A importância do ambiente na abordagem Reggio Emilia

A importância do ambiente na abordagem Reggio Emilia

Redbridge School / ARX Portugal Arquitetos. Image © Fernando Guerra | FG+SGCreche Leimond-Shonaka / Archivision Hirotani Studio. Image © Noriko MomoiKindergarten in Guastalla / Mario Cucinella Architects. Image © Moreno MaggiCentro Infantil El Guadual / Daniel Joseph Feldman Mowerman + Iván Dario Quiñones Sanchez. Image © Ivan Dario Quiñones Sanchez+ 48

A pedagogia Reggio Emilia foi criada no período pós-segunda-guerra, por iniciativa de mães viúvas e sob a coordenação do pedagogo e jornalista Loris Malaguzzi. Em uma época de reconstrução das cidades, a preocupação primordial do grupo era em relação às novas escolas, onde desejavam criar um ambiente tranquilo, acolhedor e alegre (com uma atmosfera de lar) onde as crianças pudessem ficar enquanto as mães trabalhavam. Entender os interesses da criança e proporcionar um ambiente adequado para permitir experimentos e exploração é um dos pontos focais dessa pedagogia. A preparação de um ambiente seguro e estimulante é tão fundamental que, em muitas literaturas, ele aparece como um terceiro professor.

Creche Leimond-Shonaka / Archivision Hirotani Studio. Image © Kurumata Tamotsu
Creche Leimond-Shonaka / Archivision Hirotani Studio. Image © Kurumata Tamotsu

A criança é entendida como um ser potente e capaz; sua curiosidade inata é o combustível que guia seu aprendizado, pois é através dela que a criança experimenta, absorve e constrói seu aprendizado sobre o mundo. E seu desenvolvimento deve ocorrer em todas as suas linguagens: expressivas, comunicativas, cognitivas, éticas, lógicas, imaginativas e racionais.

Princípios básicos da pedagogia Reggio Emilia

  1. A criança é protagonista de seu desenvolvimento.
  2. Adulto como colaborador, observador e guia do processo de aprendizagem das crianças.
  3. Ambiente como ferramenta importante para relações, comunicações e encontros.
  4. 'Pedagogia da escuta'. Ouvir a criança como gostariam de serem ouvidos eleva sua autoestima.
  5. Vivência coletiva. A experiência em sociedade, o aprendizado em comunidade e a cooperação são fundamentais para o desenvolvimento das crianças como indivíduos.
  6. Importância da criatividade para conectar: ética e estética; razão e imaginação. A arte (em todas suas expressões) é entendida como uma maneira de pensar.
  7. A documentação do trabalho como entendimento e valorização do seu processo (não apenas de seu resultado).

Beelieve Preeschool of Life / 3Arquitectura. Image © Leonardo Finotti
Beelieve Preeschool of Life / 3Arquitectura. Image © Leonardo Finotti

O terceiro professor

O ambiente reggiano é visto como um terceiro professor. Sua importância se equipara à dos outros dois professores que conformam a equipe em cada uma das salas de aula. Isso porque ele é visto como 'algo' que educa a criança, por convidá-la que o explore com liberdade e segurança, guiando seu aprendizado.

"Valorizamos o espaço devido a seu poder de organizar, de promover relacionamentos agradáveis entre pessoas de diferentes idades, de criar um ambiente atraente, de oferecer mudanças, de promover escolhas e atividades e a seu potencial para iniciar toda a espécie de aprendizado social, afetiva e cognitiva. Tudo isso contribui para uma sensação de bem-estar e segurança nas crianças. Também pensamos que o espaço deve ser uma espécie de aquário que espelhe as ideias, os valores, as atitudes e a cultura das pessoas que vivem nele". (Loris Malaguzzi, em 1984 in (EDWARDS; FORMAN; GANDINI, 2016, p. 148)

Beelieve Preeschool of Life / 3Arquitectura. Image © Casablanca
Beelieve Preeschool of Life / 3Arquitectura. Image © Casablanca

O lugar reggio é muito mais do que "apenas útil e seguro" (EDWARDS; FORMAN; GANDINI, 2016, p. 138), mas sim um espaço que incentiva o pertencimento das crianças, bem como sua comunicação com o restante dos usuários, sejam eles outras crianças ou adultos. Pode-se afirmar que o ambiente ensina através dos estímulos e das experiências que ele proporciona ao aprendizado e ao desenvolvimento de cada criança em particular.

SkyPlay: North Perth School of Learning / Tom Godden Architects & Matthew Crawford Architects. Image © Peter Bennetts
SkyPlay: North Perth School of Learning / Tom Godden Architects & Matthew Crawford Architects. Image © Peter Bennetts

Por entender a criança como parte da comunidade, a pedagogia reggiana também busca sempre inseri-la como parte também da responsabilidade pela vida em sociedade. Frequentemente são organizadas atividades que levam as crianças às ruas dos bairros e aos marcos históricos das cidades para que ela possa vivenciá-la. Nenhuma escola que siga Reggio Emilia pode ser construída ou reformada sem que seu contexto urbano seja considerado e analisado. Portanto, é difícil definir regras a serem seguidas, mas há parâmetros que se repetem em todas elas. São os seguintes:

1. Elementos arquitetônicos são entendidos como parte do material didático das aulas. Os tetos e as paredes, por exemplo, são importantes elementos de exposição e documentação das obras de artes (como esculturas, pinturas ou móbiles) feitas pelas crianças.

