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Um pequeno luxo: o que as "Tiny Houses" realmente dizem sobre arquitetura?

Um pequeno luxo: o que as "Tiny Houses" realmente dizem sobre arquitetura?
Um pequeno luxo: o que as "Tiny Houses" realmente dizem sobre arquitetura?, © Roderick Aichinger
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Após um piloto bem sucedido em Boston e US$ 1 milhão em capital, uma startup chamada Getaway lançou seus serviços para os nova-iorquinos. A empresa permite que os clientes aluguem uma coleção de “pequenas casas” localizadas em ambientes rurais isolados ao norte da cidade. A partir de US$ 99 por noite, o serviço espera oferecer alívio para pessoas da área urbana que procuram se desconectar e se “encontrar”. A empresa foi fundada pelo estudante de Business Jon Staff e pelo estudante de Direito Pete Davis, ambos da Universidade de Harvard, a partir de discussões com outros estudantes sobre os problemas com habitação e a necessidade de novas ideias para abrigar uma nova geração. A partir disso, surgiu a ideia de introduzir a experiência da Tiny House para aqueles que vivem nas áreas urbanas através de aluguéis de fim de semana.

Inspiradas na noção de micro habitação e na poderosa retórica do movimento das Tiny House, iniciativas como a Getaway são parte de uma série de propostas arquitetônicas que surgiram nos últimos anos. A redução no tamanho tem sido citada por seus adotantes como uma solução para a inacessibilidade da moradia e uma fonte de liberdade da insidiosa escravização capitalista de "acumular coisas". Cidades altamente desenvolvidas e urbanizadas como Nova Iorque parecem estar liderando o caminho para a redução: no ano passado, Carmel Place, um projeto especial de micro residências projetado pelo escritório nARCHITECTS, foi finalmente concluído em Manhattan para fornecer estúdios muito menores do que os atuais da cidade, com a medida mínima de 400 pés quadrados (37 metros quadrados). Muitos, incluindo Jesse Connuck, não conseguem ver como a micro habitação pode ser uma solução para a desigualdade urbana, mas julgarmos que, a partir do sucesso inicial de startups como a Getaway, a microarquitetura mantém amplo apelo público. A satisfação do usuário não é o objetivo final da arquitetura? Nesse caso, é importante investigar a engenhosidade por trás desses espaços subdimensionados, mas muitas vezes superfaturados.

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Mudando as perspectivas da felicidade, dos espaços de convivência e da experiência

Os projetos das cabanas da Getaway são certamente atraentes. Com linhas retas, toques minimalistas contemporâneos e acabamentos quentes de madeira, não é difícil entender por que elas atraem os moradores urbanos. Projetada por estudantes e recém-formados pela Harvard GSD, são construídas com grandes janelas e móveis integrados. Também são atendidas com água corrente e outras canalizações, bem como energia solar. A ideia parece uma experiência divertida e uma novidade casual sem muitos riscos. No entanto, é difícil conceber essas “cabanas na floresta” como verdadeiras inovações arquitetônicas pioneiras.

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Em vez disso, a Getaway é um movimento de negócios muito inteligente que capitaliza as necessidades e o impulso emocional de uma geração. Este é o valor da Getaway para a comunidade arquitetônica, pois nos permite entender os desejos da próxima geração em relação aos espaços e ambientes vivos. Em um vídeo introdutório ao conceito Getaway, o CEO da empresa, John Staff, apresenta uma mensagem forte e identificável: “A moradia que temos não funciona muito bem para a geração millennial, a forma está errada, a função está errada, o aspecto social está errado e a geografia está errada”. No entanto, pelo resto do vídeo, os detalhes do que exatamente está errado com esses aspectos da habitação continuam a ser desconhecidos. É difícil aceitar uma “casa minúscula” como solução quando o problema é desconhecido. Há todos os motivos para estar descontente e insatisfeito com seu estilo de vida - estar estressado, sobrecarregado, desestimulado, endividado e esgotado. Este é o truísmo que foi desviado pela Getaway para se encaixar na narrativa do movimento Tiny House como a pílula mágica. No entanto, cobrar um bom dinheiro por essa “solução” vai diretamente contra os princípios anticapitalistas do movimento.

