Quando se fala a palavra “trópico”, a imagem que comumente vem à mente é a de um lugar exótico, sempre quente e úmido, sujeito a chuvas pesadas e constantes que lavam o solo e fazem com que a vegetação cresça descontroladamente. Alimentado por uma idealização, no decorrer da história, esse clima tropical já foi sinônimo de paraíso ao mesmo tempo em que era acusado de formar povos débeis por ser clemente demais.
Felizmente, esses julgamentos e associações foram deixados no passado, dando lugar a projetos teóricos e práticos que listam os ônus e bônus de se viver em uma região de clima tropical, reconhecendo as diferentes estratégias aplicadas para favorecer a adaptabilidade humana em meio a essas características climáticas tão peculiares.
A arquitetura no Sul Global frequentemente incorpora uma rica herança cultural e artística, integrando cores, padrões intricados e elementos simbólicos. Ela também enfrenta desafios como recursos limitados, rápida urbanização e desigualdade social, buscando soluções inclusivas e comunitárias. Instalações e pavilhões servem como modelos radicais para questionar esses ideais arquitetônicos e buscar soluções inovadoras. Como parte da nossa retrospectiva de 2023, apresentamos algumas das principais instalações arquitetônicas do ano, abrangendo exposições como a Bienal de Arquitetura de Veneza, além de pavilhões permanentes que exploram materiais locais, reuso de resíduos e ressignificação de narrativas históricas.
Sayulita é uma pequena praia de Nayarit, um estado situado na região oeste do México. Trata-se de uma localidade de cerca de 3.390 habitantes que tem crescido significativamente na última década devido ao grande fluxo de turistas, principalmente dos Estados Unidos e Canadá, que são atraídos pelas paisagens e pelo mar agitado que faz de Sayulita um dos principais destinos para surfistas no México.
A mudança de um país de quatro estações demarcadas para um com clima tropical em 1973 representou uma nova experiência de vida e, na prática da arquitetura, implicou uma adaptação à nova realidade. O contato com os costumes e hábitos da nova vida que se impunha, assim como a arquitetura tradicional que encontramos, indicou que nossa metodologia de projeto e construção deveria mudar para incorporar este novo mundo com seu clima e suas experiências.
A arquitetura tropical, um termo amplamente utilizado no discurso arquitetônico, carece de uma definição consistente. O adjetivo "tropical" refere-se à zona entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, que cobre mais de 40% da superfície da terra. O calor é possivelmente a única característica compartilhada desta faixa. A zona tropical possui uma variedade de climas, desde áridos até úmidos, bem como uma variedade de contextos geográficos, sociais e econômicos. Ao contrário das zonas temperadas ou árticas, um único termo abrangente é usado para descrever a arquitetura dos trópicos.
Children's Learning Center, Mas-in Village / Native Narrative. Image
Desde as primeiras civilizações, a natureza tem sido um pilar fundamental para servir a humanidade como um habitat natural, oferecendo abrigo, alimentos e outros recursos. Nos tempos modernos, as revoluções industriais e tecnológicas tomaram conta da paisagem, remodelando a forma como os humanos interagem com a natureza. No entanto, hoje, e devido aos eventos que experimentamos enquanto sociedade, é cada vez mais necessário focar na criação de cidades e espaços que integrem a natureza à vida cotidiana
Empenhado em criar ambientes para as mais distintas atividades humanas, Armando de Holanda, atuou como arquiteto no Nordeste e, inquieto com as tradições construtivas europeias que se mantinham e se demonstravam inadequadas para a região, criou um conjunto de estratégias que permitem projetar e construir com vista no desempenho da edificação que prioriza o ambiente tropical: a presença da natureza, luz e clima.
https://www.archdaily.com.br/br/967782/roteiro-para-construir-no-nordesteEquipe ArchDaily Brasil
Plan B Guatemala / DEOC Arquitectos. Image Cortesía de DEOC Arquitectos
“Aqui nos trópicos, é a sombra que refresca aquele que se reúne e, ao contrário do fogão, ela está em todo lugar”, diz Bruno Stagno ao explicar sobre a arquitetura tropical.
A Guatemala vem construindo sua sombra ao longo dos anos. Encontramos 3 exemplos que propõem respostas interessantes a este clima. Projetos que materializam tanto grandes telhados com inclinações para criar sombra e evacuar rapidamente as águas da chuva, quanto fachadas perfuradas que permitem o fluxo de ventilação.
O movimento moderno ainda hoje é um assunto que desperta as mais diversas e controversas reações. O mesmo acontece quando falamos do legado da arquitetura moderna. Acontece que não existe apenas um único legado, mas uma série de legados que varia de acordo com a localização geográfica, com o clima, o contexto político, social e econômico de cada país ou região. Embora a gênese do modernismo na arquitetura tenha se dado na Europa e nos Estados Unidos—onde encontram-se alguns dos seus mais representativos exemplares—, para além do mundo ocidental a chamada “arquitetura moderna” foi sendo moldada por arquitetos e arquitetas de acordo com as necessidades de cada contexto específico. No Sri Lanka, por exemplo, o arquiteto Geoffrey Bawa ajudou a cunhar o termo “Modernismo Tropical”, desenvolvendo uma arquitetura sensível e profundamente enraizadas na paisagem. Também podemos encontrar outros surpreendentes edifícios modernistas na Tanzânia, frutos da vasta e consistente obra construída de dois de seus mais importantes arquitetos: Anthony Almeida e Beda Amuli.
"Desde muito pequeno eu me lembro da lareira que tínhamos em casa, de como nos reuníamos ao redor dela. O calor do fogo é uma necessidade básica para as pessoas que vivem no extremo sul do Chile. Aqui, na zona tropical, é o frescor da sombra que reune as pessoas, e ao contrário da lareira, ela está por toda parte".
Atualmente na Costa Rica, o arquiteto Bruno Stagno reflete sobre a sua prática profissional e os projetos que tem desenvolvido ao longo dos últimos anos. Ele reflete sobre como o contexto pode servir como principal fonte de inspiração para um projeto de arquitetura, sobre como as condições climáticas podem ajudar a construir a identidade da arquitetura, e mais do que isso, como para cada latitude do planeta há uma solução específica de projeto.