
Nas cidades contemporâneas, a densidade urbana e o aumento do valor da terra frequentemente impõem uma escolha entre edifícios cívicos de grande escala e espaços públicos abertos. Tradicionalmente, as praças eram tratadas como áreas ao redor da implantação do edifício, mas essa lógica foi transformada com a introdução dos pilotis pelo movimento moderno do início do século XX. Embora a intenção original fosse criar uma sensação de leveza que permitisse a circulação e a luz fluírem sob a estrutura, as exigências contemporâneas — como cargas sísmicas, rotas de evacuação e altas taxas de ocupação — tornam colunas esbeltas insuficientes para atender às demandas dos atuais edifícios cívicos de grande porte.
No entanto, a busca pela leveza arquitetônica não é exclusivamente contemporânea. Após a introdução dos pilotis, diversos projetos de meados do século XX passaram a explorar a ilusão de suspensão como forma de alcançar transparência cívica. Em 1953, o Congresso Nacional de Honduras, em Tegucigalpa, projetado por Mario Valenzuela, aplicou esses princípios ao contexto legislativo. O edifício consiste em uma câmara sólida elevada sobre uma série de colunas delgadas. Como o terreno está situado em um platô ao final de uma rua em declive, o vazio resultante vai além da circulação: ele enquadra vistas da cidade, criando a impressão de que o volume pesado está suspenso com leveza sobre o tecido urbano.

Em 1964, o Museu Nacional de Antropologia e História na Cidade do México, projetado por Pedro Ramírez Vásquez, Jorge Campuzano e Rafael Mijares, utilizou um único elemento estrutural para definir seu pátio central. Uma cobertura de 52 × 82 metros é suspensa por um único pilar maciço. Para intensificar a sensação de leveza, os arquitetos desvincularam o perímetro da cobertura dos volumes ao redor e incorporaram uma cascata circular em torno da coluna central. Esse elemento hídrico oculta a conexão estrutural, reforçando a ilusão de que a cobertura é um plano leve e suspenso.
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Em 1970, essa busca evoluiu para vãos estruturais ainda mais ousados. O Pavilhão do Brasil em Osaka, projetado por Paulo Mendes da Rocha, utilizou uma cobertura contínua de concreto com vão de 32,5 metros. Apesar de seu peso significativo, a estrutura é apoiada em apenas quatro pontos: um elemento escultórico singular e três pilares ocultos em montículos de terra. A transição entre esses volumes robustos e os apoios mais estreitos cria a percepção de que a cobertura se encontra em suspensão.


Enquanto esses exemplos de meados do século XX enfatizavam a leveza estética e simbólica das coberturas ou volumes principais, as exigências contemporâneas — como cargas sísmicas e programas mais densos — transformaram esses “pontos esbeltos” em apoios robustos e altamente funcionais. Na arquitetura atual, a estratégia se desloca do objeto puramente suspenso para o suporte habitado, no qual a própria estrutura precisa justificar o vazio que cria. Nesse sentido, surge uma questão: o que permanece sob essas estruturas elevadas?

O primeiro ponto a destacar é que, como resposta à densidade urbana, o projeto cívico contemporâneo tende a considerar que, ao elevar o edifício, ele se configura deliberadamente como suporte para a vida pública. Para alcançar isso em projetos de grande escala, arquitetos têm recorrido à ilusão de formas levitantes. Embora isso sugira um desejo conceitual de dialogar com os ideais modernos, a ideia de um edifício flutuante está ancorada em uma necessidade prática de urbanismo em dupla camada: oferecer área construída conforme normas e, ao mesmo tempo, criar espaços públicos cobertos no nível do solo.
Uma primeira estratégia observada em projetos atuais consiste em concentrar as cargas do edifício em poucos elementos estruturais de grande porte. O LAND Community Center, do escritório EID Architecture, exemplifica essa abordagem ao apoiar o edifício sobre três pilares estruturais ocos, em vez de uma fundação contínua. O edifício parece flutuar sobre uma praça, com bases que, formalmente, se apresentam como volumes suavemente integrados ao solo, tocando-o de forma mínima em relação à massa construída acima. No entanto, esses núcleos são suficientemente amplos para abrigar escadas de emergência e outros serviços. Ao mesmo tempo, a elevação do edifício contribui para a ventilação natural e para a criação de sombra e massa térmica, respondendo às altas temperaturas sazonais do local.


De modo semelhante, o Wave Cube, do escritório Scenic Architecture, utiliza apoios escultóricos em concreto armado, espessos o suficiente para incorporar solo e vegetação. Ao reduzir os pontos de contato com o terreno, o projeto mantém a continuidade do percurso de pedestres e permite que o edifício se estenda sobre o solo. O aspecto mais interessante é que, embora pareça flutuar, a construção é sustentada por oito “conchas” de concreto emergentes do terreno, cada uma suficientemente grande para abrigar funções como salas de exposição, cafés, bares, lojas culturais e áreas técnicas. Esses pontos de apoio se dividem em seis elementos que atuam como paredes estruturais e dois que funcionam como núcleos verticais, integrando suporte estrutural, circulação e instalações prediais.


Uma segunda estratégia faz uso de grandes coberturas. Na Estação de Metrô Qasr Al Hokm, do escritório Snøhetta, os arquitetos projetaram uma cobertura metálica com superfície externa reflexiva, apoiada em uma única parede cônica de grande porte. A infraestrutura pesada — incluindo a maior parte da estrutura de concreto, plataformas e áreas de circulação — está enterrada, deixando visível acima do solo apenas a cobertura. Esse elemento funciona como referência urbana e também reflete luz indireta e vistas da cidade. Para reforçar a sensação de leveza, rampas concêntricas conduzem suavemente ao centro do cone, fazendo com que a cobertura pareça uma lâmina metálica flutuante. Na prática, sua dimensão permite inclusive a instalação de painéis fotovoltaicos para geração de energia.


Outro exemplo com abordagem semelhante é o Centro Nacional Artístico de Kaohsiung, em Taiwan, projetado pelo escritório Mecanoo. O projeto utiliza uma grande cobertura ondulada que se apoia em diversos pontos, criando uma praça coberta. À distância, o edifício parece uma leve superfície metálica suspensa. Na realidade, cada apoio abriga partes significativas do programa — como teatro, auditório e salas de concerto — funcionando como edifícios independentes sob uma mesma cobertura. Os vazios entre esses volumes criam um espaço público protegido, apto a receber atividades culturais. A geometria inferior também favorece a ventilação cruzada, promovendo o resfriamento natural da praça.


De modo geral, esses projetos demonstram que o peso na arquitetura não é apenas uma condição literal. Dependendo de como os arquitetos articulam o contato estrutural com o solo, edifícios de grande escala podem transmitir uma sensação de leveza. Ao mesmo tempo, essas estratégias permitem que o espaço cívico opere em dois níveis simultâneos: o interior programático e a paisagem pública no térreo. Nesse sentido, o vazio público se torna o elemento central, oferecendo sombra, abrigo e permeabilidade — qualidades essenciais para a vida urbana contemporânea de alta densidade.
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