O que podemos (e não podemos) aprender com Copenhague

O que podemos (e não podemos) aprender com Copenhague

Este artigo foi publicado originalmente em Common Edge

Quando tive a oportunidade de visitar a cidade de Copenhague por primeira vez, alguns anos atrás, saí de lá deslumbrado e com um caso crônico de inveja urbana. (Eu pensei comigo mesmo: é como a melhor das cidades que eu sou capaz de imaginar, só que melhor). Por que não fazemos cidades como esta nos Estados Unidos? Esse é o tipo de pergunta que um arquiteto e urbanista norteamericano se faz enquanto passeia pelas encantadoras ruas às margens dos belos canais de Copenhague—ao mesmo tempo que tenta evitar de ser atropelados pela horda de ciclistas dinamarqueses que passa a toda velocidade ao seu lado o tempo todo.

Quando você visita Copenhague por primeira vez, parece ser impossível não experimentar uma arrebatadora sensação de civilidade. Logo você percebe porque dizem que esta é a cidade “mais habitável” do planeta. (Embora um conhecido meu tenha me alertado de antemão: “provavelmente você não diria isso se tivesse que passar o inverno todo trancafiado dentro de um apartamento.”) Mas a civilidade inata e despojada da encantadora capital dinamarquesa, não é fruto do acaso. É o produto de uma convicção compartilhada que transcende a própria arquitetura—ainda que Copenhague seja um dos mais interessantes e vibrantes laboratórios de pesquisa e experimentação em arquitetura contemporânea.

Junto com alguns colegas, havíamos sido convidados pelo Instituto Gehl a visitar a capital dinamarquesa em 2017. Fundado por Jan Gehl, um dos mais reconhecidos arquitetos dinamarqueses de todos os tempos, o instituto que leva seu nome nos propunha uma atividade aparentemente bastante simples, e prazenteira: observar, refletir e discutir sobre como a história de sucesso de Copenhague poderia ser melhor traduzida e adaptada à realidade urbana de nosso país.

De fato, nossos anfitriões tinham muito de que se orgulhar. Copenhague é mundialmente reconhecida por justa causa. Metade de seus moradores costuma ir ao trabalho de bicicleta todos os dias, independentemente de que faça sol, chuva ou neve—muita neve. A cultura da bicicleta é uma unanimidade na capital de um país onde a geografia é um caloroso convite a um passeio sobre duas rodas. Esta é uma realidade muito distante de todos nós, americanos. Mesmo que tenhamos avançado muito neste quesito, atualmente menos de 1 por cento de todos os trabalhadores empregados nos Estados Unidos utiliza a bicicleta como meio de transporte diário.

The cyclists commute to work in Copenhagen, snow or shine. Image © Kaitlin Johnson
The cyclists commute to work in Copenhagen, snow or shine. Image © Kaitlin Johnson

Quando você visita Copenhague percebe que há ciclovias por todos os lados, sendo que a maioria delas é muito mais do que apenas uma faixa vermelha pintada sobre o asfalto: elas encontram-se fisicamente separadas e protegidas do trânsito de veículos automotores—e dos pedestres também. Até mesmo as ciclovias mais simples e banais parecem ser mais seguras do que realmente são, é como se as bicicletas e os carros tivessem chegado a uma espécie de acordo de respeito mútuo—algo que faz transbordar em todos nós esta sensação de civilidade de que falamos a pouco. Observar o fluxo contínuo de ciclistas e veículos que transitam pelas ruas de Copenhague, é como assistir a uma peça exaustivamente ensaiada e em perfeita sincronia. E de fato é assim mesmo: as crianças aprendem a andar de bicicleta na escola, e o curso não dura apenas um ano.

Percebendo nosso estado de perplexidade, nossos anfitriões do Instituto Gehl foram rápidos em apontar que as ciclovias, por melhores que sejam, não fazem nenhum milagre por si só. O objetivo do governo dinamarquês não é incentivar o apenas uso de bicicletas e sim várias modalidades de transporte e um sistema integrado de mobilidade urbana. Quanto mais possibilidades estiverem à disposição de seus moradores, mais habitável será uma cidade. A equação é bastante simples: mais bicicletas nas ruas significa ter menos carros se deslocando pelo espaço urbano, menos ruído e consequentemente, menos poluição. (De acordo com dados divulgados pelo Instituto Gehl, acredita-se que Copenhague se torne neutra em emissões de carbono até 2025.)

