Telhados verdes podem tornar nossas cidades melhores?

Telhados verdes podem tornar nossas cidades melhores?

Pesquisadores apontam os Jardins Suspensos da Babilônia como os primeiros exemplos de telhados verdes. Ainda que não exista comprovação de sua localização exata e pouquíssima literatura sobre a estrutura, a teoria mais aceita é que o rei Nabucodonosor II construiu uma série de terraços elevados, ascendentes e com espécies variadas como presente à esposa, que sentia falta das florestas e montanhas da Pérsia, sua terra local. Segundo Wolf Schneider [1] os jardins eram sustentados por abóbadas de tijolos, e sob eles, existiam salões sombreados e refrigerados pela irrigação artificial dos jardins, com uma temperatura muito mais amena que o exterior, na planície da Mesopotâmia (atual Iraque). Desde então, exemplos de coberturas verdes apareceram por todo mundo, de Roma à Escandinávia, nos mais diversos climas e tipos.

Ainda assim, a solução de inserir plantas na cobertura ainda é vista com desconfiança por muitos, como uma solução custosa e difícil de manter. Outros, no entanto, defendem que os custos elevados de implantação são amortizados rapidamente com economias na climatização e que, principalmente, ocupar a quinta fachada da edificação com vegetação é uma saída, antes de tudo, racional. De toda a forma, fica a dúvida de como os telhados verdes podem realmente ajudar nas mudanças climáticas.

79&PARK / BIG. Image © Laurian Ghinitoiu
79&PARK / BIG. Image © Laurian Ghinitoiu
Musée Atelier Audemars Piguet / BIG + ATELIER BRÜCKNER + CCHE. Image © Iwan Baan
Musée Atelier Audemars Piguet / BIG + ATELIER BRÜCKNER + CCHE. Image © Iwan Baan

Um teto verde consiste em uma laje de cobertura que recebe uma camada de solo e vegetação sobre uma superfície impermeabilizada, que pode ser plana ou ligeiramente inclinada. A espessura da camada de terra influenciará o tipo de vegetação que ali poderá ser plantada, variando entre 15 centímetros até mais de 1 metro. Construtivamente, abaixo da terra, usualmente são inseridas diversas camadas de materiais, com variações e sofisticações nos detalhes, conforme o projetista responsável. Sob o substrato, geralmente inclui-se uma manta geotêxtil, que deixará a água passar, mas manterá a terra contida. Abaixo, uma camada drenante, onde a água permanecerá armazenada e serão instalados os drenos para transbordo. Incluir uma camada anti-raízes é importante para evitar que elas possam se infiltrar na estrutura e desencadear infiltrações. Sob isso, a estrutura da laje, impermeabilizada de alguma forma, conclui o sistema.

Jardim de Infância de Cultivo / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki Oki
Jardim de Infância de Cultivo / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki Oki
Casa Pepiguari / Brasil Arquitetura. Image © Nelson Kon
Casa Pepiguari / Brasil Arquitetura. Image © Nelson Kon

No mercado existem diversos fornecedores e fabricantes de telhados verdes para considerar no projeto. É interessante, sempre que possível, incluir os técnicos e os fornecedores desde o processo projetual, para que eles possam aconselhar sobre as especificações de desempenho térmico, drenagem, carregamento e outros fatores. Há sistemas modulares pré-fabricados, por exemplo, que já incluem todas as camadas e mesmo as plantas preparadas. Por conta do acréscimo significativo de peso, a estrutura de suporte da edificação deve ser calculada para tal, o que implicará em peças estruturais mais robustas. No caso de uma remodelação, o acréscimo de carga deverá ser estudado para evitar problemas estruturais. Outro elemento a ser levado em conta é o acesso ao telhado para a manutenção. Este é um ponto chave, que geralmente pesa contra muitos telhados jardins. Há alguns que carecem de pouquíssima manutenção, enquanto outros são mais exigentes nos cuidados, com mais regas e podas. Qualquer telhado jardim demandará limpezas de rotina e inspeção das partes, para evitar problemas futuros.

Museu Moesgaard / Henning Larsen Architects. Image © Jens Lindhe
Museu Moesgaard / Henning Larsen Architects. Image © Jens Lindhe

Quando construídos, projetados e mantidos adequadamente, telhados verdes apresentam mais vantagens que desvantagens. Para os ocupantes da edificação abaixo, a vegetação reflete a maior parte da luz solar direta, em vez de absorvê-la e a umidade presente na vegetação e no substrato impedem o ganho de calor da estrutura, proporcionando economia de energia para resfriamento. Em climas áridos, o aumento da inércia térmica, por conta do substrato, aumentará o conforto, reduzindo as oscilações de temperatura no interior. Além disso, geralmente se trata de um espaço verde potencialmente utilizável, extremamente agradável.

