Um edifício ainda em processo de ajuste, reparo e debate é declarado Patrimônio Mundial. Outro, igualmente influente, precisa sobreviver por cinco séculos antes que alguém considere protegê-lo. Isso não é uma anomalia no sistema de preservação patrimonial; é o próprio sistema. Em diferentes partes do mundo, a arquitetura não envelhece no mesmo ritmo porque o próprio tempo não é neutro. Ele é cultural, político e profundamente desigual. Aquilo que chamamos de “patrimônio” não é simplesmente arquitetura antiga; é arquitetura que alcançou o momento certo em um determinado lugar.
Geralmente, são os profissionais especialistas aqueles que tem o poder da decisão, sejam eles historiadores, museólogos, arquitetos, geógrafos. Mas com base em que essas decisões são tomadas? Caberia a complexidade da história em um checklist? Ou, ainda mais elementar, em qual versão da história estariam sendo baseadas essas decisões?
As autoridades de Bolonha anunciaram planos para reparar a torre inclinada Garisenda, uma estrutura medieval localizada no centro da cidade italiana. Recentemente, a área ao redor da torre foi isolada devido a preocupações com seu colapso, pois monitoramentos identificaram deslocamentos na direção da inclinação. A torre de 47 metros de altura inclina-se a um ângulo de quatro graus, semelhante ao de sua contraparte mais famosa, a Torre de Pisa. A Torre Garisenda é um marco de Bolonha, ao lado de sua vizinha, a Torre Asinelli, que tem o dobro da altura, também se inclina, embora em um ângulo menor, e geralmente está aberta para turistas.
Localizada na cidade de Bangui, capital da República Centro-Africana, está a Catedral de Notre Dame. Esta grande igreja de tijolos vermelhos foi construída no início dos anos 1900 no estilo colonial francês. Conforme a cidade cresceu de uma pequena base militar para uma capital colonial, o edifício foi formado como uma fusão cultural e simbólica de estilos arquitetônicos europeus e centro-africanos. Projetada pelo arquiteto francês Roger Erell, a catedral exibe artesania local e oferece um espaço de conforto espiritual.
Ao refletirmos sobre o tumultuado ano de 2023 e seus eventos, é evidente que os desafios impostos pelas condições ambientais em constante mudança deixaram uma marca indelével em todo o mundo. Em resposta, arquitetos e urbanistas passaram a procurar maneiras nas quais suas ações possam contribuir para a criação de ambientes mais seguros para as comunidades, com arquiteturas de emergência de implantação rápida e estratégias de longo prazo para construir resiliência e mitigar riscos.
Além de simplesmente responder a eventos, como os devastadores terremotos na Turquia, Síria e Marrocos, ou as enchentes generalizadas na Líbia ou no Paquistão, arquitetos estão tentando adotar abordagens proativas. Eles desenvolvem estratégias que vão desde a modelagem preditiva até a aplicação de técnicas de renaturalização, passando pela pesquisa contínua na física de estruturas mais seguras e resilientes.
Comunidades locais vão além de simples conjuntos de edificações e infraestrutura. Elas carregam consigo um caráter arquitetônico distinto, refletindo sua história, cultura e valores. Nossa revisão anual aprofunda-se nas narrativas mais marcantes que exploram a identidade arquitetônica de diversas comunidades locais.
Essas histórias abordam uma variedade de temas, desde territórios geográficos singulares, assentamentos culturais, marcos icônicos até colaboração comunitária e planejamento urbano socioecológico. Através dessas narrativas, desvendamos as fascinantes histórias por trás das construções e espaços públicos que dão forma a cidades e vilarejos específicos.
Localizada a 270 km ao norte de Dakar, a capital do Senegal, e próxima à fronteira com a Mauritânia, encontra-se a Ilha de Saint-Louis, uma cidade colonial proeminente na África Ocidental, reconhecida por sua combinação de arquitetura mediterrânea e clima tropical. Fundada pela Colônia Francesa em 1659 como seu primeiro posto comercial na costa atlântica da África, Saint-Louis posteriormente tornou-se a capital da África Ocidental Francesa (AOF) e do Senegal. No entanto, perdeu esse status em 1902, o que resultou em seu declínio econômico.
Essa história complexa transformou Saint-Louis em um ponto de encontro para diferentes camadas de arquitetura e urbanismo. A ilha apresenta uma forma urbana em grade com vilas de dois andares, típica do urbanismo colonial francês do século XIX. Além disso, possui pátios tropicais, varandas sombreadas, casas art déco dos anos 1920 e prédios cívicos modernos do início dos anos 30. No entanto, devido ao seu isolamento econômico e infraestrutural, essa arquitetura e patrimônio urbano têm se degradado continuamente. Portanto, busca-se novas intervenções para a conservação, restauração e readequação da cidade.
Dentro do espaço de uma semana, dois desastres naturais atingiram nações do norte da África. Na segunda-feira, 11 de setembro, dias após um grande terremoto atingir as Montanhas do Alto Atlas do Marrocos, a tempestade Daniel atingiu o noroeste da Líbia, levando ao colapso de duas barragens, que liberaram torrentes de lama e água na costa do país, matando milhares de pessoas e destruindo grandes partes da cidade portuária de Derna, além de outras cidades e vilarejos como Benghazi, Bayda e al-Marj. Com mais de 10.000 residentes ainda desaparecidos e milhares de deslocados, a magnitude do desastre ainda está sendo avaliada. Bairros inteiros de Derna, uma cidade atravessada pelo rio Wadi Derna, foram varridos.
