Urbanismo social: repensando o desenho espacial e os discursos da América Latina

Urbanismo social: repensando o desenho espacial e os discursos da América Latina

Social Urbanism: Reframing Spatial Design – Discourses from Latin America, novo livro de Maria Bellalta, ASLA, reitora da Escola de Arquitetura da Paisagem da Boston Architectural College, é uma adição bem-vinda ao crescente número de publicações sobre questões de justiça social na forma de urbanismo, arquitetura e espaço público que emanam de Medellín e da Colômbia. As conquistas do urbanismo social tornaram-se um sinônimo de Medellín no mundo do paisagismo, do planejamento e projeto urbano, e da arquitetura de forma geral.

Então o que é urbanismo social? Trata-se de um processo de planejamento, projeto e implementação de cima para baixo e de baixo para cima, para melhorar a qualidade de vida das comunidades de baixa renda e desfavorecidas? Apropriadamente, não há uma definição única no livro. Há várias abordagens, desde comparações com a estratégia de acupuntura urbana de Jaime Lerner, abordagens comunitárias integradas (engajamento e participação), até projetos e práticas no México e no Brasil.

Embora esta falta de definição possa deixar alguns leitores insatisfeitos, o livro fornece uma cronologia dos muitos esforços urbanísticos e sociais, além de atores institucionais de Medellín, que são representados por uma coleção de siglas: PRIMED, POT, EDU, EDU, PUI, EPM, UVA, AEI, etc. Tudo isso aponta para o valor de soluções complexas que incluem as múltiplas partes interessadas e seus interesses.

Mas os resultados não estão isentos de falhas. Na contribuição crítica de Gloria Aponte, ela destaca a falta de considerações ecológicas na prática do urbanismo social em Medellín. Esta omissão é descrita com mais detalhes no artigo de Juan Camilo Jaramillo sobre o ambiente danificado da cidade: os impactos negativos acumulados sobre o ar, a água, a terra e a biodiversidade.

Social Urbanism é um livro predominantemente gráfico. Contém mapas atraentes e abrangentes baseados em dados sociais, econômicos, urbanos e ambientais para a América Latina, Colômbia e Medellín. Como tal, é um livro alinhado com a obra do arquiteto e professor Felipe Correa, que inclui seus livros sobre São Paulo, Brasil; Cidade do México, México; e Quito, Equador.

La Aurora Trece de Noviembre e Barrio Independencia: assentamentos informal na periferia urbana de Medellín. Imagem © Projetos Urbanos Integrados, uma co-produção com Daniela Coray e Maria Bellalta
La Aurora Trece de Noviembre e Barrio Independencia: assentamentos informal na periferia urbana de Medellín. Imagem © Projetos Urbanos Integrados, uma co-produção com Daniela Coray e Maria Bellalta

Social Urbanism também contém o DNA de vários livros potenciais que eu espero que surjam em breve. O Capítulo Um, sobre a geografia da América Latina é sucinto, mas como capítulo pode ser excessivamente ambicioso. Os mapas que representam a extração de recursos do continente também são uma boa companhia para o livro Beyond the City: Resource Extraction Urbanism in South America de Felipe Correa. No Capítulo Dois, o livro muda seu foco para a história urbana de Medellín. O urbanismo social, o coração do livro, constitui o Capítulo Três.

O Capítulo Quatro é uma coleção de projetos de estudo desenvolvidos através das numerosas visitas e estudos de projeto que Bellalta organizou em Medellín com estudantes do Boston Architectural College e seus alunos e colaboradores na prestigiosa Universidad Pontificia Bolivariana (UPB), uma instituição privada, católica e um poderoso protagonista institucional na transformação de Medellín. Este capítulo revela a amplitude e a profundidade das oportunidades de exploração através de estudantes de planejamento e projeto. Os projetos falam da promessa não cumprida de progresso na América Latina e do potencial do urbanismo social na região. O Capítulo Cinco, "Vozes Convidadas", inclui breves artigos de alguns dos principais atores contemporâneos que estão remodelando Medellín, incluindo Jorge Pérez Jaramillo e Alejandro Echeverri Restrepo, ex-diretor da Companhia de Desenvolvimento Urbano.

Social Urbanism abre com um prefácio de Echeverri, que destaca a qualidade da apresentação gráficas dos dados. De fato, alguns dos gráficos são espetaculares e sua apresentação é apoiada pelo formato generoso do livro. Mas alguns gráficos não são imediatamente digeríveis. Leve tempo para processá-los, especialmente as informações estatísticas (o livro é bilíngue, com inglês e espanhol em paralelo, apenas no índice, agradecimentos, prefácio e seções de introdução; uma limitação que espero que seja resolvida em breve através de uma importante e potencialmente impactante tradução completa para o espanhol).