MM House / Studio MK27 - Marcio Kogan + Maria Cristina Motta. Image © Fernando Guerra | FG+SG
MM House / Studio MK27 - Marcio Kogan + Maria Cristina Motta. Image © Fernando Guerra | FG+SG

Mas as vantagens não são apenas privadas. Sobretudo em cidades grandes e densas, a criação de tetos verdes pode mitigar alguns problemas relevantes. De acordo com a EPA (Environmental Protection Agency), o uso de telhados verdes em cidades ou outros ambientes construídos com vegetação limitada pode moderar o efeito da ilha de calor, especialmente durante o dia. As temperaturas dos telhados verdes são entre 16 e 22 °C mais baixas do que os telhados convencionais e podem reduzir a temperatura ambiente da cidade em até 2,7 °C. Ou seja, tratam-se de dispositivos altamente eficientes para reduzir as ilhas de calor urbanas.

Espace Bienvenüe / Jean-Philippe Pargade. Image © Sergio Grazia
Espace Bienvenüe / Jean-Philippe Pargade. Image © Sergio Grazia

Stuart Gaffin tem pesquisado em Nova York sobre as possibilidades de instalar telhados jardins nos topos dos prédios. Segundo este artigo que assina com outros pesquisadores, estima-se que a área em potencial da superfície de telhados na cidade equivale a 20-30 vezes a área terrestre do Central Park. Segundo ele, como espaços protegidos e seguros, os telhados têm muitas vantagens como local para vegetação urbana. Atualmente, as membranas de telhado tradicionais têm apenas impactos ambientais adversos e também são espaços degradados e negligenciados. As pesquisas abrangeram incluir módulos com a espécie vegetak suculenta Sedum spurium, comparando os resultados com os telhados escuros padrão. Verificou-se que as temperaturas máximas nos telhados plantados com Sedum eram 30 graus Celsius (54 graus Fahrenheit) mais baixas do que as temperaturas em telhados padrão. Eles também descobriram que as plantas Sedum são de baixa manutenção e prosperavam sem qualquer rega suplementar, reduzindo muito a necessidade de cuidados e manutenção.

Jardim de Infância de Cultivo / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki Oki
Jardim de Infância de Cultivo / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki Oki

Outra questão crucial é que o telhado verde também ajuda a controlar o escoamento e a retenção de águas da chuva. Em cidades densamente construídas, a impermeabilização do solo é uma questão séria. Primeiramente, porque no caso de uma chuva forte, a velocidade de escoamento do sistema de drenagem urbana pode ser insuficiente, sobrecarregando-o e acarretando em inundações. E também, porque toda a poluição e sujeira presente nas ruas acaba indo diretamente para o sistema, podendo poluir rios e córregos. Os telhados jardins atuam amortecendo e filtrando boa parte destas impurezas. Dados coletados de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, do Centro de Pesquisa de Telhados Verdes, mostram que os telhados verdes capturaram até 80% da chuva durante as tempestades, em comparação com os 24% típicos dos telhados padrão. À medida que as plantas de telhado verde amadurecem e os sistemas de raízes crescem, a retenção de água da chuva pode até aumentar. O meio de cultivo e o material vegetal do telhado também atuam como um filtro e ajudam a neutralizar a chuva ácida e retêm a poeira e as partículas transportadas pelo ar.

Outros dois potenciais interessantes para os telhados verdes são a possibilidade de espaços para agricultura urbana e, principalmente, um novo habitat para plantas e animais benéficos em áreas urbanas, ajudando a aumentar a biodiversidade. Pássaros, abelhas e outros insetos, encontram mais espaços para viver, melhorando o equilíbrio ecológico em locais tão duros como as cidades. A observação das características é ponto chave para criar ambientes mais equilibrados e adaptados às condições locais. Como abordado neste artigo, em um telhado verde, é aconselhável fazer uso de estratégias naturais inspiradas na região para manter um telhado verde com vegetação, mesmo quando o clima é anormal. Desta forma, as espécies serão resilientes e não necessitarão de tantas regas, adubações ou podas. Entender o clima e a vegetação local, juntamente com as restrições do ambiente a implantar o jardim, é vital para o sucesso do mesmo. Embora a instalação envolva custos iniciais mais elevados do que um telhado tradicional, há muitos benefícios econômicos e urbanos que podem compensar isso. Se tomadas as devidas precauções, eles podem ser extremamente benéficos para a esfera privada e pública.

Nota
[1] De Babilônia a Brasília - Wolf Schneider. A cidade como destino do homem, de UR a Utopia. Encadernado, 16x23 cm, 339 páginas, ilustrado. Boa Leitura Editora, sem local e sem data.

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Sobre este autor
Cita: Eduardo Souza. "Telhados verdes podem tornar nossas cidades melhores?" 18 Set 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/967898/telhados-verdes-podem-tornar-nossas-cidades-melhores> ISSN 0719-8906

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