Como os erros do passado nos ajudarão a moldar as cidades do futuro?

Como os erros do passado nos ajudarão a moldar as cidades do futuro?

Como seriam nossas cidades se deixássemos de experimentar e explorar novas soluções sempre em busca de uma melhor qualidade de vida para seus habitantes? Por mais que estejamos sempre trabalhando e desenvolvendo projetos e estratégias urbanas que nos permitam qualificar nossos espaços e, desta forma, construir cidades mais humanas, nem todas as iniciativas no campo da arquitetura e do urbanismo foram assim tão bem-sucedidas, as quais foram deixadas de lado para desaparecer na profundidade da nossa memória. Enquanto procuramos melhor compreender como será o futuro das nossas cidades, talvez seja importante analisar as lições que aprendemos com o tempo, para que os nossos erros históricos não voltem a se repetir mais adiante.

Com base em um estudo publicado pela ONU, 55% da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, e esse número—segundo o mesmo estudo—deve aumentar para 68% nas próximas três décadas. Isso significa dizer que em 2050 mais de 2,5 bilhões de pessoas estarão vivendo em cidades, uma demanda inédita que transformará para sempre a superfície do nosso planeta. Precisaremos de mais moradias assim como mais postos de emprego além de infraestruturas mais eficientes e melhor distribuídas. Este desafio que se coloca à nossa frente não é o primeiro que a humanidade deverá enfrentar, longe disso. Para nos prepararmos para mais esta adversidade, devemos primeiro observar com atenção o processo de desenvolvimento pelo qual nossas cidades passaram ao longo da história, avaliando em que ponto deveríamos ter atuado de forma diferente.

© Wikimedia user Cadastral (public domain)
© Wikimedia user Cadastral (public domain)

O Projeto Habitacional Pruitt-Igoe, desenvolvido pelo arquiteto japonês Minoru Yamasaki, é, ou melhor, foi um dos conjuntos habitacionais mais famosos dos Estados Unidos e quiçá do mundo todo. Implantado em pleno coração de St. Louis, Missouri, o projeto foi muito rapidamente reconhecido e elogiado por suas boas intenções, uma estrutura criada para oferecer habitação acessível e assim, suprir a enorme demanda por moradia naquele momento. A construção das mais de 5.800 unidades do complexo Pruitt-Igoe se deu ainda com as leis de segregação racial em vigor no país, as quais foram banidas pela suprema corte logo após a conclusão das obras. O que antes havia sido planejado para ser um território segregado, naturalmente foi sendo integrado ao tecido urbano com o enorme potencial de se transformar em um símbolos de uma nova era. No entanto, as coisas não saíram tão bem na prática quando no papel. Poucos anos depois, em 1970, com apenas 35% das unidades ocupadas, o monumental complexo habitacional projetado por Yamasaki encontrava-se em completo estado de abandono, um território aberto à violência e à ilegalidade. Acontece que os aluguéis sociais cobrados deveriam ser utilizados para cobrir os custos de manutenção de Pruitt-Igoe, e com uma taxa de ocupação tão baixa, a degradação se tornou inevitável. No final das contas, menos de 20 anos depois que as primeiras unidades haviam sido inauguradas, o complexo todo foi implodido, marcando aquilo que ficou conhecido como o maior fracasso social e urbanístico da era moderna.

Cortesia de City of Darkness Revisited
Cortesia de City of Darkness Revisited

Dando um salto no tempo e no espaço, há outro importante exemplo que não devemos deixar de mencionar quando falamos do fiasco de iniciativas sociais e urbanísticas ao longo das últimas décadas. Ocupando uma área de menos de dois centésimos de um quilômetro quadrado a cidade murada de Kowloon foi conhecida como uma das áreas mais densas do planeta, abrigando uma população de até 33 mil habitantes. Este enclave urbano operava como um organismo vivo, uma estrutura que respirava e evoluía à sua maneira, cercada e isolada de seu contexto imediato. Como uma favela ilhada em meio a um amplo território em processo de desenvolvimento urbano, Kowloon era uma cidade informal onde impostos e leis não eram nada mais do que vocábulos desconhecidos pelos seus moradores. Kowloon se transformou em uma terra de ninguém, um dos maiores epicentros do crime organizado, tráfico de drogas e consequentemente, violência. Apesar da precariedade das condições de vida em Kowloon, a cidade murada continuava a atrair mais e mais moradores, os quais se empilhavam em estruturas auto-construídas, transformando Kowloon em uma espécie de Torre de Babel da modernidade. Vista à distância, a cidade murada não se distinguia muito dos aranha-céus que dominam a paisagem urbana de Hong Kong, os quais são apenas mais altos e levemente mais espaçados. De forma muito semelhante a Pruitt-Igoe, Kowloon foi implodida e transformada em um parque urbano e memorial.

Cortesia de City of Darkness Revisited
Cortesia de City of Darkness Revisited

O que é que podemos aprender ao observar os estrépitos exemplos de Pruitt-Igoe e Kowloon? Enquanto aquele havia sido minuciosamente pensado e planejado este cresceu quase que de forma natural e orgânica, mas ainda assim, ambas “cidades” podem ser consideradas como dois dos maiores fracassos da historia moderna da humanidade. A primeira, entrou em decadência por uma série de fatores políticos, culturais e econômicos, transformando-se em um ambiente insalubre e, por consequência, desigual e violento. No segundo caso, na cidade de Kowloon, sua ruína se deve principalmente à falta de regulamentações, leis e obviamente, descaso político. Embora o projeto de Pruitt-Igoe tenha sido financiado pelo governo, seu destino não foi muito diferente, e muito disso se deve ao fato de que eles ignoraram as transformações sociais que estavam acontecendo no país naquele exato momento. Se o contexto tivesse sido um pouco diferente, com um investimento a longo prazo e políticas de inclusão e desenvolvimento social, talvez o maior ícone do falimento moderno tivesse tido outra sorte.

Po outro lado, muitas das nossas cidades do futuro parecem bem encaminhadas—como é o exemplo da Cidade de Masdar na Arábia Saudita, Songdo na Coréia do Sul e tantas outras propostas de cidades e edifícios flutuantes. As cidades do futuro, que antes pareciam saídas de um filme de ficção científica, estão cada dia mais próximas da nossa realidade. Entretanto, antes de ficarmos imaginando como será o futuro de nossas cidades, é fundamental olharmos para trás e entender tudo aquilo que deu errado para então, tomarmos decisões mais acertadas no futuro.

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Sobre este autor
Cita: Overstreet, Kaley. "Como os erros do passado nos ajudarão a moldar as cidades do futuro?" [How Will Past Urban Experiments Shape the Cities of the Future?] 30 Dez 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/953948/como-os-erros-do-passado-nos-ajudarao-a-moldar-as-cidades-do-futuro> ISSN 0719-8906

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