A mobilidade não é a única frente onde o governo dinamarquês não poupa investimentos públicos em infra-estrutura e que fazem de Copenhague uma das melhores cidades para se viver atualmente. Tudo o que a cidade tem de melhor—parques e espaços públicos acessíveis, calçadões, ciclovias, mobiliário urbano, reutilização adaptativa de edifícios existentes, até o plantio de árvores em vagas de estacionamento—tem a ver com esta busca incansável por civilidade. E isso significa conscientizar a população a respeito das coisas que verdadeiramente importam quando se trata de promover a saúde física e mental assim como a qualidade de vida de seus habitantes. Nisso, Copenhague está anos luz na frente de toda e qualquer cidade americana: em sua capacidade de gerar empatia e engajamento social.

Quanto mais o tempo passa, mais radicais se fazem as mudanças necessárias para transformar nossas cidades. Para podermos lidar com os agravamentos dos problemas que se desenham para o nosso futuro próximo, precisamos de uma abordagem sistêmica e o modelo de Copenhague surge quase que como unanimidade entre a comunidade de arquitetos e urbanistas. Não há uma única solução ou abordagem possível, e sim uma rede de iniciativas integradas e capazes de promover o engajamento da sociedade como um todo. E para que possamos alcançar esse nível de anuência, de consenso, em última análise, não é um problema de projeto, mas um desafio político e cultural.

Lille Langebro Cycle and Pedestrian Bridge, a project designed by WilkinsonEyre in Copenhaguen, Denmark. Image © Rasmus Hjortshøj
Lille Langebro Cycle and Pedestrian Bridge, a project designed by WilkinsonEyre in Copenhaguen, Denmark. Image © Rasmus Hjortshøj

E é neste ponto que o sonho de “Aprendendo com Copenhague” se torna mais complicado, pelo menos aos olhos de um americano. Podemos até ter começado bem, como apontam algumas iniciativas levadas a cabo pelo governo das cidades de Nova Iorque e Pittsburgh. Não é que seja algo impossível de se fazer, porque no final de contas, nós sabemos muito bem de onde vem a inspiração dinamarquesa: Jane Jacobs se referia obviamente às cidades americanas quando escreveu seu livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, uma das principais inspirações de Jan Gehl e companhia.

Assim como a maioria das cidades americanas, Copenhague também não é perfeita, e são seus moradores a dizê-lo e não eu. O município está tendo que lidar com sérios problemas de gentrificação e o deslocamentos forçados por causa de investimentos mal calculados e não equitativamente distribuídos; há muita confusão a respeito das políticas externas e como ela está lidando com o crescente número de imigrantes; pouco a pouco, Copenhague dá indícios de estar se tornando economicamente menos diversificada.

Nem todas as lições urbanas de Copenhague, por mais inspiradoras que sejam, podem ser adaptadas à realidade das cidades estadunidenses. É difícil, senão impossível, comparar uma cidade de apenas 600 mil habitantes com Nova Iorque, Chicago ou Los Angeles. Mas, ainda assim, há uma lição que com certeza não podemos abrir mão de aprender quando visitamos Copenhague: o entendimento de que a cidade é um bem coletivo, e como tal, todos devem ter direito e acesso a tudo aquilo que ela representa. E daí que vem a sensação de civilidade que esta cidade emana, algo que está na raíz do trabalho de arquitetos como Jan Gehl. Para além da cultura da bicicleta, este é o verdadeiro segredo do sucesso de Copenhague.

Sobre este autor
Cita: Pedersen, Martin . "O que podemos (e não podemos) aprender com Copenhague" [What We Can (and Can’t) Learn from Copenhagen] 01 Dez 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/952310/o-que-podemos-e-nao-podemos-aprender-com-copenhague> ISSN 0719-8906

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