Ferramentas para implementar a economia circular na arquitetura e construção

Ferramentas para implementar a economia circular na arquitetura e construção

A Economia Circular tem sido uma prática também aplicada no setor de arquitetura e construção. No entanto, ainda existem barreiras, sejam elas técnicas ou mesmo culturais, durante o processo de projeto das edificações. Para solucionar esse problema, algumas ferramentas podem ser utilizadas para facilitar o processo e possibilitar uma avaliação mais rápida e mais assertiva e analisar como diferentes estratégias de projeto podem trazer em ganhos ambientais, econômicos e sociais.

Este artigo visa dar continuidade ao artigo “Guia rápido de economia circular para arquitetos, engenheiros e construtores” com o objetivo de apresentar de forma mais aprofundada algumas dessas ferramentas.

Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) 

Você sabe quantas toneladas de CO2 foram emitidos para construir a casa onde mora? Ou quantos litros de água ou megajoules de energia foram consumidos? A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), do inglês Life Cycle Assessment (LCA), é uma metodologia internacionalmente aceita que é capaz de realizar essa quantificação e avaliação. Ela é definida e descrita nas normas internacionais ISO 14040 (2006) e 14044 (2006), que já foram traduzidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Recentemente foram publicadas normas europeias de ACV específicas para o setor da construção civil, a EN 15978 (2011) e EN 15804 (2013). Através da ACV é possível avaliar os potenciais impactos ambientais no ciclo de vida (extração das matérias primas, transporte, fabricação, uso e fim de vida) de um saco de cimento, um tijolo ou até mesmo toda uma edificação, entre outras produtos de construção. 

Alguns exemplos da aplicação da ACV podem ser vistos nas Declarações Ambientais de Produto (DAPs), que contêm informações ambientais de materiais de construção produzidos e comercializados no Brasil, como cimento Portland, concreto, argamassas, isolantes térmicos. Em termos de projetos de edificações, o instituto canadense Athena Sustainable tem um banco de dados com Declarações Ambientais de Edificações. Todas essas declarações ambientais podem ser acessadas gratuitamente.

Dessa forma a ACV também pode ser empregada para quantificar os benefícios ambientais quando uma estratégia de economia circular é utilizada. Por exemplo, com a ACV é possível quantificar as emissões de CO2 que são evitadas quando o elemento estrutural é reaproveitado em uma edificação existente. A quantidade de resíduos que é evitada de ser gerada quando um processo mais eficiente é utilizado ou a quantidade de resíduos que não são enviados a um aterro sanitário devido a seu reaproveitamento. Essa quantificação estimula que estratégias de economia circular sejam adotadas em projetos de arquitetura e construção. Mas para isso, é interessante que a ACV seja utilizada ainda nas etapas iniciais do projeto para possibilitar a escolha das estratégias mais interessantes do ponto de vista ambiental, econômico e social. 

Ciclo de vida de uma edificação. Imagem © ArchDaily
Ciclo de vida de uma edificação. Imagem © ArchDaily

No mercado já existem diferentes softwares de ACV, sendo alguns pagos como o SimaPro e o GaBi e livres como OpenLCA. Eles facilitam consideravelmente o processo de modelagem ambiental dos produtos a serem avaliados.

Passaporte de Materiais 

O passaporte de materiais funciona de forma similar a um passaporte comum e pode ser utilizado como uma ferramenta para facilitar projetos orientados com base na economia circular. Ele contém informações sobre a quantidade de materiais e elementos construtivos presentes em uma edificação e qual deles tem potencial de ser reutilizado, reciclado ou deve ser encaminhado a outro tipo de destinação final. 

Resíduos devem ser enxergados como materiais sem identidade. Nessa ótica a partir do momento que tenho esse catálogo de resíduos (ou materiais) cadastrados é possível fazer um melhor gerenciamento, saber o que pode ser reaproveitado e o que deve ser descartado durante as etapas de manutenção ou fim de vida da edificação. O projeto europeu Buildings as Material Banks(BAMB) é uma das principais referências que trata do tema economia circular aplicado ao setor da construção civil e possui diferentes publicações e exemplos sobre diversos assuntos relacionados, inclusive passaporte de materiais.

O emprego do BIM tende a facilitar a elaboração do passaporte de materiais, já que é possível agilizar e melhorar a quantificação e identificação dos materiais e elementos construtivos utilizados na edificação.

Building Information Modeling (BIM) 

O BIM pode ser empregado para diversas aplicações. Na fase de projeto possibilita a extração automática de quantitativos, detecção automática de falhas, avaliação de diferentes estratégias de projeto utilizando simulações computacionais termoenergéticas para projetos de maior eficiência energética e de menor emissões de CO2 como o DesignBuilder ou o plug-in Green Building Studio do Autodesk Revit.

Durante a etapa de execução da edificação o BIM pode ser empregado para o melhor gerenciamento de materiais, custos, tempo como também na visualização da evolução dos layouts do canteiro de obras. Esse maior controle possibilita menor consumo de materiais e diminuição dos desperdícios e resíduos gerados ao longo do processo.