Na sexta-feira, 8 de setembro, um terremoto de magnitude 6,8 atingiu a cordilheira do Alto Atlas, no Marrocos. O epicentro se localiza a apenas 72 quilômetros a sudoeste de Marrakech, a quarta maior cidade do país e um destino turístico popular. O terremoto é o mais forte a atingir a região central do país em mais de um século. Estimativas apontam que o número de vítimas passa de duas mil e há ainda mais feridos, mas, como várias cidades e vilas permanecem inacessíveis nas montanhas, estima-se que esse número aumente. Além do impacto humano, vários lugares históricos, incluindo sítios da lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, foram afetados, e testemunhas oculares nas encostas das montanhas relatam que várias cidades remotas foram completamente destruídas, de acordo com a CNN.
O projeto cultural internacional U-RE-HERIT lançou uma iniciativa para proteger a arquitetura, patrimônio e memória da Ucrânia. Este amplo consórcio de instituições arquitetônicas se uniu para alcançar um objetivo comum de preservar a cultura ucraniana. Com a crise atual, o projeto tem como objetivo abordar o patrimônio como um recurso para a recuperação cultural, social, ambiental e econômica. Além disso, o projeto espera redefinir a identidade cultural local e reconstruir as cidades com a sensibilidade da memória coletiva.
Localizada na parte sul da República do Benin, perto da cidade portuária de Cotonou, Ganvie é a maior vila flutuante da África. Situada no meio do Lago Nokoué, é caracterizada por casas coloridas sobre palafitas de madeira construídas ao redor de ilhas artificiais do século XVII.
Essa arquitetura única nasceu da história da tribo Tofinu, que a construiu como um refúgio contra o comércio de escravos. Foi mantida ao longo do tempo pelos seus sistemas socioecológicos aquaculturais comunitários e hoje se tornou uma atração turística do país. A vila foi reconhecida como patrimônio cultural mundial pela UNESCO em 1996, atraindo até 10.000 visitantes anualmente. No entanto, esse fluxo de turistas impactou os moradores e as práticas socioecológicas que sustentam esse ambiente aquático. A aquacultura tornou-se cada vez mais desafiadora de manter, pois a vila luta para sustentar sua base econômica. Além disso, as práticas tradicionais de construção foram substituídas por modernas, e a vila enfrenta desafios ambientais contínuos. No entanto, o estilo de vida único dos moradores em torno da água ainda pode oferecer muitas lições para o design de futuras cidades flutuantes.
O escritório Kengo Kuma & Associates venceu um concurso de projeto para o novo centro de visitantes do Parque Nacional de Butrint, um Patrimônio Mundial da UNESCO na costa do Mar Jônico da Albânia. O projeto busca estabelecer uma nova conexão entre as comunidades locais e os visitantes esperados do sítio arqueológico, melhorando assim a acessibilidade do local, que é reconhecido como uma das principais atrações culturais do país. O centro de visitantes, projetado em parceria com os arquitetos albaneses do CHwB Albania, deverá abrir ao público em 2025.
A luz é um elemento arquitetônico integral e emotivo. O acesso à luz é tanto aproveitado como limitado na arquitetura. Enquanto habitações tropicais caras celebram vistas ensolaradas com vidraças expansivas, uma ampla gama de galerias de arte rejeita a luz em sua forma natural, eliminando-a em conformidade com os requisitos sensíveis de suas exposições. A luz em um sentido arquitetônico e urbano também é altamente simbólica, evidente nas muitas metrópoles do nosso mundo, mas onde esse simbolismo assume uma dimensão interessante é no arquipélago de Zanzibar.
Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia após uma grande escalada do conflito que existia desde 2014. Um ano depois, a guerra ainda está em andamento. Tanto soldados quanto civis foram vítimas, além de milhões de pessoas que se tornaram refugiados, migrando para áreas mais seguras na Europa ou na própria Ucrânia. Instalou-se, assim, uma grave crise humanitária e de refugiados. Os conflitos também ameaçaram o patrimônio cultural e arquitetônico da Ucrânia, já que museus, monumentos e marcos históricos se tornaram alvos.
As implicações também estão atingindo a Europa e o mundo, à medida que os recursos energéticos e os suprimentos de alimentos se tornam mais escassos, prejudicando algumas economias. Ainda assim, os países ocidentais permaneceram unidos em seu apoio à Ucrânia, conforme relatado por agências de notícias internacionais. Apesar das dificuldades econômicas, o apoio internacional foi mobilizado por meio de várias iniciativas na esperança de ajudar os deslocados, proteger o patrimônio cultural e traçar um plano de reconstrução.
Paisagem Cultural Yanacancha-Huaquis, Peru. Cortesia da imagem do World Monuments Fund
O World Monuments Fund (WMF) anunciou que dedicará mais de US$ 10 milhões para projetos de preservação destinados a proteger sítios culturalmente significativos de todo o mundo com necessidade urgente de intervenção. As iniciativas variam em escopo, de sítios ucranianos históricos até a proteção de sítios arqueológicos remotos representativos da Civilização Chachapoyas do Peru. O conjunto de projetos lançados em 2023 visa abordar e ajudar a mitigar as ameaças enfrentadas pelos lugares tombados: conflitos, mudanças climáticas e sub-representação.
O comitê da UNESCO decidiu inscrever o Centro Histórico da Cidade Portuária de Odesa, na Ucrânia, na Lista do Patrimônio Mundial da Humanidade. A decisão simboliza o reconhecimento do valor excepcional do sítio e o compromisso dos 194 Estados da Convenção de não realizar nenhuma ação deliberada que possa prejudicá-lo, mas sim, auxiliar na sua proteção. O local também foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em perigo, o que lhe dá acesso a assistência financeira ou técnica internacional para garantir sua proteção e, se necessário, contribuir para sua reabilitação.