2. Iluminação natural é aproveitada para criar efeitos de luz e cores que estimulam a curiosidade e a criatividade. Neste aspecto, lanternas, mesas de luz, focos de luz naturais e espelhos também contribuem bastante.

SkyPlay: North Perth School of Learning / Tom Godden Architects & Matthew Crawford Architects. Image © Peter Bennetts
SkyPlay: North Perth School of Learning / Tom Godden Architects & Matthew Crawford Architects. Image © Peter Bennetts

3. Ambiente aconchegante que visa a sensação de acolhimento está presente na atmosfera de interiores que devem estar sempre organizados e convidativos. 

4. Flexibilidade dos interiores que, de preferência não têm elementos fixos, para assegurarem rapidez e segurança na modificação proposta pelas próprias crianças. Por isso, a maioria das escolas reggianas possuem um mobiliário planejado normalmente em madeira. 

Escola Infantil Beelieve / 3Arquitectura. Image © Leonardo Finotti
Escola Infantil Beelieve / 3Arquitectura. Image © Leonardo Finotti

5. Praças centrais necessárias para promover espaços de encontro. Normalmente a organização espacial é feita por praças centrais (piazzas) para as quais convergem todos os ambientes do programa: grandes e pequenos ateliês, biblioteca, áreas administrativas, cozinha, refeitório, sanitários, espaços para brincadeiras com água etc. Quando o projeto não contempla uma praça central, um jardim é posicionado no lugar mais conveniente. Todos os itens de programa do edifício precisam ser eficientes e agradáveis. Não há marginalização entre os ambientes servidos e os servidores.

6. Paredes de vidro tem a função de conectar jardins internos e externos. Oferecem maior incidência de luz natural, permitem brincadeiras com transparências e reflexos e, além disso, dão uma maior sensação de comunidade pois é possível ver outras crianças trabalhando entre as salas. 

Escola René Beauverie / Dominique Coulon & associés. Image © Eugeni PONS
Escola René Beauverie / Dominique Coulon & associés. Image © Eugeni PONS

7. Banheiros lúdicos onde os espelhos são comumente recortados em diferentes formatos para proporcionarem uma experiência mais divertida.

8. Recolhimento. Há espaços menores estrategicamente posicionados para proporcionar refúgio para as crianças que sentirem essa necessidade emocional.

Escola Infantil Beelieve / 3Arquitectura. Image © Casablanca
Escola Infantil Beelieve / 3Arquitectura. Image © Casablanca

9. Ritmo e movimento são valorizados. Eles estão presentes na organização ritmada dos espaços e dos elementos arquitetônicos e também no incentivo à atividades com essas características.

10. Organização e acessibilidade. A organização do espaço permite que a criança reconheça a atividade que mais lhe interessa e que possa ter a autonomia de alcançá-las.

11. Democracia em treinamento. Alunos e professores decidem diariamente as atividades do dia (dentre opções previamente selecionadas pelos professores). É bastante comum que haja um elemento arquitetônico como arquibancadas para abrigar essas assembleias.

Kindergarten in Guastalla / Mario Cucinella Architects. Image © Moreno Maggi
Kindergarten in Guastalla / Mario Cucinella Architects. Image © Moreno Maggi

Em relação às salas de aula, há diferentes abordagens conforme as idades das crianças.

Nos espaços para crianças de 0 a 3 anos a maior preocupação no ambiente para as crianças menores é com o aconchego e a segurança para que os bebês possam engatinhar. Há nele uma variedade de objetos que estimulam o movimento. É muito frequente o uso de paredes de vidro para separar a área dos bebês das demais áreas para que não se sintam sozinhos no ambiente. O ateliê para essa idade utiliza materiais como farinha e tintas valorizando a experiência sensorial das crianças. 

Já nas salas para crianças de 3 a 6 anos, os brinquedos disponíveis são todos "não-estruturados" (LEGO®, blocos, animais), preferencialmente feitos em madeira. Há muito material reciclável disponível para o desenvolvimento de projetos e réplicas de itens utilizados em cozinhas residenciais. A maior parte do espaço é coberta por tapetes para que a criança se sinta confortável para explorá-lo livremente. No ateliê dessa faixa etária são utilizados materiais como argila, papéis diversos e arame.

Escuela Infantil Municipal De Berriozar / Javier Larraz + Iñigo Beguiristain + Iñaki Bergera. Image © Iñaki Bergera
Escuela Infantil Municipal De Berriozar / Javier Larraz + Iñigo Beguiristain + Iñaki Bergera. Image © Iñaki Bergera

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Sobre este autor
Cita: Audrey Migliani. "A importância do ambiente na abordagem Reggio Emilia" 25 Jul 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/943136/a-importancia-do-ambiente-na-abordagem-reggio-emilia> ISSN 0719-8906

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