Desenhos à mão livre: o valor da interpretação emocional na arquitetura contemporânea

Desenhos à mão livre: o valor da interpretação emocional na arquitetura contemporânea

Um século depois a ideia convincente de que a arquitetura moderna surgiu como uma fênix cegamente branca, cristalina e perturbadora em meio à morte e à destruição da Primeira Guerra Mundial é, talvez, familiar. No entanto, os esboços a carvão e as montagens em chiaroscuro que Mies van der Rohe fez durante e após a época do concurso para o arranha-céu de Berlim Friedrichstrasse de 1921-22, mantêm o poder de chamar a atenção, provocar e perturbar mesmo em nossa era de imagens impressionantes produzidas por e com programas de computador.

O que é mais notável nesses desenhos visionários centenários é que eles retratam um tipo de construção futura, à beira do etéreo e mais ou menos impossível de se fazer naquele momento, nos materiais de desenho mais terrenos. Foi um golpe de gênio usar o carvão para evocar uma arquitetura de leveza que emergia das brasas das trincheiras que revolucionariam a maneira como moldamos prédios altos e com eles as ruas de nossa cidade. Tal é o poder do desenho à mão livre.

Anneke Vervoort, Landschaftspark, Duisburg, Alemanha, 2016, Aquarela e tinta da Índia, 13 x 19 3/4 inChris Dove, Rooves of Venice, 2015, Caneta e tinta, 27 1/2 x 19 3/4 inNataly Eliseeva, City dovecote, architectural fantasy, 2010, Caneta e tinta, 7 7/8 x 11 3/4 inStefan Davidovici, Imaginary Jerusalem, 3, 2010, Tinta sobre papel, 8 1/4 x 11 3/4 in+ 7

Anneke Vervoort, Landschaftspark, Duisburg, Alemanha, 2016, Aquarela e tinta da Índia, 13 x 19 3/4 in
Anneke Vervoort, Landschaftspark, Duisburg, Alemanha, 2016, Aquarela e tinta da Índia, 13 x 19 3/4 in

Em seu novo livro, Single-Handedly: Contemporary Architects Draw by Hand, arquiteta e escritora de Nova York Nalina Moses compilou cerca de duzentos desenhos a mão livre de arquitetos contemporâneos de todo o mundo que têm pelo menos parte do poder de Mies. Embora os desenhos de computador sejam elegantes e espirituosos, argumenta Nalina, eles ainda não conseguem se aproximar e menos ainda se equiparar à "inteligência formal, sensualidade assertiva e imediatismo emocional" do desenho à mão. Em um momento onde o desenho digital provou ser amplamente indispensável no processo de construção, ele continua sendo uma construção geométrica sem importar quão inteligentemente seja programado. Os desenhos à mão são construções da imaginação.

Stefan Davidovici, Imaginary Jerusalem, 3, 2010, Tinta sobre papel, 8 1/4 x 11 3/4 in
Stefan Davidovici, Imaginary Jerusalem, 3, 2010, Tinta sobre papel, 8 1/4 x 11 3/4 in

"Um desenho à mão livre", escreve Moses, "por estar vinculado às tradições seculares de criar imagens, tem um potencial imaginário poderoso". Imediatamente, ele também pode "se mover tão rápido quanto uma corrente de pensamento" e "colocar o arquiteto no centro da mitologia de um edifício". E, para Moses, resumindo o rico catálogo do seu livro, o desenho à mão devolve o edifício a um conjunto concebido organicamente, mas composto livremente. “A página em branco é um espaço não regulamentado, um campo com potencial imaginativo infinito. Isso possibilita que todas as arquiteturas sejam rigidamente pragmáticas, inquestionavelmente tradicionais ou inovadoras".

Nataly Eliseeva, City dovecote, architectural fantasy, 2010, Caneta e tinta, 7 7/8 x 11 3/4 in
Nataly Eliseeva, City dovecote, architectural fantasy, 2010, Caneta e tinta, 7 7/8 x 11 3/4 in

Qualquer arquiteto que se pergunte se deveria deixar o CAD um pouco de lado e mostrar sua capacidade de desenhar e pensar sobre arquitetura e edifícios individualmente através do desenho à mão livre e, portanto, se inscrever de última hora no Prêmio de Desenho de Arquitetura (Architecture Drawing Prize), poderia folhear as páginas do Single-Handedly para testemunhar a grande variedade de técnicas, estilos e maneiras de ver por meio da mão que seus colegas de todo o mundo são capazes de materializar.

Chris Dove, Rooves of Venice, 2015, Caneta e tinta, 27 1/2 x 19 3/4 in
Chris Dove, Rooves of Venice, 2015, Caneta e tinta, 27 1/2 x 19 3/4 in

O livro também é um lembrete do que os jurados estão procurando em concursos tais quais esse prêmio. Como Moses observa, os muitos desenhos bonitos que apareceram para ela durante a compilação de seu livro, "alguns deles também possuíam uma energia expressiva", como, é claro, os desenhos da competição Friedrichstrasse de Mies", como se precisassem ser desenhados. Foram estes, seja com lápis, tinta acrílica, café, tinta ou líquido corretivo, se não com carvão, os que chegaram ao livro.

Single-Handedly: Contemporary Architects Draw by Hand

Para mais informações o prêmio The Architecture Drawing com curadoria de Make, Sir John Soane’s Museum e WAF visite https://thedrawingprize.worldarchitecturefestival.com/

O Architecture Drawing Prize é patrocinado por Hare.

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Sobre este autor
Cita: Glancey, Jonathan . "Desenhos à mão livre: o valor da interpretação emocional na arquitetura contemporânea" [Prized Hand-Drawings Return a Building to an Organically Conceived Whole] 19 Out 2019. ArchDaily Brasil. (Trad. Sbeghen Ghisleni, Camila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/926686/desenhos-a-mao-livre-o-valor-da-interpretacao-emocional-na-arquitetura-contemporanea> ISSN 0719-8906

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