Tombamento da maquete de Salvador: o “modelo reduzido” de Assis Reis

Tombamento da maquete de Salvador: o “modelo reduzido” de Assis Reis

No dia 20 de agosto teve início o processo de tombamento da maquete de Salvador, que se encontra em exposição na Associação Comercial da Bahia, na capital baiana [1]. A maquete, que estará aberta à visitação por meio de agendamento até 18 de setembro de 2020 [2], começou a ser idealizada no começo da década de 70 pelo arquiteto Assis Reis. Desde então, continua a ser atualizada por uma equipe de artesãos da Prefeitura Municipal de Salvador com o objetivo de representar as mudanças urbanas na cidade, mantendo, assim, a ideia original da sua criação.

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O “modelo reduzido”, como a maquete era chamada por Assis, foi proposta à gestão municipal em 1973, quando começou a ser montada em um espaço no próprio escritório do arquiteto, no bairro do Comércio, até sua transferência para uma área disponibilizada pela prefeitura de Salvador, com o objetivo de dar continuidade ao seu trabalho de montagem [3].

A intenção do arquiteto era de que a maquete pudesse servir como instrumento para o planejamento urbano da cidade, expondo aquelas intervenções que julgava inadequadas justamente pela falta de um planejamento apropriado. Na ideia inicial de Assis, a maquete também permitiria aos cidadãos soteropolitanos o conhecimento do espaço da sua cidade ao ver representadas todas as edificações existentes, por meio de uma técnica de fácil compreensão da urbis.

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“Com o modelo reduzido da cidade de Salvador, duas mil vezes menor que sua dimensão real, proponho o conhecimento da cidade de modo concreto, através da valorização de sua configuração urbanística ao longo do tempo, intencionando torná-lo instrumento para o autoconhecimento da cidade pela população ou para o despertar desse interesse. Essa conscientização deverá estimular um sentimento comunitário em defesa da recodificação da legislação, tendo como suporte às atividades turísticas e de comunicação com a população” - Assis Reis [4].

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Naquele momento a tecnologia ainda não amparava a arquitetura e o urbanismo da forma como acontece hoje. Os softwares de modelagem bidimensional e tridimensional considerados tão necessários e usuais atualmente ainda não haviam sido lançados, assim como os mapeamentos via satélite disponíveis hoje na internet. Desta forma, os dados relativos às dimensões e alturas foram transpostos inicialmente para a maquete por meio de aerofotogrametrias realizadas nos anos 1956, 1965 e 1972, além do auxílio de coordenadas geodésicas.

A topografia particular da cidade de Salvador, marcada pela presença de vales e cumeadas com acentuadas diferenças de níveis, é representada na maquete por folhas de cortiça. Para as edificações, o material selecionado foi a madeira balsa, devido, entre outros fatores, ao seu fácil manuseio, durabilidade e resultado estético. Os corpos d’água, como o Oceano Atlântico e a Baía de Todos os Santos, são representados em acrílico, e a base da maquete é estruturada em alumínio e eucatex. Ao observar o conjunto, é possível notar como o contraste das tonalidades dos materiais, devido à passagem do tempo, reforça o caráter mutável do modelo como forma de acompanhar as transformações pelas quais a cidade passa a todo momento.

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A construção da maquete pode ser dividida em quatro etapas. A primeira, que corresponde ao período entre 1973 e 1975, engloba a produção dos 49 módulos iniciais. Entre os anos de 1975 e 1977, a maquete fica esquecida num depósito da Polícia Administrativa da Prefeitura até ser resgatada por Assis em 1977 e transportada para o segundo andar do Cine Tupy no ano seguinte. Entre 1980 e 1982, na segunda fase de construção, são desenvolvidos mais 24 módulos para apoiar o novo Plano de Desenvolvimento de Salvador (PLANDURB). Na terceira fase, entre 2015 e 2017, são criados mais 6 módulos e na quarta e última fase, entre 2018 e 2019, são incorporados mais 39 módulos, elaborados pela Bustamante Maquetes, sediada em Joinville. Hoje, toda a porção continental do município (402 km²) é representada pela maquete em uma área de 100,5 m² distribuida nos 97 módulos de 1m x 1m e 7 módulos de 1m x 0,5m.

A primeira exposição pública da maquete ocorreu em 12 de março de 1975, num espaço no nível superior do Elevador Lacerda, capaz de abrigar os seus 49 módulos iniciais, de 1x1m, na escala de 1/2000. Desde então, a maquete foi exposta nos mais diversos locais, como no Foyer do Teatro Castro Alves (1980), no Centro de Convenções da Bahia, durante o Congresso Brasileiro de Arquitetos (1982) e na II Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (1993), totalizando mais de 20 exposições públicas em diferentes cidades brasileiras ao longo de quase cinco décadas.

Maquete de Salvador exposta no Foyer do Teatro Castro Alves. Cortesia de Acervo Assis Reis
Maquete de Salvador exposta no Foyer do Teatro Castro Alves. Cortesia de Acervo Assis Reis
© Rafael Martins
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Hoje, modelos tridimensionais digitais e sistemas que fazem uso da inteligência artificial e internet das coisas já são incorporados no planejamento urbano de muitas cidades do mundo. Por outro lado, é indiscutível como o caráter tangível do Modelo Reduzido de Salvador tem um efeito positivo na apreensão dos visitantes do panorama da cidade durantes as exposições realizadas.

Em tempos de avanços na tecnologia de projeto e construção, difusão do BIM e automatização dos processos que por muito tempo foram feitos manualmente – a partir da maior acessibilidade aos equipamentos de corte a laser e impressão 3D, por exemplo –, a maquete ganha uma dimensão ainda mais impactante. O minucioso e preciso trabalho empenhado para a montagem e atualização da maquete de Salvador tem sido feito desde a década de 1970, de forma a transpor para o modelo reduzido as transformações consequentes do processo de desenvolvimento da cidade. Assim, além do seu valor histórico como testemunho do crescimento da cidade, é impregnado também a ela um valor artístico irrefutável.

Notas
[1] O processo de tombamento da maquete foi uma iniciativa da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), que abrigou a maquete nos últimos anos e atualmente é a responsável por sua atualização. O processo, indicado pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e a cargo do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, ligado à Fundação Gregório de Mattos (FGM), será encaminhado a partir do entendimento da Maquete de Salvador como Patrimônio Cultural da cidade.
[2] Devido à pandemia de COVID-19, as visitas devem ser feitas por agendamento no site da Fundação Mário Leal Ferreira e restritas a grupos de no máximo 8 pessoas. É obrigatório o uso de máscaras e o controle da temperatura corporal é feito no acesso da Associação Comercial da Bahia.
[3] A história da maquete é contada no livro “Cidade do Salvador modelo e identidade”, escrito por Assis Reis antes de falecer, que será publicado em breve pela EDUFBA.
[4] (FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO, 1993).
[5] (REDAÇÃO CORREIO, 2020).

Referências Bibliográficas
REDAÇÃO CORREIO. Maquete representando Salvador tem processo de tombamento iniciado. Correio, Salvador, 20 ago. 2020. Acesso em: 03 set. 2020
FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO. Catálogo da II Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, 1993. São Paulo, 1993. Acesso em: 03 set. 2020.

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Sobre este autor
Cita: Márcia Reis e Susanna Moreira. "Tombamento da maquete de Salvador: o “modelo reduzido” de Assis Reis" 07 Set 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/947118/tombamento-da-maquete-de-salvador-o-modelo-reduzido-de-assis-reis> ISSN 0719-8906

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