Roteiro para construir no Nordeste

Roteiro para construir no Nordeste

Sede Castanhas de Caju / Estudio Flume. Foto: Cortesia de Estudio FlumeSede do escritório Lins Arquitetos Associados / Lins Arquitetos Associados. Foto: © Joana França© Joana FrançaCasa Cupe / MNMA studio. Foto: © André Klotz+ 11

Empenhado em criar ambientes para as mais distintas atividades humanas, Armando de Holanda, atuou como arquiteto no Nordeste e, inquieto com as tradições construtivas europeias que se mantinham e se demonstravam inadequadas para a região, criou um conjunto de estratégias que permitem projetar e construir com vista no desempenho da edificação que prioriza o ambiente tropical: a presença da natureza, luz e clima. 

Casa Alagoas / Tadu Arquitetura. Foto: © João Duayer & Nathalie Ventura
Casa Alagoas / Tadu Arquitetura. Foto: © João Duayer & Nathalie Ventura

O "Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados", foi um trabalho de Mestrado de Desenvolvimento Urbano realizado na Universidade Federal de Pernambuco em 1976. Nele, Armando de Holanda apresenta nove pontos que aprimoram o conforto e traduzem parte da identidade local para a arquitetura. Em sua introdução ele traz um trecho da "Fábula de um arquiteto", escrita pelo autor recifense João Cabral de Melo Neto,na qual tece um mote possível para profissionais da arquitetura que pretendem projetar no clima tropical:

A arquitetura como construir portas, de abrir; ou como construir o aberto; construir, não como ilhar e prender, nem construir como fechar secretos; construir portas abertas, em portas; casas exclusivamente portas e tectos. O arquiteto: o que abre para o homem (tudo se sanearia desde casas abertas) portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razão certa. 

A seguir, veja os nove pontos elencados pelo arquiteto exemplificados em projetos construídos na região:

Criar uma sombra

Casa FVB / Claudia Haguiara Arquitetura. Foto: © Christian Maldonado
Casa FVB / Claudia Haguiara Arquitetura. Foto: © Christian Maldonado

A Casa FVB privilegia a qualidade de vida ao ar livre, com espaços cobertos, mas abertos, ela possibilita ventilação cruzada, retirando o calor e a umidade dos ambientes. Aqui, o alto pé-direito do telhado duas águas aumenta a eficiência da cobertura como isolante térmico, uma vez que há um maior volume de ar no ambiente.

Recuar as paredes

Sede do escritório Lins Arquitetos Associados / Lins Arquitetos Associados. Foto: © Joana França
Sede do escritório Lins Arquitetos Associados / Lins Arquitetos Associados. Foto: © Joana França

Com uma fachada sombreada e aberta, a Sede do escritório Lins Arquitetos Associados possui uma cobertura borboleta, solta do edifício, apoiada em uma viga metálica treliçada e em pilares de concreto aparente. Abaixo dela, as paredes recuadas de seu perímetro, estão protegidas do sol e do calor, das chuvas e da umidade - criando uma agradável varanda e também colaborando com o conforto térmico no interior do edifício.

Vazar os muros

Sede Castanhas de Caju / Estudio Flume. Foto: Cortesia de Estudio Flume
Sede Castanhas de Caju / Estudio Flume. Foto: Cortesia de Estudio Flume

Além do cobogó que propiciam as mais distintas composições na arquitetura, há outras formas de filtrar a luz e permitir a entrada da brisa no edifício. Um exemplo é a Sede Castanhas de Caju que incorpora conceitos de conforto térmico para atender a demanda por um espaço com baixo custo de manutenção. Nele, o bloco cerâmico de 8 furos é assentado horizontalmente, garantindo a constante ventilação dos ambientes.

Proteger as janelas

© Joana França
© Joana França

Identificar o caminho do sol e estudar a insolação das fachadas é fundamental para o desenho de proteções eficientes às janelas ou fachadas de vidro, que possibilitam a criação de ambientes com refrigeração e iluminação naturais, diminuindo o consumo energético. Um exemplo é a Residência C que possui os maiores planos de fachada voltados para sudoeste e nordeste. Essa orientação conduziu a adoção de um grande painel em madeira que protege a fachada sudoeste, que filtra a luz direta do sol e ameniza a sua carga térmica.