Bellalta vê "a paisagem como um espaço cultural, influenciado pela geografia". Sua introdução se concentra na exploração dos recursos naturais e da população da América Latina pela Europa e pelos Estados Unidos. A América Latina criou riquezas que os latino-americanos não desfrutavam, porque eram escravizados ou trabalhavam como mão-de-obra dura e mal remunerada. A corrupção e a ganância local e estrangeira, alimentada pela extração de recursos, explicam o subdesenvolvimento contínuo da América Latina. Na região de Medellín, cocaína, ouro, flores e café foram o foco da extração. O livro é escrito como uma crítica a esta injustiça social e ambiental, ilustrando como a Europa e os Estados Unidos foram indiferentes às consequências de suas ações. Este é um dos pontos fortes do livro.

Há alguns anos, em Medellín, entrevistei o arquiteto e urbanista Jorge Pérez Jaramillo, ex-reitor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Pontifícia Bolivariana, ex-diretor de planejamento de Medellín, e autor de outro livro recente e significativo sobre Medellín, que está resumido em um artigo na seção "Vozes Convidadas" do livro.

Perez Jaramillo descreveu sua cidade como uma comunidade que atingiu o fundo do poço no início dos anos 90. Após décadas de violência e crime produzidos por poderosos cartéis de drogas e os efeitos cumulativos de décadas de guerra civil e atividade guerrilheira, não havia para onde ir a não ser para cima ou afogar-se no fundo. Este surgimento foi um terreno fértil para uma transformação urbana de orientação social.

Se você está interessado em Medellín porque conhece os belos edifícios públicos, parques e infra-estrutura construídos na cidade nas últimas duas décadas, e quer saber mais sobre estas estruturas, então este não é o seu livro. Todos os exemplos importantes - Biblioteca España, as escadas rolantes na Comuna 13, etc. - estão incluídos, mas apenas como parte de generosos ensaios fotográficos tecidos ao longo dos capítulos. O fato de o livro desviar o foco do projeto é refrescante. O Urbanismo Social, ao invés disso, aponta para os processos sociais e políticos que permitiram a existência desses projetos.

Comuna 13, Medellín. Imagem © Ingrid Truemper [Flickr], CC BY-NC 2.0
Comuna 13, Medellín. Imagem © Ingrid Truemper [Flickr], CC BY-NC 2.0

O livro procura responder: Que tipo de processos administrativos, profissionais, acadêmicos, sociais e culturais geraram a alta qualidade dos projetos tão amplamente reconhecida por muitas publicações e prêmios? Como outras cidades podem transformar a infra-estrutura inerte e obstrutiva, como os tanques de água municipais, que em Medellín se transformaram em infra-estrutura sócio-pública na forma de Unidades de Vida Articulada (UVAs)?

Este não é um livro de como fazer, porque a história de Medellín demonstra que uma tamanha qualidade de projeto só poderia ter acontecido como aconteceu ali. Pode ser devido às condições sociais, culturais, econômicas e ambientais únicas; à história, identidade e território "paisa"; à resiliência da comunidade da cidade; e a numerosos líderes, políticos e acadêmicos de destaque em planejamento e projeto urbano.

Croqui de estudo, Medellin. Imagem © Maria Bellalta
Croqui de estudo, Medellin. Imagem © Maria Bellalta

O urbanismo social melhorou a qualidade de vida de muitos que foram sistematicamente ignorados. Mas a desigualdade também aumentou em Medellín e diversos projetos e planos continuam parados, adiados ou não implementados.

As ideias importantes, antigas mas também novas, do urbanismo social nos lembram que devemos estar sempre em ação. Saúde pública, segurança e bem-estar, pelos quais os arquitetos paisagistas e outros são responsáveis, devem ser mantidos. Como propõe Bellalta, o urbanismo social deve passar de modelo a movimento global.

Esta entrevista foi originalmente publicada em The Dirt.

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Sobre este autor
Cita: Díaz Montemayor, Gabriel. "Urbanismo social: repensando o desenho espacial e os discursos da América Latina" [Social Urbanism: From the Medellín Model to a New Global Movement] 08 Mar 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Daudén, Julia) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/957824/urbanismo-social-repensando-o-desenho-espacial-e-os-discursos-da-america-latina> ISSN 0719-8906

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