O lugar da maquete física em tempos de BIM

O lugar da maquete física em tempos de BIM

Certa vez, uma colega arquiteta comentou comigo que haviam contratado um novo estagiário no escritório do qual ela era sócia. Rapaz competente, dedicado que estava cursando os semestres intermediários do curso de arquitetura. Sua admissão se deu, principalmente, pelo fato de ter apresentado boas habilidades em softwares de modelagem BIM (Building Information Model), com um portfólio repleto de projetos de escala média bem resolvidos.

Entretanto, o fato interessante da conversa foi quando ela comentou que um dia qualquer, em meio a alguns estudos de projeto, pediu a ele que representasse à mão o corte de uma parede. Algo que deveria indicar reboco, pintura, alvenaria, nada muito mais detalhado do que isso. Acontece que, nesse dado momento, o então recém-admitido estagiário a observou pensativo demonstrando um misto entre “invento alguma coisa agora ou assumo que não sei?”. 

Na época, lembro que esse episódio rendeu uma boa reflexão, não sobre as habilidades do novo estagiário, mas sobre a dependência que está se criando das ferramentas digitais, nesse caso, especificamente, dos softwares que utilizam a tecnologia BIM. Uma dependência que parece se instaurar principalmente nas novas gerações as quais, desde o início da sua formação, são educadas com base nos modelos digitais.

Em uma interface amigável e muitas vezes intuitiva com dois cliques erguemos paredes e definimos as esquadrias. A pré-configuração do programa permite a escolha do tipo de elemento por meio de um clique sobre o ícone. Em instantes se tem planta baixa, corte, fachada e perspectiva 3D. Sem dúvidas uma maravilha do mundo contemporâneo que facilita a nossa vida corrida de arquitetos, minimizando os erros nas obras, otimizando nosso trabalho, enfim, todas essas vantagens incríveis que bem sabemos. Porém, o episódio acima indica que parece haver um tempo certo para inserir toda essa tecnologia no processo de projeto.

Nesse sentido, a questão que me intrigou aqui, e dela nasceu esse texto, foi a importância em correlacionar as diferentes ferramentas na hora de projetar, principalmente quando se está sendo “alfabetizado” no mundo arquitetônico. Talvez o aluno citado anteriormente, até o momento, não havia parado para refletir – ou não havia sido instigado por professores, mestres, etc.  a tal – sobre o quanto mede a espessura daquela parede que ele desenhava no computador, tampouco quanto significava metricamente o reboco e a pintura, apesar de ser capaz de apresentar um quantitativo de materiais muito próximo do real com, é claro, apenas outro clique.

Nesse mundo dos cliques, talvez as ferramentas tradicionais parecem estar sofrendo uma espécie de rejeição, estigmatizadas como trabalhosas e inúteis. Ferramentas tradicionais, que me refiro aqui, principalmente, como o desenho a mão livre e a maquete física. 

© Ariana Zilliacus
© Ariana Zilliacus

Alguns meses após o episódio acima, e ainda reverberando internamente sobre as reflexões daquele dia, me ative a algo curioso que – sem querer – encaixou-se perfeitamente com o acontecido anterior. Em determinada manhã caminhava pelos ateliês de projeto da Universidade que frequento, salas enormes conjugadas por divisórias que quase nunca estão fechadas. No percurso, me detive alguns instantes espionando por entre uma das portas voltadas ao corredor. A aula era “Projeto 0”, como se chama aqui a disciplina de introdução ao projeto arquitetônico do primeiro semestre. Nessa sala, uma profusão de materiais, cores, texturas sobrecarregavam as mesas compridas, cada aluno fixado em seu pedaço de isopor. Alguns debruçados sobre a mesa, outros recostados nas cadeiras, os poucos que estavam sentados vez ou outra se levantavam em busca de algum ângulo específico, se inclinavam, se afastavam e, logo, tornavam a se sentar.   

