Como a participação comunitária pode ajudar na reconstrução arquitetônica e urbana pós-desastres

Como a participação comunitária pode ajudar na reconstrução arquitetônica e urbana pós-desastres

Os conceitos de autonomia, colaboração e participação têm ganhado destaque no âmbito da arquitetura e urbanismo em práticas realizadas por comunidades em conjunto com arquitetos, urbanistas e designers. Em um período no qual o número de desastres climáticos tem aumentado significativamente – a quantidade dobrou nos últimos 40 anos segundo relatório divulgado em 2016 pelo CRED (Centre for Research on the Epidemiology of Disasters) –, somado a conflitos e outras tragédias, a demanda por reconstrução de habitações e da infraestrutura nas localidades atingidas têm crescido simultaneamente. Este fator tem demandado um grande esforço colaborativo para a reconstrução arquitetônica e urbana.

Reconstrução de moradias sobre suas próprias ruínas: "Reclaiming Heritage" no Haiti. © Reclaiming Heritage Pós-terremoto no Haiti. Imagem: United Nations Development Programm, via VisualHunt / CC BY-NC-ND Conjunto Villa Verde. © Elemental © Reclaiming Heritage + 8

Após um desastre, muitas vezes cidades inteiras precisam ser reconstruídas. Ou seja, além da construção de habitações, é necessário repensar infraestrutura, equipamentos, fluxos e dinâmicas urbanas para que as novas estruturas fiquem protegidas, caso ocorra reincidência do desastre. Além do conhecimento técnico de arquitetos, urbanistas e demais profissionais, e do apoio financeiro das instituições, o diálogo com a população e sua participação neste processo são essenciais para a proposição de soluções adequadas. 

Pós-terremoto no Haiti. Imagem: United Nations Development Programm, via VisualHunt / CC BY-NC-ND
Pós-terremoto no Haiti. Imagem: United Nations Development Programm, via VisualHunt / CC BY-NC-ND

De acordo com o Guidelines for Community Participation in Disaster Recovery, publicado pelo United Nations Development Programme (UNDP), a participação comunitária deve ser assegurada nos projetos de recuperação pós-desastre para que possa contribuir com negociações, diálogos, troca de saberes, e exposições das reais necessidades e prioridades de comunidades afetadas.

© Reclaiming Heritage
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Um dos arquitetos que contribuíram para a difusão do debate em torno da participação na arquitetura e no urbanismo foi o inglês John F. C. Turner, que se aproximou do tema entre 1957 e 1965 no Peru. A convite de Eduardo Neira, Turner participou da Oficina de Asistencia Técnica a las Urbanizaciones Populares de Arequipa (OATA) criada por Neira em 1955 para reconstrução da cidade de Arequipa após um terremoto tê-la atingido.

O tempo na reconstrução emergencial de bairros, vilas, cidades, é uma questão crucial. Assim, a elaboração de um projeto pode parecer ser demorada  para as famílias desabrigadas e ao mesmo tempo muito rápida para arquitetos, urbanistas e construtores. Como forma de minimizar o tempo de desalojamento, a autoconstrução pode vir a ser uma opção viável, como argumenta Turner.

Em uma entrevista para o World Bank em 2000, Turner afirmou que uma das coisas mais tristes que já havia visto foram campos de habitação temporária repletos de pessoas disponíveis e desesperadas para reconstruir suas casas, mas impedidas de fazê-lo por autoridades determinadas a impor seus próprios planos, que levam anos para ser preparados e executados, e cujos fundos e gestão são, de forma geral, inadequados. 

© Elemental
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Assim como a participação na construção de forma direta, projetos desenvolvidos através do diálogo podem levar a aplicação do princípio da construção incremental e da adaptabilidade dos espaços às demandas familiares que, assim como seus padrões comportamentais, estão sempre em mudança. Essas noções têm feito parte do trabalho do vencedor do Pritzker de 2016, Alejandro Aravena, que por meio do escritório ELEMENTAL se preocupa em envolver o pensamento da autonomia das comunidades e participação no processo de projeto.

