Antes e Depois das reformas: mudanças nas plantas arquitetônicas

Antes e Depois das reformas: mudanças nas plantas arquitetônicas

Um dos principais gestos projetuais de Paulo Mendes da Rocha no projeto de reforma da Pinacoteca foi criar um novo eixo de circulação longitudinal na edificação existente, alterando o seu acesso principal. Passarelas metálicas, que atravessam pátios internos cobertos por claraboias, possibilitam novas dinâmicas e integração entre as salas, adequando um edifício neoclássico a um museu com um programa totalmente contemporâneo.

A habilidade de renovar um espaço completamente, às vezes demolindo partes ou fazendo adições pontuais, alterando sua funcionalidade e melhorando sua ambiência, é dos ofícios mais admirados dos arquitetos. Em habitações isso fica ainda mais evidente, uma vez que adequar uma habitação às demandas contemporâneas, através de uma planta bem pensada, pode melhorar a qualidade de vida dos ocupantes. 

Apartamento do Thai / INÁ ArquiteturaApartamento Simão Alvares / GOAA - Gusmão Otero Arquitetos AssociadosApartamento Antônio Bicudo / VãoApartamento Louvre / MARCOZERO Estúdio+ 24

Com as mudanças dos estilos de vida, das composições familiares, das normas de construção e das tendências do mercado, as habitações foram sofrendo consequentes alterações com o tempo, sobretudo em apartamentos residenciais. Há pesquisas extensas sobre as alterações nas plantas, identificando os padrões e buscando entender as razões que promoveram tais mudanças. Mas algumas tendências são universais. De maneira geral, os edifícios residenciais mais novos apresentam espaços mais compactos, por conta do alto custo da terra urbana, e espaços considerados desnecessários começam a desaparecer, como é o caso da lavanderia. Soluções como micro-habitações e co-living têm, muitas vezes romantizado a possibilidade de prover moradias adequadas para todos nas grandes metrópoles.

Apartamento Marcela / INÁ Arquitetura. Image © Maíra Acayaba
Apartamento Marcela / INÁ Arquitetura. Image © Maíra Acayaba

Ao mesmo tempo, a maioria das cidades apresenta um enorme estoque de edificações, mas muita delas com soluções consideradas ultrapassadas. No Brasil, por exemplo, por conta de um passado escravocrata recente e a disponibilidade de mão-de-obra doméstica barata, até os anos 90 era muito comum que apartamentos da classe média possuíssem áreas separadas de serviço, com dependências de empregados, acessos e circulações exclusivas. Hoje em dia, com novas legislações trabalhistas e uma realidade econômica distinta, é muito mais raro que os trabalhadores domésticos durmam nos empregos, e uma parte considerável dessas habitações permanecem subutilizadas. 

Além disso, as plantas dos apartamentos mais antigos apresentavam uma grande compartimentação dos espaços e grandes áreas de circulação, como corredores. As cozinhas eram geralmente separadas dos outros cômodos. Concomitantemente, os imóveis apresentavam ambientes maiores, materiais de revestimentos mais nobres e mais luz natural. Atualmente, (para o terror dos vizinhos) remodelar esses imóveis através da demolição de algumas paredes permite transformar espaços compartimentados e desarticulados e atualizá-los aos estilos de vida mais atuais pode ser uma opção para torná-los moradias mais confortáveis e interessantes.

Apartamento Simão Álvares / Vão. Image © Federico Cairoli
Apartamento Simão Álvares / Vão. Image © Federico Cairoli

Trabalhar com reabilitação e reformas de edificações é um campo que tem ganhado mais atenção com os anos, e isso pode ser considerado um dos principais campos de atuação dos arquitetos no momento, principalmente se pegarmos como referência a enorme quantidade de projetos publicados neste site.

Por exemplo, no Apartamento Simão Alvares, de GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados, a demolição de praticamente todas as alvenarias permitiu transformar um apartamento tradicional de 2 dormitórios e cômodos pequenos em um apartamento contemporâneo com uma área social mais confortável. A alteração da localização do banheiro e a mudança da disposição da lavanderia possibilitou a integração da cozinha à sala.

