A tecnologia impactando no design e fabricação de mobiliários

A tecnologia impactando no design e fabricação de mobiliários

Dissociar a arquitetura dos mobiliários é algo quase impossível. Como Le Corbusier estacionava carros contemporâneos à obra para fotografar seus projetos, os mobiliários evidenciam a época e o estilo de vida do usuário que habita o espaço. De fato, a partir do momento que a humanidade deixa de ser nômade, há registros de mobiliários rudimentares. Em um sítio escavado, que data entre 3.100 e 2.500 aC, descobriu-se uma variedade de móveis de pedra, de armários e camas a prateleiras e assentos de pedra. Com o tempo, os móveis foram ganhando protagonismo. Além das funções desempenhadas, mobiliários também sempre foram utilizados para exprimir ideias. Sejam os móveis exclusivos e luxuosos do Egito Antigo, para exercer o poder e a riqueza do império, até o design funcional e simplificado da Bauhaus, em um momento de reconstrução e racionalidade no mundo, estudar a evolução do design de móveis é importante para se entender os estilos de arquitetura.

Atualmente, o avanço da tecnologia e a internet faz com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas, até difíceis de assimilar e acompanhar. Os mobiliários acompanham essa tendência, seja na maneira de desenhá-los, fabricá-los ou mesmo vendê-los. Abaixo, selecionamos algumas formas que a tecnologia vem impactando neste campo: 

Impressão 3D

Print Your City. Image © Stefanos-Tsakiris
Print Your City. Image © Stefanos-Tsakiris

A impressão 3D já é muito mais difundida do que imaginamos. Máquinas com preços cada vez mais acessíveis, geralmente funcionam depositando e colando, camada a camada, grãos minúsculos de algum material, como plástico, cerâmica, vidro, metal e até concreto. Trata-se da chamada fabricação aditiva, que a partir de geometrias tridimensionais produzidas no computador (um desenho CAD ou uma digitalização tridimensional), transpõe um objeto à realidade utilizando a quantidade exata de material e com formas que seriam inimagináveis para um ser humano fabricar.

Seu uso se estendeu do desenho industrial à réplica de objetos arqueológicos, e há pesquisas promissoras em curso para a fabricação de órgãos e tecidos humanos artificiais, próteses de membros, e muitos outros usos. Ao falarmos de mobiliários, as opções também são muitas. Desde imprimir conectores e junções para estantes ou bancos, até fabricar mobiliários completos. 

Cortesia de Guto Requena
Cortesia de Guto Requena

A cadeira Nóize, de Guto Requena, é um exemplo interessante do processo de impressão 3D. A partir de um ícone do design brasileiro, a cadeira Girafa, de autoria da Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, seu modelo tridimensional foi deformado através da sua fusão com o arquivo de áudio dos ruídos e sons urbanos coletados na região da Rua Santa Ifigênia - Centro de São Paulo. Esse arquivo digital foi enviado via internet para a Bélgica, para uma máquina de impressão 3D. Ou seja, tendo a posse de um arquivo, o objeto pode ser impresso em qualquer lugar do mundo, o que pode constituir-se de uma opção interessante em locais remotos, por exemplo.

Já a ideia por trás das cadeiras BITS & PARTS é que elas possam ser baixadas gratuitamente e impressas em casa. Isso porque ela é formada por peças pequenas que cabem até nas impressoras 3D mais compactas, e se juntam como uma quebra-cabeça para formar uma cadeira. O intuito é permitir a fabricação de móveis acessíveis e democratizá-los.

Cortesia de BITS & PARTS
Cortesia de BITS & PARTS

Entre diversas outras iniciativas de impressão 3D, uma que chama a atenção é do Zero Waste Lab, um projeto de pesquisa em que os cidadãos gregos podem transformar os resíduos plásticos em mobiliário urbano. Estes resíduos, altamente poluentes e praticamente indestrutíveis, são processados para se tornar a matéria prima dos mobiliários, com o intuito de redesenhar os espaços públicos na cidade de Thessaloniki, na Grécia.

Print Your City. Image © Stefanos-Tsakiris
Print Your City. Image © Stefanos-Tsakiris

Imprimir em escala industrial ainda não parece viável, o que deve mudar muito em breve. Mas a impressão 3D pode ser muito importante para o assentamento de lugares remotos e mesmo para outros planetas, como vemos nas simulações da NASA para construir bases em Marte. Atualmente, para a criação de protótipos, criação de mobiliários exclusivos e impressão de formas parametrizadas e orgânicas, a impressão 3D já é uma realidade. 

Realidade Aumentada

Sejam filtros no Instagram ou jogos interativos, a Realidade Aumentada também deixou de ser uma promessa de futuro para entrar nos nossos cotidianos. Através do aparelho celular, que carregamos todo o tempo, sua câmera e sensores, a tecnologia permite sobrepor objetos virtuais em ambientes reais. No caso dos mobiliários, os aplicativos de realidade aumentada servem, sobretudo, para se locar os objetos pretendido no espaço, podendo ter uma melhor noção da escala, cores, e como ficará o espaço no futuro.

