Historicamente, diversas cidades pelo mundo foram assentadas e construídas sobre encostas, em que se é possível notar os inúmeros desafios urbanos enfrentados por elas, em razão de suas condições topográficas. Mas para além de questões relativas à suas infraestruturas urbanas ou aos seus sistemas de transportes, que podem tornar-se mais complexos devido à geografia do local, a ocupação urbana de encostas também costuma envolver diversas interseções de questões sociais, ambientais e econômicas.
Muitas vezes, essas ocupações são realizadas por comunidades vulneráveis e de baixa renda, impulsionadas por uma série de motivações. Com frequência, a falta de informações sobre certos perigos, aliada à escassez de políticas habitacionais adequadas, resulta em decisões e ações que colocam essas comunidades em situações de alto risco, especialmente durante o período de chuvas, resultando em um ciclo que afeta desproporcionalmente os residentes mais marginalizados.
Costa Amalfitana. Foto de Raghu Nayyar na Unsplash.
Viver em cidades construídas sobre encostas geográficas é uma experiência singular e desafiadora. Se, por um lado, essas áreas podem oferecer vistas panorâmicas e paisagens impressionantes, por outro lado, a topografia íngreme apresenta uma série de desafios em termos de planejamento urbano, segurança estrutural e riscos socioambientais. Essas cidades exigem cuidados e soluções especiais no projeto de ruas, edificações e infraestruturas, e também o entendimento de que, por motivos de segurança ambiental e da população, nem todas as áreas devem ser ocupadas.
Multifacetado e cheio de complexidades, o cenário da arquitetura e do urbanismo na América Latina revela nuances e desafios específicos diante das problemáticas enfrentadas pelos diversos países, como a desigualdade social, a violência e o crescimento urbano acelerado. Nesse contexto, a prática arquitetônica assume um papel relevante na construção de soluções possíveis e adequadas a cada realidade, em que ainda se destaca a importância da reafirmação das referências e narrativas locais nessa elaboração.
Perante a hegemonia estabelecida especialmente pela América do Norte e Europa, que muitas vezes marginaliza as realizações arquitetônicas e urbanísticas latino-americanas, sobretudo a produção que sequer é considerada como tal, a valorização dessa diversidade e complexidade torna-se um imperativo para qualquer pensamento e intervenção sobre a região. A seguir, selecionamos seis entrevistas que nos ajudam a entender a arquitetura da América Latina, e que contribuem para uma abordagem mais contextualizada e sensível de suas necessidades, potencialidades e riquezas.
No Brasil, as festas populares costumam ter uma profunda ligação espacial, histórica e simbólica com os espaços públicos das cidades, proporcionando uma experiência única de ocupação, apropriação e reelaboração coletiva desses locais durante suas ocorrências. Esses eventos não apenas utilizam os espaços urbanos de maneiras diferenciadas de seus cotidianos, mas também constituem a paisagem cultural e social das cidades, lançando outros modos e possibilidades de apreendê-la. Ao apropriarem-se das ruas, em suas possibilidades e em seu sentido e entendimento mais amplo, elas as concedem outros usos, o que, muitas vezes, ainda transgridem suas atividades habituais.
Projeto do Parque Bixiga criado por ativistas — Foto: Divulgação
A cidade de São Paulo, marcada por sua imensidão e diversidade cultural, por vezes também é palco de muitos conflitos relacionados à ocupação de seu espaço urbano. Uma história que se estendeu por mais de quatro décadas, a disputa pelo terreno ao lado do Teatro Oficina, projetado por Lina Bo Bardi na região do Bixiga, finalmente culminou na criação de um tão esperado equipamento público: o Parque do Rio Bixiga. Esse processo não é apenas uma vitória para a comunidade local e artística, mas também uma conquista notável na perspectiva do direito à cidade e do lazer paulistano, especialmente após anos de confronto com o Grupo Silvio Santos.
Os sótãos são pavimentos localizados na parte superior de uma casa, próximos à cobertura. Devido ao ângulo de caimento do telhado, eles costumam ter um formato inclinado, o que pode limitar seu espaço e fazer com o que eles sejam ambientes pouco utilizados. No entanto, apesar dessa particularidade, os sótãos podem ser aproveitados em um projeto de diversas maneiras e convertidos em espaços multifuncionais para os moradores de uma residência.