Apartamento Simão Alvares / GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados. Image © Pedro Kok
Apartamento Simão Alvares / GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados. Image © Pedro Kok

Com uma situação semelhante, no projeto de INÁ Arquitetura, para esse apartamento, abriu-se mão da compartimentação tradicional dos apartamentos de 2 dormitórios, conformando uma grande sala com cozinha aberta e mantendo apenas um quarto.

Apartamento do Thai / INÁ Arquitetura. Image © Maíra Acayaba
Apartamento do Thai / INÁ Arquitetura. Image © Maíra Acayaba

No caso do Apartamento Lausanne, também projeto de reforma do GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados, as modificações foram ainda mais extensas, criando uma integração entre a área de serviço e social da planta original. Segundo o memorial enviado pelos arquitetos, “A setorização interna dos apartamentos é clara: um bloco sem prumadas hidráulicas abriga os espaços sociais e íntimos, enquanto o quadrante da fachada dos fundos recebe as áreas de serviço. Para o desenvolvimento deste projeto buscamos uma releitura da organização original do apartamento para adaptá-lo às necessidades dos novos moradores. A área de serviço e banheiros foram inteiramente refeitos e cozinha foi integrada à sala, configurando um espaço fluido que é iluminado pelas duas fachadas do edifício. As divisórias da sala, que originalmente eram construídas em madeira, foram feitas com uma estrutura de aço e tecido, ganhando leveza e translucidez.”

Apartamento Lausanne / GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados. Image © Pedro Kok
Apartamento Lausanne / GOAA - Gusmão Otero Arquitetos Associados. Image © Pedro Kok

No Apartamento na Avenida da República, de Manuel Cachão Tojal, diversas pequenas modificações de plantas permitiram tornar o espaçoso apartamento mais adequado às necessidades contemporâneas dos novos moradores.

Apartamento na Avenida da República / Manuel Cachão Tojal. Image © Francisco Nogueira
Apartamento na Avenida da República / Manuel Cachão Tojal. Image © Francisco Nogueira

O projeto de reforma desenvolvido pelo escritório Vão para um apartamento no Edifício Viadutos, projetado e construído pelo arquiteto Artacho Jurado na década de 50, lidou com uma planta extremamente desafiadora. A solução adotada foi demolir todas as paredes internas e, segundo a equipe de projeto, “Para aumentar a sensação de amplitude dentro dos 46m² de área interna, a divisão entre ambientes se fez através de um mobiliário que flutua suspenso, sem tocar o piso verde que inunda todo o apartamento".

Apartamento Viadutos / Vão. Image © Rafaela Netto
Apartamento Viadutos / Vão. Image © Rafaela Netto

Já no Apartamento Antonio Bicudo, desenvolvido pelos mesmos arquitetos, mais paredes foram adicionadas do que demolidas, diferentemente dos exemplos anteriores. Ao deslocar a bancada da cozinha para o mesmo alinhamento do banheiro, foi possível integrá-la à área social e permitir o fechamento do dormitório em um espaço separado. Um armário embutido na parede do dormitório faz o papel de lavanderia e espaço de armazenamento.

Apartamento Antônio Bicudo / Vão. Image © Rafaela Netto
Apartamento Antônio Bicudo / Vão. Image © Rafaela Netto

As alternativas são muitas, mas seja qualquer a solução adotada, é interessante observar como os espaços podem acomodar novos usos e, através de alguns gestos bem pensados, podem se adaptar às demandas dos seus usuários. Cabe aos arquitetos compreender as necessidades dos usuários, suas expectativas e se debruçar nas plantas para descobrir novos eixos, dinâmicas e possibilidades. 

Veja outros exemplos de alterações de plantas nesta pasta do My ArchDaily.

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Sobre este autor
Cita: Eduardo Souza. "Antes e Depois das reformas: mudanças nas plantas arquitetônicas " 24 Set 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/947836/antes-e-depois-das-reformas-mudancas-nas-plantas-arquitetonicas> ISSN 0719-8906

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