Em meio a essa coreografia surgiram em mim algumas reflexões sobre a colocação do corpo no projetar arquitetônico e aí, mais um ponto para as ferramentas tradicionais de projeto. Indo um pouco além do desenho a mão livre que, por si só já resolveria a falta de familiaridade com medidas ou escalas no caso citado no início do texto, o uso da maquete física como ferramenta indica alguns hábitos que precisam ser rememorados. 

No computador usamos basicamente os dedos para projetar, no desenho à mão livre chegamos até o punho, porém, ao elaborar uma maquete física, usamos todo o corpo. 

Diferentemente do feliz exemplo o qual pude presenciar aquela manhã, a grande maioria das práticas pedagógicas trabalha o corpo de forma multifacetada, separando a capacidade mental, intelectual e emocional, negando a sua essência holística. Nessa “evolução” do ato de projetar, em que novas tecnologias surgem a cada momento com intuito de facilitar o nosso papel, parece, então, que estamos caminhando rumo à uma desassociação da mente com o corpo, principalmente na hora de conceber o projeto arquitetônico. Ou seja, ao usar essencialmente ferramentas digitais estamos limitando também nossa própria capacidade criativa.  

O corpo pensante - para usar a expressão do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa - possui vida própria que é guiado pela intuição do subconsciente, criando atos tão rápidos que o próprio cérebro não é capaz de acompanhar. Segundo apontam diversos estudos do gênero, há, neste caso, uma memória corporal implícita na qual esses movimentos, seja do corpo, seja da mão, atuam livremente. Uma memória não do cérebro, mas dos músculos, que acaba sendo reprimida no desenho via computador.

Cada corpo é dotado de uma personalidade, uma construção que vem do histórico social, cultural e educacional baseada nessas memórias nele acumuladas. Uma individualidade presente nos trabalhos ditos artesanais que resulta em uma representação diretamente relacionada ao seu autor.  Projetar com o corpo é, portanto, dar vez à beleza da aleatoriedade – ou melhor, da intuição, das memórias, do subconsciente. Uma experimentação corporal que potencializa a abstração gerando um modo de criar sem medo de errar. 

Ao deixar de lado a automatização das ideias são abertas outras possibilidades subentendidas no impulso criativo que, por sua vez, podem gerar desenhos inusitados e formas inovadoras. Mas não só isso. Elas podem – mais facilmente - assumir e representar a identidade do seu criador, deixando de lado impessoalidade de uma tela no computador.   

Seja por meio de maquetes de estudo ou modelos próximos do real, há nesse exercício uma importante noção de escala, de textura e ocupação espacial que o desenho digital ainda não nos permite. Digo ainda pois mal podemos esperar pela última invenção do mundo arquitetônico digital. Mas, de qualquer forma, esse método, seja como estudo, seja como modelo final, enriquece o processo de projeto trazendo novas perspectivas e olhares sobre um mesmo desafio. 

The Reifier / Heffrence H P Teow. Cortesia de Heffrence H P Teow
The Reifier / Heffrence H P Teow. Cortesia de Heffrence H P Teow

Nesse sentido, existem grandes nomes da arquitetura que são entusiastas da utilização da maquete física como método projetual. Albena Yaneva, arquiteta nascida na Bulgária, passou dois anos acompanhando o processo de projeto do OMA de Rem Koolhaas, sintetizando tudo o que viu no livro Made by the Office for Metropolitan Architecture: An Ethnography of Design (2009). Nessa obra ela afirma que o processo de projeto do OMA parte de uma experimentação coletiva em volta de uma mesa repleta de maquetes, no qual o próprio Koolhaas raramente desenha por si só. O projeto no OMA acontece em diferentes mesas, que contém várias maquetes em diversas escalas - da edificação inteira ou de partes dela. Essas mesas são então, uma importante ferramenta cognitiva, conexões organizacionais no processo de projeto.

Um dos estagiários entrevistados por ela na época afirmou que são feitas em média 30-50 maquetes de estudo por projeto e é, por meio delas, que Koolhaas consegue acompanhar as modificações dos desenhos sendo capaz de entender e captar as informações em segundos. Ele comenta também que a memória projetual registrada pelas maquetes é muito importante para o escritório tanto que nenhuma delas é desfeita. Quando o projeto é finalizado, suas maquetes são todas levadas para o subsolo e alguns dos melhores modelos de estudo são eventualmente expostos em exibições intimistas.