Quando astros musicais mundialmente famosos como Beyoncé, Taylor Swift e Paul McCartney anunciam suas turnês globais, após o frisson provocado pela divulgação dos países e das respectivas cidades-sede, esses locais se preparam para comportar a série de mudanças que serão desencadeadas por esses eventos em seus espaços urbanos. Esses megashows não se restringem ao âmbito musical, eles transcendem o palco para mobilizar cifras significativas e implicar em diversas transformações no cotidiano urbano dessas cidades. Mesmo que durante um curto período de tempo, esses eventos provocam alterações em variadas esferas e setores urbanos, como o turístico, o hoteleiro, o alimentício e o de transporte.
"Maceió afunda em lágrimas!" foi pintada em rua do bairro do Pinheiro, em Maceió. Foto: Mayra Costa
Desde março de 2018, quando um tremor de magnitude 2,5 na escala Richter assustou os moradores de Maceió, a população da capital do estado alagoano passou a tomar conhecimento e, aos poucos, a lidar com as consequências de uma tragédia que logo viria à tona. Após o surgimento de uma série de rachaduras e crateras em diferentes bairros da cidade, feitas as análises geológicas devidas, foi constatada a principal causa do afundamento do solo: a atividade de extração de salgema, minério utilizado na fabricação de soda cáustica e PVC, empreendida em Maceió há mais de 40 anos pela empresa petroquímica Braskem.
Com novos tremores em novembro de 2023 e o risco iminente de desabamento das minas, o caso de Maceió voltou a ser noticiado pelas mídias brasileiras e seu desenrolar lança luzes sobre uma série de complexidades urbanas que estão implicadas na tragédia. Desde os danos físicos à infraestrutura da cidade, passando pelas remoções e deslocamentos populacionais, a inflação e a especulação imobiliária, o desenrolar dos acontecimentos provocados pelo desastre revela cenas dolorosas, no que já vem sendo tratado como uma das piores tragédias urbanas do mundo. Imersa na crise, a população da cidade sofre diante dos danos incalculáveis: "A rachadura não foi só nos imóveis, foi em nós, na alma".
As escadarias desempenham um papel importante nos trânsitos e deslocamentos dentro das cidades, podendo moldar a forma como as comunidades interagem e se movem em seus ambientes urbanos. Muitas vezes despercebidas em meio à paisagem, elas são testemunhas importantes da história, conectores fundamentais, e mais do que simples elementos arquitetônicos, elas são espaços onde o ritmo da vida urbana se desenrola. Entre os prédios, morros, ladeiras e ruas movimentadas, as escadarias se revelam como palcos de deslocamentos, de encontros e desencontros, onde o tecido da cidade se entrelaça às histórias contadas a cada degrau.
Com a proximidade da chegada do verão no hemisfério sul — que promete ser um dos mais intensos já vistos, e em meio ao ano que já é considerado como um dos mais quente da história — a busca por locais que ofereçam momentos de relaxamento, frescor e diversão se intensifica. À medida em que as altas temperaturas do verão se aproximam, a relevância e procura por equipamentos como os clubes, com suas áreas de lazer ao ar livre, piscinas e espaços verdes, se destaca de maneira significativa. Esses locais se transformam em verdadeiros refúgios, oferecendo não apenas a possibilidade de escape do calor, mas também uma série de outras atividades e benefícios para seus usuários.
Mais do que paisagens inertes ou cenários inanimados, as cidades constituem-se enquanto personagens ativas e significativas para a construção de muitas narrativas televisivas. Seja em séries ou em telenovelas, mais do que apenas um local onde as tramas se desenrolam, os ambientes urbanos desempenham um papel fundamental para os desdobramentos dos enredos, suas criações, diretrizes e contextos. Mas se, por um lado, as cidades e suas culturas urbanas contribuem para a composição de diversas tramas das telinhas, por outro lado, os programas televisivos também podem ajudar a moldar um certo imaginário idealizado sobre esses espaços urbanos, que geram expectativas irrealistas e reiteram uma série de estereótipos sobre as cidades representadas.
Em meio à crise ambiental que enfrentamos atualmente, a bioeconomia tem ganhado destaque em diversas áreas, o que inclui o setor da construção civil e seus esforços para tornar-se mais sustentável. Esse pensamento também trouxe reverberações para o campo da arquitetura de interiores, e assim, à medida em que a consciência sobre as mudanças climáticas e a necessidade de preservar nosso planeta aumentam, os arquitetos e designers têm recorrido aos biomateriais, elaborando espaços que não apenas encantam visualmente, mas que também têm um compromisso positivo em relação ao meio ambiente.
