Paisagens invisíveis: quando as ferramentas digitais falham em documentar

Paisagens invisíveis: quando as ferramentas digitais falham em documentar

A partir de uma pesquisa on-line feita de qualquer computador é possível ter imagens de muitas cidades do mundo pela perspectiva de pedestres. Essa tecnologia é poderosa, permitindo que as pessoas tenham uma visão aprofundada das cidades que um dia podem visitar, morar ou trabalhar. É uma ferramenta útil para entender os edifícios em um nível mais abrangente do que fotografias. Essa tecnologia é, obviamente, o Google Street View - que recentemente completou 15 anos.

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Para estudantes de design de todo o mundo, pode funcionar como uma visita secundária ao local, complementando as informações coletadas pessoalmente. No entanto, apesar de sua disponibilidade em 83 países, essa cobertura é extremamente limitada. Muitos lugares têm pouca ou nenhuma cobertura. Na África, apenas 13 países foram mapeados pelo Google Street View. Quase toda a América Central ainda não foi mapeada. Grande parte da Ásia e do Oriente Médio também não está disponível no Google Street View. É uma reflexão sobre como as tecnologias digitais que podem nos ajudar a dar sentido ao ambiente construído também podem acabar perpetuando as desigualdades e relações de poder que existem no mundo.

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Carro do Google Street View. Imagem © Wikimedia Usuário petterijokela sob Creative Commons CC0 1.0 Dedicação de Domínio Público Universal

Em 2018, Harare, capital do Zimbábue, não estava disponível no Google Street View. Um gerente de produto do Vale do Silício do Zimbábue, Twanda Kanhema, decidiu mudar isso, se voluntariando para carregar o equipamento do Google Street View para mapear Harare e o que mais tarde se tornaria 3 200 km de seu país de origem. É um triste reflexo da inacessibilidade digital. Kanhema, por exemplo, teve que financiar o projeto de mapeamento por conta própria, e o Google não paga os colaboradores pelo conteúdo do Street View que eles enviam.

Como um componente do Google Maps, o Google Street View naturalmente replica o modo como Google Maps funciona: o motor é a lucratividade comercial extraída da receita de publicidade. Essa receita permite que o Google Maps seja gratuito, mas o outro lado disso é que, na verdade, atinge um quase monopólio, onde nem todas as cidades são vistas como igualmente dignas de documentação. Embora Tawanda Kanhema tenha começado a mapear Harare depois de tentar mostrar a um amigo sua casa de infância, existem muitos profissionais de design e entusiastas interessados em pesquisar ou fazer uma intervenção espacial em Harare que também não conseguiram obter dados úteis de mapeamento fotográfico da cidade

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Harare, Zimbábue. Imagem © Tatenda Mapigoti via Unsplash

Historicamente, muito antes do domínio das tecnologias digitais atuais, o mapeamento funcionava como um método de controle. Esse controle se infiltrou na forma como os espaços não mapeados eram vistos, à medida que as potências coloniais europeias denominavam terras não mapeadas como terra nullius e buscavam, por meio do mapeamento, promover seus interesses comerciais imperiais.

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Mapa mostrando a extensão do Império Britânico em 1886. Imagem © Norman B. Leventhal Map Center licenciado sob a licença Creative Commons Atribuição 2.0 Genérica

Em um século XXI “pós-colonial”, o neocolonialismo significa que algumas dessas cidades não mapeadas dependem muito de uma indústria de turismo que busca atrair viajantes principalmente dos países do Norte Global. Países e cidades que não são mapeados no Google Street View são, na verdade, impedidos de se promoverem adequadamente. Alguns locais não mapeados fotografados por voluntários também podem acabar sendo documentados em baixa qualidade, já que poucos voluntários teriam acesso ao equipamento usado por Tawanda Kanhema, por exemplo.

Uma grande parcela dos recursos do Google em relação ao Street View é gasta principalmente na atualização de imagens dos países do Norte Global, até mesmo as trilhas remotas do Parque Nacional de Yosemite, nos Estados Unidos. Esses recursos não se estendem às cidades do Sul Global.

Além das cidades não serem exibidas no Google Street View, há também a situação em que apenas o rosto "higienizado" de uma cidade é mostrado. Moradores de um subúrbio de trabalhadores em Buenos Aires, Avellaneda, fizeram reclamações ao longo dos anos sobre os resíduos deixados em um riacho local, em uma área propensa a inundações.

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Bairro de San Nicolás, Buenos Aires - abriga a maior parte do Distrito Central de Negócios de Buenos Aires. Imagem © Estrella Herrera-gv/GCBA

assentamentos informais na paisagem de Avellaneda do outro lado do riacho, seus moradores ficam vulneráveis aos gases nocivos que chegam a causar vômitos. Um passeio do Google Maps Street View de Avellaneda, no entanto, omite isso, mostrando apenas as estradas mais formais e alinhadas com blocos de apartamentos. Essa forma de cartografia urbana ignora essencialmente aqueles que vivem em exemplos de arquitetura menos “formais”, exacerbando o que só pode ser denominado como uma divisão digital urbana onde lugares não visíveis em plataformas como o Google Street View são por sua vez esquecidos por governos e pelos poderes políticos.

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Ponte Pueyrredón - Avellaneda, Buenos Aires. Imagem © usuário da Wikimedia Dario Alpern sob a licença Creative Commons Attribution 3.0 Unported

Uma pandemia global colocou as ferramentas digitais de volta à vanguarda de nossas conversas diárias, mas como continuamos a depender fortemente de ferramentas digitais para entender o ambiente urbano ao nosso redor, é mais importante do que nunca nos envolver criticamente com o funcionamento dessas ferramentas

O mapeamento sempre foi tendencioso e está longe de ser neutro. Mas, à medida que alguns serviços de mapeamento se tornam plataformas universais para pessoas comuns, há o perigo de perpetuar um sistema defeituoso, onde assentamentos e paisagens inteiros são ignorados por ferramentas de mapeamento digital e, posteriormente, invisíveis por urbanistas e formuladores de políticas públicas.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Democratização do Design. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Maganga, Matthew. "Paisagens invisíveis: quando as ferramentas digitais falham em documentar" [Invisible Landscapes: When Digital Tools Fail to Document ] 22 Jun 2022. ArchDaily Brasil. (Trad. Gagliardi, Walter) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/983732/paisagens-invisiveis-quando-as-ferramentas-digitais-falham-em-documentar> ISSN 0719-8906

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