Para a etapa de fim de vida da edificação, já existem pesquisas que desenvolveram plug-ins para a estimativa de resíduos gerados na demolição ou desconstrução da edificação, ou outros que auxiliam na identificação e quantificação dos resíduos capazes de serem reutilizados e reciclados. 

Saída de resultados de simulação termonergética no software DesignBuilder. Imagem: Lívia Mançãno
Saída de resultados de simulação termonergética no software DesignBuilder. Imagem: Lívia Mançãno

A integração entre BIM, ACV e passaporte de materiais tende a ser uma realidade. O Autodesk Revit já possui um plug-in específico, o Tally que realiza avaliações automáticas de projetos de edificações com base na ACV. No entanto, é mais voltado para a realidade dos Estados Unidos.

O governo brasileiro decretou recentemente (Decreto 10.306/2020), em que torna o uso do BIM obrigatório para as obras e serviços de engenharia realizada pelos órgãos federais. Dessa forma, acredita-se que seu emprego nos projetos de edificações seja cada vez mais difundido.

Realidade Aumentada (RA)

A Realidade Aumentada (RA) pode ser definida como uma tecnologia de integração entre informações virtuais e visualizações do mundo real. É realizada com o uso de uma câmera e sensores de movimento. É uma ferramenta bastante utilizada para jogos interativos, sendo um dos principais exemplos o jogo Pokémon GO.

Aplicativo Pair de realidade aumentada. Imagem © Pair
Aplicativo Pair de realidade aumentada. Imagem © Pair

A RA já está sendo utilizada em muitas empresas de produtos de construção civil, por exemplo marcas de tinta, revestimentos e lojas de mobiliários, que possibilitam que o projetista ou cliente teste virtualmente como o ambiente ficará com a inclusão do produto. Dessa forma, não haverá consumo ou desperdício de material caso, haja algum problema estético ou similar, ao final da execução. Alguns aplicativos, como o Augment, o Fologram e o Gamma Ar utilizam a RA para facilitar o processo de projeto e construção. A tendência é que a RA esteja cada vez mais integrada com o BIM. 

Realidade Virtual (RV)

A Realidade Virtual (RV) permite que o indivíduo, seja ele projetista, construtor, operário da construção, usuário da edificação, etc., com o auxílio de um equipamento, que pode ser o próprio celular, acoplado a equipamentos específicos entre em um universo virtual. Esse universo pode ser um projeto de uma edificação, um apartamento ou um ambiente específico. Um exemplo bastante interessante foi a experiência ofertada pelo SESC, chamada de “A Biblioteca à Noite” em que era possível visitar diferentes bibliotecas do mundo utilizando a RV. O guia virtual explicava diferentes aspectos da arquitetura e história de cada biblioteca.

Experimentação da realidade virtual. Foto: Lucrezia Carnelos via Unsplash
Experimentação da realidade virtual. Foto: Lucrezia Carnelos via Unsplash

Do ponto de vista da economia circular, quando a RV é empregada não é necessário realizar a construção física do produto, o que tem grande economia de materiais e evita a geração de resíduos. Outra vantagem do seu emprego é a detecção antecipada de problemas de compatibilização (por exemplo, tubulações que passam no meio da estrutura), que é um dos grandes problemas da construção civil brasileira e gera grande quantidade de desperdício nas obras. Esse benefício também pode ser utilizado em conjunto com ferramentas BIM. 

Considerações finais  

Algumas das ferramentas apresentadas, como a ACV e Passaporte de Materiais, ainda são pouco utilizadas no setor de construção civil do Brasil, mesmo o BIM ainda se encontra longe de ser amplamente entendido e utilizado. Por outro lado, é de se esperar que ferramentas como a Realidade Aumentada e Virtual ganhem cada vez mais espaço no mercado, principalmente para fabricantes e fornecedores de materiais, projetistas e construtores. Percebe-se que o BIM pode ser integrado a todas as ferramentas apresentadas, com grande potencial de facilitar a aplicação e difusão nos projetos e tende a ser cada vez mais requisitado no setor de arquitetura e construção.

Referências Bibliográficas

ISO 14040: Environmental Management: life cycle assessment: principles and framework. Geneva, 2006.
ISO 14044: Environmental management: Life cycle assessment — Requirements and guidelines. Geneva, 2006.
EN 15978:2011 - Sustainability of construction works — Assessment of environmental performance of buildings - Calculation method, 2011.
EN 15804:2012:2013 - Sustainability of construction works — Environmental product declarations - Core rules for the product category of construction products, 2013.

Lucas Rosse Caldas é engenheiro civil, ambiental e sanitarista. Pesquisador do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Materiais e Tecnologias de Baixo Impacto Ambiental na Construção Sustentável (NUMATS/COPPE/UFRJ). Professor na Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente da COPPE/UFRJ e ministra cursos sobre construções e cidades sustentáveis no Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ).

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Sobre este autor
Cita: Lucas Rosse Caldas. "Ferramentas para implementar a economia circular na arquitetura e construção" 10 Mai 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/939020/ferramentas-para-implementar-a-economia-circular-na-arquitetura-e-construcao> ISSN 0719-8906

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