Apesar de manterem escritórios separados em Portugal, os irmãos Manoel e Francisco construíram suas trajetórias profissionais em conjunto e colaboração, ficando conhecidos como Aires Mateus, sobrenome de ambos. Juntos, os arquitetos portugueses já assinaram projetos em diversos países e se tornaram uma referência no mundo da arquitetura contemporânea, admirados por suas criações inovadoras e elegantes, e reconhecidos internacionalmente por seus projetos que combinam simplicidade, tradição e funcionalidade.
A ONU-Habitat, Programa da Organização das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, é encarregada de questões relativas à habitação e ao desenvolvimento urbano de maneira mais adequada em todo o mundo. Desempenha um papel fundamental ao abordar questões urbanas globais, trabalhando para melhorar a qualidade de vida, enfrentar desafios como a rápida urbanização e a falta de moradia, e promover práticas de planejamento urbano que sejam socialmente mais inclusivas e ecologicamente responsáveis. Em 2022, lançou o projeto "Conexões Urbanas - Planejamento de Espaços Públicos para Comunidades Inclusivas", iniciativa importante da organização, que pretende promover o fortalecimento dos governos locais através do planejamento e desenho urbano participativo de espaços públicos.
Uma iluminação bem planejada faz toda a diferença em um projeto de interiores, em diversos aspectos. Ela transcende a dimensão meramente estética para desempenhar um papel fundamental na criação de atmosferas que são capazes de interferir e modificar as emoções e percepções das pessoas nos ambientes. E se, de maneira direta, a iluminação pode proporcionar uma luminosidade geral e mais uniforme em um espaço, garantindo que todo o ambiente seja iluminado adequadamente para atividades diárias, de maneira indireta ela oferece uma abordagem mais sutil e eficaz, que cria ambientes acolhedores, suaves e agradáveis.
Diante das batalhas que temos enfrentado contra as mudanças climáticas, sobretudo nos anos recentes, a elaboração de estratégias genuínas de descarbonização nunca foi tão crítica e necessária, e em todo o mundo, profissões, empresas e organizações de diversas áreas estão sob pressão para adotarem práticas e condutas mais sustentáveis em seus processos. No campo da arquitetura e do urbanismo não é diferente, e termos como "arquitetura sustentável" ou "arquitetura verde", misturadas a uma série de certificações, produtos e propagandas, tornaram-se cada vez mais comuns e populares, prometendo mudanças e melhorias na profissão que, teoricamente, estariam alinhadas aos novos parâmetros desejados para o futuro global.
No entanto, em meio à essa crescente conscientização ambiental, emergiu um outro fenômeno: o greenwashing, ou "maquiagem verde". O greenwashing refere-se a práticas adotadas por diversos setores, sobretudo ligadas às estratégias de marketing que apresentam iniciativas que transmitem uma impressão falsa ou que fornecem informações enganosas sobre como os produtos ou projetos de uma empresa são mais ecologicamente corretos do que eles realmente são, quando analisados sob um viés mais crítico e cuidadoso.
Corredores silenciosos e intermináveis, salas brancas e frias, uma atmosfera impessoal e distante: essa é uma imagem fortemente enraizada na nossa concepção cultural de ambientes hospitalares. A alvura desses espaços, que tenta reforçar uma ideia de esterilidade e limpeza tão necessárias, também pode ser capaz de criar uma sensação de desconforto e ansiedade para os pacientes e suas famílias.
A importância da humanização dos projetos de hospitais, clínicas e consultórios é um tema cada vez mais discutido e relevante na área da saúde, e que vai muito além da estética desses edifícios. Ela considera a necessidade de criar ambientes acolhedores que promovam o bem-estar dos pacientes, familiares e profissionais, reconhecendo que a arquitetura pode desempenhar um papel fundamental na recuperação e no conforto dessas pessoas em momentos de vulnerabilidade.
Com um portfólio de projetos diversificados e altamente característicos, sobretudo no que diz respeito às suas representações, o escritório de arquitetura fala é marcado por um processo criativo ousado, refinado e dinâmico. Fundado em 2013 pelos arquitetos Filipe Magalhães, Ana Luisa Soares e Ahmed Belkhodja, o fala tem sede na cidade de Porto, Portugal, e costuma trabalhar em diferentes escalas: "de territórios a casas de passarinho".