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Posicionando a Tiny House como um serviço de luxo, é uma fetichização das origens mais humildes do movimento. Embora isso certamente encoraje um público mais amplo a viver um estilo de vida mais “holístico”, a deturpação pode levar a resultados mais problemáticos. A glamourização da Tiny House pode levar os outros a esquecer suas desvantagens. Como qualquer estilo de vida, há manutenção necessária que pode não ser agradável. O sistema simples de check-in e check-out da Getaway não educa o hóspede como parte de sua “experiência”: os detalhes dos custos de reboque, a localização da terra adequada, o encanamento e o gerenciamento de resíduos são colocados embaixo do tapete. A glamourização também pode permitir que uma espécie de "gentrificação" ocorra dentro do movimento da moradia mínima. A natureza econômica da Tiny House é uma alternativa radical para os economicamente necessitados e deslocados pelo aumento dos custos de moradia. Mas o tipo de publicidade midiática que a Getaway cria para o movimento Tiny House poderia mais uma vez deslocar as pessoas mais necessitadas, já que elas são superadas por jovens que buscam emoções e uma vida mais “autêntica”.

Courtesy of Instagram @laurenswells
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O sucesso do serviço da Getaway reflete a mudança de atitudes sobre privilégios, riqueza e materialismo no século XXI. Hoje em dia, parece que a maneira mais comum de articular o privilégio de alguém é precisamente rejeitá-lo - ou melhor, rejeitar a visão tradicional de privilégio para outras atividades mundanas. A Toronto Life Magazine pinta um retrato vívido (ainda que exagerado) de como os millennials estão tentando viver suas vidas. Ao contrário da geração anterior, o sonho dos millennials é coletar experiências: viajar pelo mundo, passar tempo com amigos, beber um bom vinho e comer uma boa comida. Para realizar esses sonhos, muitos millennials não são tolos, como a geração anterior gostaria de chamá-los.

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Como diz o artigo da Toronto Life colocado acima, essa é a geração que está descontente com a riqueza que lhes é oferecida e está buscando uma experiência diferente, mas, mesmo assim, uma experiência de riqueza. Para perseguir seus estilos de vida desejados, os millennials estão preparados para se sacrificar. No artigo, o farmacêutico de 30 anos escolhe viver livre de aluguéis ficando em seu quarto de infância na casa de seus pais, mas em troca ele consegue viajar pelo mundo e gastar sua renda em noites extravagantes. Para outros (com pais menos indulgentes), esse sacrifício pode ser sob a forma de viver em um pequeno lar. Quando os millennials são pegos vivendo em condições de vida aparentemente precárias, em alguns casos, são escolhas deliberadas para priorizar o que eles acreditam ser mais importante para viver uma vida autêntica. Essa é a perspectiva que a Getaway espera atrair. Como descreve Staff, seu serviço é “uma oportunidade para as pessoas descobrirem o que é realmente importante e o que as faz felizes”, o que, segundo ele, “tem muito mais a ver em como você gasta seu tempo e muito menos com coisas que possui.” Este é o marketing feito corretamente por um estudante de negócios de Harvard.

Uma Arquitetura de experiência deliberadamente autêntica

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Entender a perspectiva social da geração atual pode levar a um novo entendimento da arquitetura. Especificamente, uma nova compreensão do papel da habitação nas vidas dessa geração poderia levar a novas formas de arquitetura.

Arquitetonicamente falando, é a qualidade personalizada das casas que contribui para o sucesso da Getaway. Quando o espaço é limitado, o projeto deste torna-se mais focado em torno do uso humano, apenas para tornar a estrutura habitável. No entanto, essa intencionalidade certamente atenta a um público-alvo que busca viver de acordo com seus próprios propósitos e desejos. A equipe comenta que a “Tiny não é realmente tão pequena quando você está em um pequeno espaço de alta qualidade, pois você pode se concentrar em viver sua vida e se conectar com as pessoas que gosta”, e precisamos nos concentrar na última parte dessa afirmação. O público anseia por maior qualidade, e uma maneira de abordar isso é através da deliberação: criar um espaço otimizado e não aumentado. Como os diferentes projetos da Getaway nos mostram, também não se trata de fornecer tudo, mas priorizar um conjunto de desejos. A Lorraine House da Getaway foi projetada para excursões em grupo; a Ovida  para ser um retiro de escritor e a Clara é projetada para não se fazer nada.

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Há dois aspectos distintos na Tiny House, que devem ser entendidos separadamente: o físico e o experiencial. Não só cada aspecto atrai grupos diferentes, mas também leva a resultados diferentes. O senso físico de “pequenez” em pequenas casas é o que a torna a opção econômica. Isso é particularmente atraente para aqueles que estão na extremidade inferior do espectro econômico. No entanto, esse é o mesmo aspecto que é problematizado pelos críticos, que temem que os tamanhos reduzidos possam levar a uma redução dos padrões de vida em nossas cidades. Então, há o aspecto experiencial da “pequenez”, que leva a um perfil demográfico completamente diferente do estilo de vida: a classe média jovem, educada e mobile. Casas minúsculas apelam para essa visão demográfica predominante sobre “viver globalmente” em um sentido social, político e ambiental.