Abrir as portas

Casa Txai / Studio MK27 - Marcio Kogan + Carolina Castroviejo + Gabriel Kogan. Foto: © Fernando Guerra | FG+SG
Casa Txai / Studio MK27 - Marcio Kogan + Carolina Castroviejo + Gabriel Kogan. Foto: © Fernando Guerra | FG+SG

Na Casa Txai todos os vidros e vedações podem ser completamente recolhidos, ampliando a conexão entre interior e exterior. Como colocado por Armando de Holanda, essa estratégia permite a "fluência entre a paisagem e a habitação, (...) um convite aos contatos entre os mundos coletivo e o individual".

Continuar os espaços

Casa Porto das Baleias / Sidney Quintela Architecture + Urban Planning. Foto: © Tarso Figueira
Casa Porto das Baleias / Sidney Quintela Architecture + Urban Planning. Foto: © Tarso Figueira

Neste ponto, fala-se sobre o espaço interior permitir a fluidez, ser livre através da continuidade que proporciona, deixando as barreiras visuais apenas para os ambientes que exigem maior privacidade. Na Casa Porto das Baleias, as áreas sociais - salas de estar e jantar, espaços de lazer e o exterior - se relacionam entre si e geram uma conexão espacial e visual com as circulações do segundo nível, onde estão as suítes que exigem espaços mais reservados.

Construir com pouco

Casa Cupe / MNMA studio. Foto: © André Klotz
Casa Cupe / MNMA studio. Foto: © André Klotz

A Casa Cupe foi concebida em uma região de acesso limitado de materiais e tecnologias contando com total localismo nos processos de execução e na escolha de materiais. Ao evitar a demasiada variedade de materiais e empregar técnicas acessíveis de construções, a execução da residência comprova que "projetos inovadores, sustentáveis e com rigor técnico e construtivos, podem ser, acima de tudo, simples".

Conviver com a natureza

Escola Novo Mangue / O Norte – Oficina de Criação. Foto: © Mateus Sá
Escola Novo Mangue / O Norte – Oficina de Criação. Foto: © Mateus Sá

Em um ode aos antigos quintais das casas brasileiras, sua vegetação de folhas graúdas e a natureza tropical, aqui, um convívio com a natureza permite usufruir de seu sombreamento e tantas outras qualidades que levam a uma conexão ancestral com o território. Um exemplo é a Escola Novo Mangue que em sua implantação estimulou o reflorestamento do manguezal nas margens do Rio Capibaribe, além disso, nas salas de aula foram criados “rasgos para se ver o céu” que, generosos em largura e ocupando toda a fachada leste da escola, configuram um jardim interno que ilumina e permite a troca de ventilação natural.

Construir Frondoso

Paraqueira In Natura (1984). Imagem cedida por Gerson Castelo Branco.
Paraqueira In Natura (1984). Imagem cedida por Gerson Castelo Branco.

"Trabalhemos no sentido de uma arquitetura livre e espontânea, que seja uma clara expressão de nossa cultura e revele uma sensível apropriação de nosso espaço; trabalhemos no sentindo de uma arquitetura sombreada, aberta, contínua, vigorosa, acolhedora e envolvente, que, ao nos colocar em harmonia com o ambiente tropical, nos incite a nele viver integralmente". Com essas palavras Armando de Holanda encerra o último ponto de seu roteiro. A obra de Gerson Castelo Branco que celebra o ser humano vivendo em liberdade com a própria natureza é um ótimo exemplo para o ilustrar.

Leia aqui a publicação "Roteiro para construir no Nordeste" na íntegra.

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Sobre este autor
Cita: Equipe ArchDaily Brasil. "Roteiro para construir no Nordeste" 19 Set 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/967782/roteiro-para-construir-no-nordeste> ISSN 0719-8906

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