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Mobilidade é questão de desenho urbano

Mobilidade é questão de desenho urbano
© Osman Rana. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)
© Osman Rana. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)

A crise da mobilidade urbana inspirou a reflexão sobre os modais de transporte e sua relação com eficiência, tempos de trajetos, poluição gerada, infraestrutura necessária, custos de implantação e operação e os impactos na saúde dos usuários. Atualmente, governos realizam grandes investimentos em novas infraestruturas que permitem que populações equivalentes a cidades inteiras se desloquem longas distâncias diariamente. Em São Paulo, por exemplo, o equivalente à população do Uruguai sai da Zona Leste para o Centro todos os dias.

No entanto, raramente discute-se sobre a forma da cidade, as distâncias a serem percorridas, o desenho das ruas: afinal, qual é o meio de deslocamento encorajado nas nossas cidades? Por que não há incentivos para adotarmos outros meios de locomoção? Será que a mobilidade nas cidades está somente relacionada à infraestrutura de transporte?

As ruas nasceram muito antes dos carros: eram destinadas à circulação de pedestres e veículos não motorizados. Após quase 100 anos da invenção dos automóveis e com grande parte da infraestrutura voltada a eles, os carros passaram de solução a problema e chegaram ao século 21 como os grandes vilões das cidades. A ênfase ao transporte individual motorizado resultou em uma crise de mobilidade urbana que afeta não apenas os tempos de deslocamento, mas também a saúde física e mental das pessoas, seja pelo estresse, sedentarismo, acidentes e mortes no trânsito ou, ainda, pela poluição e emissões atmosféricas gerada através da queima de combustíveis fósseis.

A dependência em relação aos veículos motorizados aumentou exponencialmente a partir das possibilidades urbanísticas que essa nova tecnologia trouxe: as cidades poderiam se expandir quase que indefinidamente em direção às periferias, para zonas distantes do trabalho, da escola, dos serviços. Ao mesmo tempo, o urbanismo moderno trouxe como paradigma a redução das densidades populacionais e a setorização dos usos da cidade. O resultado? Cidades espraiadas em vastos territórios que consomem zonas ambientalmente sensíveis, segregam populações e funções das cidades e criam zonas-dormitório e centros comerciais inóspitos e inseguros, principalmente durante a noite.

 Como é possível construir sistemas de transporte público eficientes se as distâncias a serem percorridas são imensas, ou se deve ser preenchido um enorme território com uma malha coesa e interligada? Como caminhar até o trabalho que está a mais de 20km de distância? Como pedalar para a escola se as vias expressas, que permitem o fluxo rápido de carros e ônibus, inibem essa presença?

Mobilidade é questão de desenho urbano, © Alessandro Di Credico. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)
© Alessandro Di Credico. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)

Mobilidade é, afinal, muito mais do que sistemas de transporte. Conseguir se locomover com facilidade nos centros urbanos também é questão de planejamento e forma urbana, é papel dos arquitetos e urbanistas. Para construir cidades mais caminháveis, inclusivas, saudáveis, democráticas, eficientes e ambientalmente responsáveis, algumas estratégias podem ser adotadas no desenho urbano dos nossos municípios: 

+SISTEMAS INTEGRADOS: Ruas completas (do termo “complete streets”, em inglês) são aquelas que preveem infraestrutura para pedestres, bicicletas, transporte público e automóveis, priorizando a coexistência dos modais em uma mesma via com segurança. Além disso, a intermodalidade encoraja passageiros a combinarem modais distintos ao longo de um trajeto: permitir bicicletas em ônibus, por exemplo, incentiva trajetos ativos até as estações; incluir garagens nas estações de trem e metrô podem fazer com que um trajeto 100% realizado por um automóvel possa ser, em parte, realizado por transporte público. 

© Tim Gouw. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)
© Tim Gouw. Image via Unsplash. Licensed by CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)

+DESENHO DOS CAMINHOS: O desenho das ruas, a dimensão de calçadas, ciclovias ou faixas de tráfego, também influenciam diretamente na escolha por um modal. Qual o conforto ambiental ao caminhar em uma calçada de 1,50m ao longo de uma via expressa, em que as faixas largas incentivam o aumento de velocidade por parte dos automóveis? Como caminhar por um bairro em que as quadras são muito longas, as faixas de pedestre inexistentes ou muito distantes, e os tempos de travessia para pedestres muito curtos? Redesenhar a geometria das vias existentes a favor da acessibilidade e segurança viária, redescobrir potenciais atalhos como passagens e escadarias são primordiais para garantir que usuários possam optar por diferentes maneiras de se locomover.

© Cidade Ativa
© Cidade Ativa

+INFRAESTRUTURA COMPLEMENTAR: Toda infraestrutura de mobilidade deve vir acompanhada de outros elementos que complementem o papel de cada modal como, por exemplo, bicicletários e vestiários nos espaços de trabalho, ou ainda pontos de ônibus com informações sobre linhas e horários. As calçadas também podem ser projetadas de maneira a qualificar a experiência do pedestre, incorporando bancos para descanso, elementos de proteção (como toldos e marquises) para dias quentes ou chuvosos, sistemas de orientação ou informação para pedestres com sugestões de rotas e identificação de pontos de atração, ou iluminação orientada ao passeio na calçada à noite.

© Cidade Ativa
© Cidade Ativa

+CIDADES COMPACTAS: De onde viemos e para onde vamos? Uma cidade compacta tem maior densidade populacional (mais moradores em uma mesma área) e maior mistura dos usos do solo, o que permite acesso a diversos equipamentos como escola, supermercados e áreas de lazer em um espaço reduzido. A aproximação de destinos podem substituir longos deslocamentos por trajetos de curta distância no dia-a-dia, incentivando a mobilidade ativa. Além disso, investimentos em transporte público são otimizados, já que linhas de ônibus ou metrô podem ser mais curtas, reduzindo custos de implantação, manutenção e operação.

Enquanto continuarmos a (tentar) resolver os problemas de mobilidade urbana apenas com transporte, bairros permanecerão segregados e seus cidadãos continuarão sem o devido acesso aos serviços, comércio e lazer que têm direito. É necessário repensar a maneira atual de fazer cidades e torná-las mais humanas, inclusivas, agradáveis e seguras para todos seus habitantes, independentemente de sua capacidade de locomoção. Mobilidade é sim questão de planejamento e desenho urbano.

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Sobre este autor
Cidade Ativa
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Cita: Cidade Ativa. "Mobilidade é questão de desenho urbano" 02 Mai 2017. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/870410/mobilidade-e-questao-de-desenho-urbano> ISSN 0719-8906