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A arquitetura convencional precisa explorar o aspecto experiencial das pequenas moradias muito mais do que o aspecto físico. Dissociar um do outro pode impedir a fetichização e a gentrificação resultante deste movimento, ao mesmo tempo em que compartilha as virtudes encontradas na moradia reduzida com uma população maior. Então, como podemos imitar os aspectos experienciais de pequenas casas sem exigir tal pequenez física? Aqui estão algumas sugestões:

  • Um passeio de fim de semana em uma casa da Getaway com amigos evoca uma sensação de convivência: ter que viajar com um amigo, comer ao lado de alguém descansando ou poder fazer duas coisas separadas no mesmo espaço e ter o prazer de conversar enquanto estiver fazendo isso. A Getaway facilita essa troca social, organizando um programa eficiente, mas cuidadoso, dentro da cabana, resultando em uma configuração de vários níveis que permanece esteticamente agradável.
  • A falta de posses no espaço pequeno dá ao habitante a liberdade de se mobilizar o mais rápido possível em busca de novas oportunidades. O desafio da arquitetura tradicional é chegar a esse mesmo nível de auto-suficiência, sem aumentar a bagagem. Vimos uma resposta a esse desafio na forma da Roam Co-Living, então definitivamente há espaço para inovação.
  • Finalmente, a escala reduzida das pequenas casas dentro de seu contexto cria uma sensação de hiper consciência dentro do indivíduo em relação ao seu ambiente. Como podemos imbuir essa mesma sensação de “pertencer a um ecossistema” na arquitetura tradicional, especialmente em uma época em que vivemos em caixas empilhadas, muitas vezes sem sequer saber os nomes daqueles com quem compartilhamos nossas paredes?

Todos esses são elementos de arquitetura que já foram explorados e desenvolvidos - e, no entanto, eles estão cada vez mais ausentes na arquitetura convencional atual: os espaços “normais” e “não projetados”, nos quais 90% da população urbana vive.

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É importante entender que uma Tiny House não é um bom espaço, porque é pequena, mas as casas mais pequenas são um bom espaço que, por acaso, é pequeno. De alguma forma, parece que a falta física de espaço é o que nos permite reorientar nossas intenções para criar um espaço de alta qualidade bem projetado. Afinal, a própria ideia de um “bom espaço” continua a ser debatida séculos depois que a arquitetura começou a reconhecer a própria noção de espaço, o que significa dizer que ainda precisamos compreender plenamente seu potencial. A arquitetura minúscula parece ser uma ferramenta para inconscientemente fazer com que o “golpe” de produzir espaços de alta qualidade seja repetível. A lição a ser levada para casa não é que todos nós devemos nos mudar para casas pequenas, mas que devemos seguir a natureza “deliberada” de pequenos espaços e tentar imitar essa qualidade de forma mais convencional.

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Fenômenos radicais e reacionários como o movimento Tiny House merece consideração, pois refletem sobre nossas práticas e atitudes mais amplas que passam despercebidas e inquestionáveis. Preocupações como custos de moradia insustentáveis são legítimas, e iniciativas como a Getaway não são totalmente equivocadas. Por exemplo, John Staff também pergunta: “Como podemos converter nosso estoque habitacional em algo que é mais utilizável para esta geração e que é responsável pelo meio ambiente?” Eles certamente estão fazendo as perguntas certas, para as quais as soluções precisam ser desenvolvidas incentivando discussão continuada. Conceitos como o Getaway merecem crédito por aprofundar essa conversa - seja essa a conversa interior na mente de seus possíveis convidados ou a conversa mais ampla dentro da comunidade arquitetônica.

© Roderick Aichinger
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Créditos do projeto: Wyatt Komarin, Addison Godine, Rachel Moranis, Emily Margulies.

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Sobre este autor
Cita: Doroteo, Jan. "Um pequeno luxo: o que as "Tiny Houses" realmente dizem sobre arquitetura?" [A Tiny Luxury: What are “Tiny Houses” Really Saying About Architecture?] 15 Ago 2018. ArchDaily Brasil. (Trad. Pereira, Matheus) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/900131/um-pequeno-luxo-o-que-as-tiny-houses-realmente-dizem-sobre-arquitetura> ISSN 0719-8906

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