Repensando os ciclos de produção e uso dos materiais na arquitetura

Repensando os ciclos de produção e uso dos materiais na arquitetura

Já ouviu falar em agrowaste design ou “design com agroresíduos”? É assim a arquiteta filipina-ganesa Mae-Ling Lokko intitula o seu trabalho, uma pesquisa pioneira sobre o uso dos biomateriais na arquitetura. Junto com a crescente demanda por produção de alimentos e habitação no século XXI, há um fluxo de recursos materiais de crescimento igualmente rápido na forma de subprodutos de agrotóxicos. Isso tem o potencial não apenas de fechar as lacunas do ciclo de vida de produtos, mas também de impulsionar formas de cidadania generativa por meio do upcycling.

Ling procura repensar os ciclos e uso dos produtos na construção civil através da economia circular, ou seja, nada é desperdiçado, tudo pode ser reutilizado, mesmo depois de obsoleto.

A arquiteta também é professora e pesquisadora na Renssealer Polytechnic Institute em Troy no estado de Now York onde pesquisa sobre como transformar os agroresíduos (das cascas de côco aos caules de cânhamo) em sistemas de construção limpos de alto desempenho para controle de umidade, remediação da qualidade do ar interno e aplicações de controle de qualidade da água.

Além da pesquisa com agroresíduos, Mae-Ling também estuda sobre o uso do micélio, que é a parte vegetativa de um fungo ou colônia bacteriana, uma massa de ramificação formada por um conjunto de hifas emaranhadas, e é responsável por carregar nutrientes até onde o fungo necessita além de fazer processos de simbiose com algumas espécies.

Os micélios agem como a forma mais sofisticada de cola da natureza, transportando, quebrando e alimentando muitas partes de nosso ecossistema. E nos materiais que cultivo, partes dos resíduos agrícolas ou alimentares são alimentados para o micélio. Os micélios usam-no como alimento, consumindo celulose, água e outros nutrientes na mistura do substrato que permitem que cresça e se torne um tipo de material isolante. — Mae-Ling

Painel de micélio criado por Mae-Ling Lokko numa exposição na Sommerset House em Londres. Foto © Mark Blower
Painel de micélio criado por Mae-Ling Lokko numa exposição na Sommerset House em Londres. Foto © Mark Blower

Se pudermos falar sobre micélio e outros materiais orgânicos com o mesmo nível de aceitação e paciência que falamos de outros inorgânicos, como a cerâmica e o concreto, muitas ideias revolucionárias poderiam dar curso a transformações profundas no campo da arquitetura e construção. 

Segundo a arquiteta, ainda há um receio quando falamos de biomateriais e reciclagem como se esses processos e produtos fossem muito mais caros do que os modelos tradicionais já enraizados na sociedade. Na verdade, é apenas uma questão de contato e experimentação com esse novo mundo, segundo a arquiteta em entrevista para a This Is Mold:

A reação mais engajada que tive foi com um carpinteiro em Accra durante o festival de artes contemporâneas Chale Wote em 2016, que começou a esboçar formas de construir uma casa com os painéis de agro-resíduos de uma forma muito pragmática. Acho que meus motivos são apreciados da mesma forma em ambos os contextos, seja em Accra ou no interior do estado de Nova York, onde moro. Trabalhar com agroresíduos é percebido como uma forma de empoderamento econômico e de desenvolvimento da capacidade local de forma local. — Mae-Ling

Pavilhão Upcycling numa exposição em Gana. Foto © Elaine Zhang.
Pavilhão Upcycling numa exposição em Gana. Foto © Elaine Zhang.

O trabalho de Mae-Ling Lokko é mais do que urgente. A economia linear concebe o desperdício como um fim. Ele presume que o lixo descartado, liberado ou enterrado encerra os processos de consumo. A compreensão dominante do capital no mundo depende dessa visão, uma ideia que começa com a extração de recursos e, eventualmente, leva ao descarte.

Mesmo com a reciclagem eficaz, é difícil para as pessoas conceberem o processo de consumo como algo diferente de linear, porque o material usado ainda vai "embora". E praticamente tudo que usamos parece começar do novo. Mesmo coisas feitas de material reconstituído, como papel reciclado ou parcialmente reciclado, plástico e metal, são essencialmente indistinguíveis dos mesmos itens feitos de novos materiais.

À medida que uma economia circular se desenvolve, seu objetivo de não descartar nenhum material leva o desafio dos resíduos para o sistema como um todo. O desperdício se torna tanto um começo quanto um fim. Em seu livro Building from Waste: Recovered Materials in Architecture and Construction, Dirk E. Hebel, Marta H. Wisniewska e Felix Heisel questionam “se a consideração do estado de resíduo de um produto não deve se tornar o ponto de partida de seu projeto propriamente dito.” Nessa visão, o desperdício passa a ser um conceito essencial em design, uma vez que o estado de esgotamento do valor do material informa o processo desde o início.

Workshop de Lokko para fabricação de materiais com resíduos de coco em Liverpool. Cortesia de Liverpool Biennial
Workshop de Lokko para fabricação de materiais com resíduos de coco em Liverpool. Cortesia de Liverpool Biennial

Como alternativa, os designers podem concentrar sua atenção na utilização de materiais que já foram usados. Por enquanto, no entanto, projetar com materiais de construção reutilizados pode ser desafiador porque eles não estão amplamente disponíveis. 

Como Alejandro Bahamón e Maria Camila Sanjinés apontam em Rematerial: From Waste to Architecture, “o processo de design de um edifício que incorpora materiais e produtos reciclados difere significativamente da forma convencional de conceber a arquitetura. A equipe de design deve primeiro identificar as fontes de materiais adequados para reutilização e, em seguida, começar a definir os detalhes.”

Painel de micélio criado. Foto © Mae-Ling Lokko
Painel de micélio criado. Foto © Mae-Ling Lokko

Embora essa mudança no processo de design possa impulsionar a criatividade, o mercado limitado de material reutilizado pode restringir a inovação. À medida que um sistema de consumo circular se desenvolve, os designers devem continuar a questionar os processos convencionais de projeto, mas também devem mudar a maneira como pensam sobre o desperdício.

E o trabalho de Mae-Ling é a ponta do iceberg num mundo que grita urgentemente por novos processos e sistemas de criação arquitetônicos e de construção que levem em consideração e respeito os ciclos da natureza.

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Sobre este autor
Cita: Marília Matoso. "Repensando os ciclos de produção e uso dos materiais na arquitetura" 31 Ago 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/966471/repensando-os-ciclos-de-producao-e-uso-dos-materiais-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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