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Antes do “colonial” havia a arquitetura do imigrante: a gênese da arquitetura norte-americana

Antes do “colonial” havia a arquitetura do imigrante: a gênese da arquitetura norte-americana

Antes mesmo que o estilo colonial se estabelecesse nos Estados Unidos—como em muitas outras colônias do novo mundo—já haviam edifícios sendo construídos. Digamos que antes do “colonial” havia a arquitetura do imigrante. Como um exercício de sobrevivência, a arquitetura do imigrante é aquela feita com aquilo que se tem à mão, com o que se pode encontrar e com o principal objetivo de ter um teto sobre o qual protege-se dos perigos do desconhecido. Depois de um certo tempo e distanciamento, é comum romantizarmos sobre o estilo de arquitetura colonial do país em que crescemos, afinal, somos todos imigrantes não é mesmo? Edifícios simples e honestos, representativos de quem somos e de onde viemos. Estruturas simétricas e de uma sobriedade avassaladora, de pequenos acréscimos e infinitos desdobramentos. Mas acontece que a arquitetura “colonial” não necessariamente é aquela construída com ânsia pelas mãos do imigrante em busca de um teto para morar.

Em plano século XXI, é praticamente impossível analisar fenômenos do passado de forma indiferente. Mais do que uma questão de cunho político, as diferenças culturais entre aqueles que chegam e os que vivem em um determinado lugar têm sido um fator determinante da condição humana. Basta uma rápida observação rápida para percebermos que o fator sobrevivência é quem dita os fenômenos migratórios em nosso planeta, antes de questões econômicas, políticas e culturais. “Comida e abrigo” são necessidades que movem as pessoas.

A necessidade humana por “abrigo” é tão urgente hoje como o foi a séculos atrás. A busca do homem por um teto sob o qual se proteger das intempéries e dos perigos do mundo é algo que transcende o próprio conceito de arquitetura. Pensando nisso, a mais de três anos eu e meu parceiro Steve Culpepper lançamos “A Home Called New England”, ou Uma Casa Chamada Nova Inglaterra em tradução livre, um livro que pretende ser um estudo de caso sobre a gênese da arquitetura americana em seus 400 anos de história.

No processo de estabelecer-se em um novo contexto ou território, a medida que buscamos construir nossas casas para morar a história de um lugar e a cultura de um povo são dados tão importantes quanto a própria força da gravidade a qual nossas estruturas precisam responder. Escrevendo este livro, descobrimos que a arquitetura americana de outrora, chamada também de arquitetura “colonial”, não foi a primeira arquitetura a ser edificada pelos primeiros imigrantes que aqui se estabeleceram a partir do século XVII.

The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS
The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS

Acontece que, antes mesmo de que alguém tivesse a ideia de estabelecer-se neste território selvagem e desconhecido, muitos visitantes passaram por aqui antes. Oriundos de diversas partes da Europa, viajantes, piratas e meliantes chegavam em seus navios, não com a intenção de fincar pé deste lado do oceano, mas apenas para ver com os próprios olhos o que havia à disposição, para tomar para si tudo aquilo que era possível carregar e vender quando voltassem para casa.

Ao longo do último ano e meio, testemunhamos como um vírus microscópico e invisível pôde transformar totalmente as nossas vidas. Em troca de tudo o que podiam levar, os primeiros visitantes que aqui desembarcaram trouxeram consigo a febre amarela, a varíola, a peste, a triquinose e a varicela assim como a gripe e todo tipo de infeções e mazelas. Nos primeiros anos que se seguiram o estabelecimento dos primeiros imigrantes em solo americano, acredita-se que um 40% da população nativa sucumbiu em razão das moléstias trazidas pelos europeus. Em um território incrivelmente despovoado e ocupado por culturas consideradas “inferiores”, os seres humanos que aqui chegavam sentiam-se livres para imprimir neste país a sua visão de mundo, para construir nele tudo aquilo que fosse necessário com os meios que lhes cabia.

The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County, MA Drawings from Survey. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS
The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County, MA Drawings from Survey. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS

Para sobreviver em um território hostil e desconhecido, os invasores sabiam que precisavam agir rápido e de forma eficiente. Não havia muito espaço ou tempo para rodeios ou floreios. No leste de Massachusetts encontramos uma das poucas casas desta época a sobreviver até os dias de hoje: a Peak House de Medfield, construída no ano de 1651. O edifício existente é uma reconstrução realizada em 1711 depois de um incêndio destruir a estrutura original. Neste caso, ao invés de construirem um novo edifício em estilo “colonial”, como era de costume, a estrutura foi reconstruída tal e qual como era. Graças a isso, podemos ver as “regras” empregadas pelos primeiros imigrantes em busca de abrigo e proteção:

  • Área mínima – 37 metros quadrados incluindo o espaço do sotão;
  • Simplicidade – Planta retangular e estrutura de telhado simétrico em duas águas;
  • Estética – apropriada da própria cultura medieval da época: edifício sem beirais, aberturas mínimas e ausência de ornamentos—telhados de inclinação acentuada e cobertura de palha;
  • Programa – espaço exterior aberto, lareira central de alvenaria e um segundo pavimento sob o telhado conectado por uma escada íngreme;
  • Forma – fundamentalmente simples porém com um telhado de inclinação acentuada que permitia ocupar um segundo nível.

The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County, MA Drawings from Survey. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS
The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County, MA Drawings from Survey. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS

Como um volume mínimo que mais se parece a um barraco de madeira, as primeiras casas dos imigrantes não tem nada a ver com a imagem colonial romantizada pela maioria dos americanos. Visitar um edifício tal e qual como era naquele tempo pode ser uma experiência chocante para a maioria dos americanos, muito porque ao longo dos últimos 300 anos procuramos apagar qualquer traço das culturas nativas, idealizando a figura do imigrante como um “colonizador” com boas intenções e não como a do vândalo voraz que de fato foi. Essa nostalgia romantizada da estética “colonial” foi posteriormente incorporada em outros estilos neoclássicos e neocoloniais como símbolo de nobreza e identidade. Na verdade, tudo isso foi inventado e forjado para criar uma imagem mais digestível de um passado assim não tão bem-apessoado, negando a origem medieval da arquitetura colonial americana e da própria cultura arcaica e subversiva de seus primeiros imigrantes.

Anglo Saxon House. Image Courtesy of middleages.org.uk
Anglo Saxon House. Image Courtesy of middleages.org.uk

A estrutura fundamental de sobrevivência construída pelos primeiros imigrantes que aqui desembarcaram era essencialmente funcional e muito pouco jeitosa. Neste contexto, a Peak House é um testemunho da urgência por abrigo por razões de sobrevivência daqueles que aqui chegaram por primeira vez. Fato é que há uma certa dignidade em manifestar o impreterível desejo de sobrevivência nas estruturas que construimos em detrimento de qualquer pretensão de caráter estético e formalista.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Migrações. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Dickinson, Duo. "Antes do “colonial” havia a arquitetura do imigrante: a gênese da arquitetura norte-americana" [Before “Colonial” There Was Immigrant Architecture in North America] 18 Ago 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/965525/antes-do-colonial-havia-a-arquitetura-do-imigrante-a-genese-da-arquitetura-norte-americana> ISSN 0719-8906

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