Algo interessante nesse processo é, também, o fato de que a equipe do OMA reconhece e assume o processo de projeto não como uma epifania de um momento especifico, mas como resultado de uma bagagem por trás de si. Uma memória pessoal das ideias anteriores que neste caso são eternizadas por meio da maquete física, fora o fato de serem facilmente acessadas, revisitadas e, porque não, reinventadas para criação de um novo projeto. 

Além do OMA, em um exemplo mais próximo, quando se fala em maquete física não se pode deixar de comentar o processo de projeto de Paulo Mendes da Rocha. Em toda sua carreira, sempre afirmou que a grande questão que envolve os arquitetos é saber imaginar as coisas que ainda não existem. Entretanto, para nos amparar nesse exercício – muitas vezes árduo -, ele diz ser necessário invocar a experiencia humana acumulada na existência de cada um, um saber interdisciplinar a fim de alcançar um olhar crítico sobre o caso. Nesse caso, o arquiteto afirma que a maquete física é peculiarmente útil, principalmente nos estágios inicias da concepção, justamente por permitir uma expressão não somente intelectual, mas também artística. A chamada por ele de “maquete solidão”, diferentemente do processo de projeto do OMA, serve como croqui do arquiteto, um ensaio da imaginação que deve se manter em sigilo entre a criatura e o criador.

Das mesas abarrotadas de maquetes do OMA ao solitário modelo de Paulo Mendes, o exercício projetual utilizando a maquete parece se desdobrar e se recriar em uma infinidade de possibilidades e interações que só a materialidade gera. Experimentos que, quanto objetos, apresentam simultaneamente largura, altura e comprimento; luz, sombra e volume; rugosidade, maciez e lisura. Características que nos aproximam da experiência no espaço e são motivadas pelas próprias ações desse corpo que corre, que para, que se ergue ou se abaixa, que se afasta ou se aproxima na 1:1 ou na 1:200, seja lá em qual escala arquitetônica estamos falando.

A arquitetura firmou-se como profissão antes mesmo do surgimento da racionalidade técnica e, por isso, carrega em si essas sementes de uma visão anterior do conhecimento profissional. Em sua raiz experimental e artística, ela não só foi criada para o corpo, mas também pelo corpo e essa carnalidade da obra não cabe em uma tela de computador e tampouco deve ser reprimida na alegação de uma comodidade no processo de projeto. 

Chamber Music Hall in Reichenau / Ivan Matas. Cortesia de Ivan Matas
Chamber Music Hall in Reichenau / Ivan Matas. Cortesia de Ivan Matas

Como citado anteriormente, as ferramentas digitais, em especial os softwares BIM, são invenções essenciais para a vida profissional contemporânea, principalmente no que diz respeito aos desenhos executivos direcionados à obra. Entretanto, esse texto não é uma imposição projetual, mas um alerta, principalmente para as novas gerações, sobre a importância de estar presente no processo arquitetônico - com corpo e alma.

Referências

  • Albena Yaneva. Made by the Office for Metropolitan Architecture: An Ethnography of Design, 010 Uitgeverij, Roterdã, 2009.
  • Ana Gabriela Pereira Gomes. "The Thinking Hand" processos didáticos entre experiência e consciência, Universidade do Porto, Portugal, 2019.
  • Juhani Pallasmaa. The Thinking Hand: Existential and Embodied Wisdom, Architecture, Chichester: John Wiley & Sons Ltd., 2009.

Camilla Ghisleni é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Urbanismo, Cultura e História da Cidade pela mesma universidade. É sócia-fundadora do escritório Bloco B Arquitetura e colabora com o ArchDaily Brasil desde 2014.

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Sobre este autor
Cita: Camilla Ghisleni. "O lugar da maquete física em tempos de BIM" 18 Fev 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/933807/o-lugar-da-maquete-fisica-em-tempos-de-bim> ISSN 0719-8906
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