetta—, apresenta uma diferente abordagem à tipologia de data center, fazendo do centro de processamento de dados mais um componente integrado ao tecido urbano, transformando um edifício de alto consumo em uma verdadeira fonte de energia, redirecionando o excesso de calor de seus geradora para aquecer outras instalações públicas do entorno. As imagens apresentadas pela equipe do Snøhetta revelam um edifício ativador do espaço público ao seu redor, incorporando ainda programas voltados à comunidade local. Uma outra releitura possível é aquela apresentada pelo Mecanoo em sua proposta para o Qianhai Data Center, segunda colocada no concurso internacional de projetos naquela ocasião. Os arquitetos holandeses apresentam diversas estratégias possíveis de como integrar este programa utilitário ao seu contexto urbano, como a transformação de suas paredes opacas em projetores digitais além da criação de novas conexões com o entorno imediato através de um edifício em forma de pódio que acolhe uma série de espaços para escritórios e coberturas verdes acessíveis.

Snøhetta's The Spark data centre. Image Courtesy of Snøhetta/Plompmozes
Snøhetta's The Spark data centre. Image Courtesy of Snøhetta/Plompmozes

Apesar destes valiosos esforços, a maioria destes projetos encontram-se em áreas periféricas, cidades pequenas e até rurais. Como resultado disso, estes projetos parecem mais uma espécie de ilusão, algo que nunca virá a ser. Rem Koolhaas, um arquiteto que tem levado à nossa disciplina para além de seus limites conhecidos, argumenta que é exatamente nessas condições, ou neste âmbito, que a arquitetura contemporânea encontrará seu verdadeiro life motif. Em busca de um meio termo entre os dois grandes tópicos de interesse de seu escritório—a tipologia de museu e as áreas suburbanizadas—, o OMA têm focado seus esforços no desenvolvimento de estratégias programáticas de ativação destas novas infraestruturas através de sua interação com o público. Se por um lado assistimos à uma “estagnação” da tipologia museológica, por outro lado o número de obras atualmente armazenadas em seus acervos e coleções continua crescendo, transformando nossos museus e uma espécie de “centro de dados”. Pensando nisso, o OMA especula em torno da ideia de fundir estas duas categorias de armazenamento de dados, articulando estas paisagens desumanizadas com o espaço público que às cerca.

Mecanoo's Qianhai Data Center proposal. Image Courtesy of Mecanoo
Mecanoo's Qianhai Data Center proposal. Image Courtesy of Mecanoo

Acontece que, infraestruturas utilitárias costumam ser concebidas como uma mera solução de problemas e portanto, carecem de qualquer intenção estética. Os componentes arquitetônicos que dão suporte ao nosso atual modus vivendi, como centros de processamento de dados, de logística e linhas de produção automatizadas, são projetados e construídos por engenheiros e empresas especializadas apenas em construir infra-estruturas funcionais. Embora estejam situadas às margens da arquitetura, formalmente falando, essas tipologias representam um terreno fértil para a exploração de novas soluções, escala e medidas—uma porta de entrada para questionarmos a própria arquitetura e o seu potencial em construir um novo discurso estético. Mais uma vez, a tecnologia está levando a nossa disciplina para além de seus limites, e os arquitetos, para fora de sua zona de conforto. Ao invés de darmos um passo atrás, afirmando que estas estruturas encontram-se além dos limites da nossa disciplina, essa pode ser a oportunidade que precisávamos para voltar a pensar a arquitetura a partir de um lugar outro. 

Santander Datacenter by LoebCapote Arquitetura e Urbanismo. Image © Leonardo Finotti
Santander Datacenter by LoebCapote Arquitetura e Urbanismo. Image © Leonardo Finotti

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Sobre este autor
Cita: Cutieru, Andreea. "Paisagens desumanizadas: arquiteturas construídas para as máquinas" [Architecture Without People: the Built Environment of Machines] 21 Out 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/949332/paisagens-desumanizadas-arquiteturas-construidas-para-as-maquinas> ISSN 0719-8906

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