De Chicago a Nápoles: o fracasso de dois grandes projetos de habitação social

De Chicago a Nápoles: o fracasso de dois grandes projetos de habitação social

A atual pandemia escancarou as muitas desigualdades enraizadas em nossa sociedade, especialmente no que se refere à distribuição extremamente desigual de recursos e infraestruturas públicas em territórios urbanos. Desde o início da corrente crise sanitária mundial, aqueles que podiam pagar, por exemplo, optaram por trocar a vida na cidade por suas confortáveis casas de final de semana em meio à natureza. No outro extremo, também testemunhamos como as pessoas mais pobres sofreram com a dificuldade de acesso à cidade, espaços públicos e áreas verdes—sendo forçados a continuar suas rotinas de trabalho e deslocamento apesar das muitas restrições e dos evidentes riscos de saúde pública. Para piorar, não podemos deixar de mencionar a questão do acesso (ou a falta de) à moradia digna e de que forma deveríamos abordá-la para responder aos muitos desafios do presente e do futuro.

Vele di Scampia. Imagem © Enzo Abramo under CC0 Public DomainCabrini-Green. Imagem © Wikimedia User David Wilson under the  Creative Commons Attribution 2.0 Generic license.Cabrini-Green. Imagem © Flickr User Eric Allix Rogers under the (CC BY-NC-ND 2.0) license.Cabrini-Green. Imagem © Flickr User UIC Library Digital Collections under the (CC BY-NC 2.0) license.+ 10

Projetos de habitação social comumente são iniciativas levadas a cabo pelo poder público e que visam promover o acesso à moradia digna a pessoas e comunidades de baixa renda. Infelizmente, a pesar do caráter altruísta e das boas intenções de quem os promove, basta uma rápida olhada pela janela para percebermos que estes esforços tem sido historicamente insuficientes. Além disso, os muitos projetos de habitação pública que falharam copiosamente poucos anos após a sua implementação apenas expõe ainda mais a importância de se estabelecer políticas públicas precisas que possam promover de forma mais ampla o acesso à cidade e a moradia digna, assim como a definição de estratégias de gestão e manutenção que permitam construir cidades mais justas e equitativas.

Um dos exemplos mais emblemáticos de projetos de moradia pública nos Estados Unidos, o qual expõe os muitos dilemas que as comunidades de baixa renda enfrentam diariamente é o Cabrini-Green, localizado na região centro-norte da cidade de Chicago, Illinois. Utilizado como cenário principal na narrativa do novo filme de terror Candyman, atualmente nos cinemas, o Cabrini-Green foi construído na década de 1950, no contexto do intenso processo migratório de comunidades afro-americanas do sul para o norte do país. A necessidade por novas moradias públicas era urgente, de forma que, a administração municipal da cidade de Chicago deu início a um amplo projeto de reurbanização de favelas existentes, substituindo estruturas precárias por novos edifícios maiores—mas não necessariamente melhores.

Cabrini-Green. Imagem © Wikimedia User edwardhblake under the  Creative Commons Attribution 2.0 Generic license.
Cabrini-Green. Imagem © Wikimedia User edwardhblake under the Creative Commons Attribution 2.0 Generic license.

Construídos as pressas, os blocos monolíticos de Cabrini-Green pouco tinham a oferecer a seus novos habitantes, edifícios de concreto e de difícil mantenção e que portanto, rapidamente davam claros sinais de deterioração. Além disso, os complexos construídos para abrigar as novas hordas de imigrantes afro-americanos recém chegados eram concebidos como bairros isolados, criando concentrações geográficas de pobreza e completamente desconexos do seu entorno imediato e obviamente, das oportunidades e benefícios da cidade formal. Neste contexto, a segregação social tornou-se via de regra com a política de habitação pública desempenhando um papel fundamental no agravamento das já evidentes desigualdades da sociedade americana como um todo. Os condomínios de Cabrini-Green foram rapidamente esquecidos pela secretaria de habitação da cidade de Chicago, jogando a responsabilidade de manter os edifícios e áreas comuns aos próprios moradores. Áreas verdes foram pavimentadas a fim de reduzir os custos de manutenção, assim como as varandas foram fechadas para “resolver” os problemas de despejo de lixo—fazendo que os edifícios parecessem mais uma prisão do que um condomínio residencial. O caso de Cabrini-Green é um exemplo de como projetos de arquitetura mal implementados, mantidos e geridos podem se transformar em um dramático problema social, agravando ainda mais a desigualdade estrutural enraizada em nossas sociedades.