Conjunto Villa Verde. © Elemental
Conjunto Villa Verde. © Elemental

Após o terremoto e o tsunami que atingiram a cidade chilena de Constitución, o ELEMENTAL foi chamado para elaborar um projeto de reconstrução. Além do escritório, o projeto uniu esforços do governo, da empresa Arauco e da comunidade local. As propostas foram expostas em uma espécie de “open house” na praça principal da cidade e discutidas ao longo de encontros e reuniões, até se chegar a uma votação das possíveis soluções para impedir a destruição das habitações em caso de reincidência de tsunami e/ou terremoto. 

Aliando participação à reutilização de materiais e reconstrução a partir de ruínas, o grupo de arquitetos e estudantes Reclaiming Heritage também tem reconhecido o papel da comunidade como agentes envolvidos no seu próprio restabelecimento, como pode ser observado nos trabalhos já realizados no Haiti e no Chile. A publicação Guidelines for Community Participation in Disaster Recovery cita ainda diferentes formas de como a população pode participar do processo de reconstrução a partir de casos de estudo, como as consultas públicas nas Ilhas Virgens Britânicas em 2017; consultas on-line na Nova Zelândia em 2010/2011 e o diálogo entre grupos da sociedade civil e administração em Tamil Nadu (Índia) em 2004, apenas para citar alguns exemplos.

© Reclaiming Heritage
© Reclaiming Heritage

Como tem sido observado em experiências na reconstrução pós-desastres em diferentes lugares do mundo, a participação pode aumentar a confiança mútua e transparência entre os atores envolvidos no processo de recuperação e conceder maior poder de decisão às comunidades. Além disso, pode promover construções baseadas em recursos e saberes locais, realizadas de acordo com as necessidades e prioridades dos habitantes que, por sua vez, podem levar a resultados mais eficazes na recuperação pós-desastre.

Referências bibliográficas

CRED. Poverty & Death: DISASTER MORTALITY 1996-2015. Disponível em: <https://www.preventionweb.net/files/50589_creddisastermortalityallfinalpdf.pdf?utm_medium=website&utm_source=archdaily.com.br>. Acessado 07 Mai 2020.
JAQUES, P. B.; PEREIRA, M. S. (Org). Nebulosas do Pensamento Urbanístico - Tomo II - Modos de Fazer. EDUFBA, 2019.
KIMMELMAN, M. Alejandro Aravena, the Architect Rebuilding a Country. The New York Times Style Magazine, 23 Mai 2016. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2016/05/23/t-magazine/pritzker-venice-biennale-chile-architect-alejandro-aravena.html>. Acessado 07 Mai 2020.
LONG, G. The rebuilding of Chile's Constitución: how a 'dead city' was brought back to life. The Guardian, 23 Fev. 2015. Disponível em: <https://www.theguardian.com/cities/2015/feb/23/rebuilding-chile-constitucion-earthquake-tsunami>. Acessado 07 Mai 2020.
TURNER, J. F. C. Interview of John F.C.Turner. World Bank, Washington D.C. Entrevista concedida a Roberto Chavez, Julie Viloria e Melanie Zipperer. 11 Set 2000.
UNDP. Guidelines for Community Participation in Disaster Recovery. Disponível em: <https://www.gfdrr.org/sites/default/files/Guidelines%20for%20Community%20Participation%20in%20Disaster%20Recovery.pdf>. Acessado 07 Mai 2020.

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Sobre este autor
Cita: Susanna Moreira. "Como a participação comunitária pode ajudar na reconstrução arquitetônica e urbana pós-desastres" 15 Mai 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/939221/como-a-participacao-comunitaria-pode-ajudar-na-reconstrucao-arquitetonica-e-urbana-pos-desastres> ISSN 0719-8906

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