© Morpholio
© Morpholio

É por isso que diversas empresas vêm investindo em ferramentas para melhorar a visualização dos seus produtos, tornando as condições de visualização cada vez melhores. A Morpholio, por exemplo, proporciona que você insira alguns dos mobiliários mais icônicos nos seus ambientes, a partir de alguns cliques. A gigante IKEA também desenvolveu o seu aplicativo para ensaiar os seus móveis no ambiente.

Mas além da visualização, há ferramentas para auxiliar os usuários. O designer Adam Pickard, por sua vez, vem desenvolvendo um aplicativo para auxiliar na montagem dos móveis da marca, através da Realidade Aumentada, o que possivelmente fará você economizar algumas lágrimas e gotas de suor.

Internet das Coisas (IoT)

A Internet das Coisas (IOT) se refere à interconexão digital dos objetos cotidianos com a internet e mesmo entre si. Eletrodomésticos, veículos, equipamentos públicos e outros dotados de sensores e conexão com a rede, coletam e transmitem dados. Isso possibilita, em primeiro lugar, que esses objetos sejam controlados remotamente através de celulares ou computadores, e, em segundo lugar, que os próprios objetos sejam usados como Fornecedores de Acesso à Internet. Evidentemente, em um primeiro momento nos perguntamos: e para que eu vou querer um mobiliário com internet? Enquanto, sem dúvidas, em algum tempo estaremos nos perguntando: Como vivia sem isso?

elenabsl / Shutterstock
elenabsl / Shutterstock

Além da função básica (que continuarão executando), mobiliários com internet poderão nos proporcionar conforto, poupar tarefas repetitivas, avisar de compromissos ou mesmo proteger a saúde. Se seu telefone conecta-se ao ar condicionado, quando você estiver chegando em casa, sua casa pode já estar na temperatura desejada. Você pode controlar as luzes do jardim mesmo se estiver viajando, irrigar as plantas com a quantidade exata de água e acidez do solo, e por aí vai. Geladeiras que, ao notar a falta de um alimento essencial, possam fazer o pedido automaticamente, cabendo ao usuário aprovar e receber o entregador. Isso pode ser importante para idosos vivendo sozinhos ou para pessoas com deficiências físicas limitantes, por exemplo.

Mas isso pode ir além. Há pesquisas em cursos para sanitários conectados à Internet, cujos sensores e inteligência artificial possam detectar sinais precoces de doenças e ajudar as pessoas a gerenciar condições crônicas como o diabetes. As possibilidades são infinitas e a Internet das Coisas deve impactar desde o cotidiano de um cômodo, até a distribuição de infraestruturas de Estados inteiros. Esperamos que cuidados sejam tomados para garantir a segurança e a economia de recursos.

Inteligência Artificial

Quando abrimos o Netflix, jogados no sofá, a Inteligência Artificial do aplicativo já está funcionando para nos recomendar filmes e séries que, possivelmente nos interessarão. Ou quando queremos saber o caminho mais rápido até um endereço, o aplicativo utiliza diversas operações para nos dar uma resposta adequada, que inclusive poderá mudar durante o percurso. O termo Inteligência Artificial é frequentemente aplicado à capacidade de uma máquina ou sistema de raciocinar, descobrir significados, generalizar ou aprender com as experiências prévias.  

Cortesia de Kartell
Cortesia de Kartell
Cortesia de Kartell
Cortesia de Kartell

No projeto de mobiliários, a IA é utilizada no conceito do design generativo, que abordamos extensivamente neste artigo. O computador pode desenvolver milhares de iterações, seguindo parâmetros e ordens pré-estabelecidas pelo usuário, para chegar às respostas mais adequadas. A A.I., da Kartell é considerada a primeira cadeira de mercado criada através da Inteligência Artificial. Desenvolvida pelo arquiteto Philippe Starck, em conjunto com a Autodesk, o design generativo foi utilizado para se chegar a um desenho de uma cadeira forte, estável e esteticamente agradável, utilizando o mínimo possível de materiais. Stark comentou que o processo foi "muito parecido com uma conversa", no caso entre os parâmetros aplicados no programa e as devolutivas que eram avaliadas cuidadosamente.

Ainda que alguns possam entender isso como um cenário desolador em que as máquinas tomarão o controle, a função do ser humano permanece essencial para definir parâmetros, objetivos e dar os rumos certos às tecnologias. Uma máquina pode entender, de fato todas as necessidades e demandas de um usuário? Um computador pode entender conceitos como ergonomia ou o toque das fibras de uma madeira? Sem dúvidas, o futuro é uma cooperação entre computadores e humanos para fazer com que as decisões sejam mais conscientes, o uso dos recursos mais inteligente e a qualidade de vida das pessoas melhor.

Sobre este autor
Cita: Eduardo Souza. "A tecnologia impactando no design e fabricação de mobiliários" 28 Abr 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/938229/a-tecnologia-impactando-no-design-e-fabricacao-de-mobiliarios> ISSN 0719-8906

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