Cabrini-Green. Imagem © Jet Lowe
Cabrini-Green. Imagem © Jet Lowe
Cabrini-Green. Imagem © Ovie Carter
Cabrini-Green. Imagem © Ovie Carter

Dando um salto para o outro lado do oceano, problemas similares também afetaram notáveis projetos de habitação social desenvolvidos em todo o continente europeu. Talvez o caso mais desastroso seja o projeto das Velas di Scampia, concebido pelo arquiteto italiano Francesco Di Salvo e construídas na cidade de Nápoles entre 1962 e 1975. Inspirado nas velas dos muitos navios que historicamente aportavam ao longo da costa napolitana, Di Salvo procurou recriar a diversidade das vibrantes vielas do centro de Nápoles na estrutura singular destes blocos verticais de apartamentos. Em busca de uma unidade residencial mínima e eficiente que estivesse também de acordo com o estilo de vida e a cultura dos moradores locais, os apartamentos foram projetadas deliberadamente para serem mínimos e os espaços exteriores, maximizados. Embora tudo parecesse funcionar no papel, na prática, a coisa acabou não dando muito certo.

Vele di Scampia. Imagem © Wikimedia User Pinotto992 under the  Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 Italy license
Vele di Scampia. Imagem © Wikimedia User Pinotto992 under the Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 Italy license

Isso porque o projeto não foi levado a cabo conforme Di Salvo havia idealizado. Depois de construídas as torres e chegadas as primeiras famílias, as áreas vedes e espaços de convívio foram deixadas de lado e nunca saíram do papel. Além disso, o afastamento previsto entre os blocos também não foi respeitado, limitando e muito as condições de iluminação e ventilação natural no interior das unidades. Outra péssima decisão que contribuiu para com a derrocada do projeto idealizado por Di Salvo foi a remoção das áreas de serviço que deveriam ter sido construídas junto as unidades, e da eliminação completa dos espaços sociais e de convívio dentro da estrutura das torres e das infra-estruturas urbanas como creches, escolas e igrejas, concebidas como uma espécie de coluna vertebral do complexo habitacional das Velas de Sciampia. Assim como no caso do Cabrini-Green, as autoridades locais nunca se responsabilizaram pela manutenção dos edifícios conforme estava previsto inicialmente. Para agravar ainda mais a já precária situação, os primeiros apartamentos foram entregues sem terem sido concluídos, com todas as instalações por terminar. Como se não bastasse, o terremoto de Irpinia de 1980 só piorou as coisas, com muitas famílias desabrigadas passando a ocupar ilegalmente alguns dos apartamentos inconclusos do conjunto.

Vele di Scampia. Imagem © Flickr User Jacopo Ferrario under (CC BY-NC-SA 2.0) license
Vele di Scampia. Imagem © Flickr User Jacopo Ferrario under (CC BY-NC-SA 2.0) license

Embora todos estes fatores, para além da responsabilidade do arquiteto, indiscutivelmente tenham contribuído para o fracasso do projeto Vele di Scampia, é importante ressaltar que o projeto em si também não era perfeito, muito pelo contrário. O modelo de “torres isoladas” em meio ao espaço público, uma abordagem inspirada no plano de Le Corbusier para Paris, procurava dissimular os limites entre o espaço público e privado, algo que finalmente provou ser mais um problema do que uma solução. Não por acaso, esta foi uma das estratégias mais criticadas pela urbanista Jane Jacobs, que defendia o engajamento das comunidades locais como chave para o sucesso de qualquer projeto de interesse social.

O que estes dois exemplos nos mostram é que não há apenas um único fator determinante para o sucesso ou fracasso de um projeto de habitação social. Observando estes dois casos emblemáticos, a lição que fica é que a demolição destas estruturas não necessariamente é algo que contribuiu para solucionar os muitos problemas sociais responsáveis pelo seu declínio em primeiro lugar. Acima de tudo, o “fracasso” destas iniciativas deveria nos servir como um lembrete de que projetos sociais dificilmente serão bem sucedidos se as comunidades afetadas não forem envolvidas desde o início dos processos de tomada de decisões.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Equidade. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Maganga, Matthew. "De Chicago a Nápoles: o fracasso de dois grandes projetos de habitação social" [Cabrini-Green and Vele di Scampia: When Public Housing Projects Don’t Work Out] 10 Out 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/968326/de-chicago-a-napoles-o-fracasso-de-dois-grandes-projetos-de-habitacao-social> ISSN 0719-8906

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