Sexo e cidade: refletindo sobre segregação espacial e prostituição

Sexo e cidade: refletindo sobre segregação espacial e prostituição

Criado informalmente em uma campanha de marketing, o dia do sexo é comemorado no Brasil no dia 6 de setembro e coloca em pauta um dos grandes tabus da sociedade moderna: a sexualidade. Dentro das perspectivas da arquitetura e da cidade, a imoralidade vinculada à prática sexual, principalmente remunerada, impacta amplamente na nossa sociedade, refletindo em questões territoriais.

Se por um lado é moralmente pecaminoso, proibido e impuro, por outro, o sexo, a sexualidade e o prazer fazem parte da fisiologia humana. A prostituição é a pratica profissional mais antiga de que se tem registro na sociedade, desempenhando um papel fundamental nas nossas sociedades e também no território, na organização espacial e na dinâmica das cidades. Assim como na sociedade moderna a sexualidade foi marginalizada, nas cidades suas atividades acabaram por ocupar espaços segregados. 

As “vitrines’ da zona de meretrício do Bom Retiro. Image via São Paulo Passado por Edison Loureiro
As “vitrines’ da zona de meretrício do Bom Retiro. Image via São Paulo Passado por Edison Loureiro

Historicamente não nos faltam exemplos de cidades nas quais os arredores dos portos ou dos centros comerciais foram ocupados por bares e bordéis, normalmente em ruas e vielas menores, mais discretas, sem saneamento básico e tomadas pela pobreza, fome e degradação. A prática da prostituição, e toda sua constelação de atividades como bordéis, bares, boates, motéis e tantas outras “atividades imorais”, encontram-se, segundo Diana Helene Ramos, nos espaços da cidade que mais conseguem "tolerar" esse continente:

São, majoritariamente, “bairros em “transformação”, com terrenos vagos, áreas intersticiais, com atividades obsoletas ou pouco definidas e com valor funcional e imobiliário médio, habitados por uma população modesta e desprovida de recursos materiais. São espaços periféricos, não somente geograficamente, mas principalmente no sentido de uma periferia social, buscando segregar os “impuros” da sociedade formal. — Diana Helene Ramos, 2015

Isso se dá territorialmente, socialmente e também legalmente: no Brasil até 2009 era crime segundo o Código Penal “manter, por conta própria ou de terceiro, casa de prostituição ou lugar destinado a encontros para fim libidinoso, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”. Só depois de 2009 foi possível, por exemplo, formalizar a existência de motéis dentro das cidades. Esses motéis, porém, também estão sujeitos à outras regulamentações. Em São Paulo, por exemplo, segundo a lei de zoneamento da cidade os motéis são restritos a áreas de predominância industrial, rodovias e vias marginais, perpetuando assim a segregação e o isolamento das atividades sexuais em relação à cidade formal. 

via Photo by Christian Felix Möller Somers on Unsplash
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A desvalorização dessas áreas e sua consequente degradação, porém, aparecem como uma oportunidade para os projetos de requalificação, regeneração e renovação urbana. A desvalorização do preço da terra devido à degradação do território abre espaço para a especulação imobiliária e para projetos que visam aproveitar dessa fragilidade para expulsar os moradores e todas as suas atividades "pecaminosas", e criar ali novos distritos urbanos gentrificados. É o que discorre Tsaiher Cheng ao analisar casos em Hong Kong, Taipei, Montreal, Antuérpia e Amsterdã. Mesmo as áreas mais consolidadas, como o Red Light District holandês, são alvo de novos projetos de requalificação urbana, buscando mudar o tipo de público que frequenta o local.

via Photo by Lara Puscas on Unsplash
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Apesar dos estigmas e esforços no combate da prostituição e da marginalização de grupos inteiros da sociedade, há uma importante resistência desses grupos, tanto na sua organização e mobilização em grupos organizados, quanto na própria prática e ocupação do território. Em São Paulo, por exemplo, um fenômeno chama atenção aos olhos curiosos: nas pequenas e antigas construções centrais que se organizam em uma espécie de patchwork de tipologias e épocas, escritórios, bares, lojas e pensões se entrelaçam por pequenas portas e janelas. No meio delas, o letreiro curioso dos hotéis chama a atenção com uma espécie de licença poética ao utilizar uma letra que, sutilmente, não consta no nosso alfabeto: o "H" se soma à letra "M" para escrever no letreiro a palavra hotel. A adaptação da tipologia comunica não só a atividade do local, mas também uma gama de questões territoriais implícitas.

Prostitutes dance for prospective clients in a bar in the red-light district, Pat Pong, Bangkok, Thailand.. Image via axlright is licensed under CC BY-NC 2.0
Prostitutes dance for prospective clients in a bar in the red-light district, Pat Pong, Bangkok, Thailand.. Image via axlright is licensed under CC BY-NC 2.0

Segundo a lei de zoneamento, os motéis são proibidos naquela região, buscando afastar a prostituição e todo o imaginário que ela carrega. Porém, muito anterior à legislação, este território era frequentado por prostitutas que resistem habilmente. O centro da cidade de São Paulo, assim como tantos outros grandes centros urbanos, é um dos locais mais disputados pelo mercado imobiliário. Dessa forma, ao mesmo tempo que a região apresenta em sua paisagem uma infraestrutura urbana obsoleta e precária, também é alvo de grandes projetos de reforma urbana, que buscam “limpar a área” e mudar sua característica. É dentro deste contexto que uma letra inexistente no alfabeto comunica que ali é lugar de disputa, desafiando a legislação, resistindo à segregação e evidenciando a moralidade da sociedade.

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Sobre este autor
Cita: Giovana Martino. "Sexo e cidade: refletindo sobre segregação espacial e prostituição" 25 Set 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/968024/sexo-e-cidade-refletindo-sobre-segregacao-espacial-e-prostituicao> ISSN 0719-8906

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