Ser mulher nas ruas da cidade: um olhar filosófico e etnográfico

Você já parou para refletir se as ruas do centro da sua cidade influenciam na sua forma de agir?

O centro das cidades é um microcosmo urbano onde, especialmente, as experiências das mulheres são profundas e silenciosas. Em 2022, um exercício etnográfico lançou luz sobre as dinâmicas vividas por mulheres que circulam por quatro pontos da região central de Curitiba: o Terminal do Guadalupe, a esquina entre a Rua Pedro Ivo e a Travessa da Lapa, o trecho pedonal da Rua XV de Novembro, entre a Rua Marechal Floriano Peixoto e a Rua Monsenhor Celso, e a Praça General Osório.

Neste trabalho, os registros foram feitos por meio de fotografias, anotações, observações e entrevistas com transeuntes e trabalhadores locais. Uma destas entrevistas foi com a Deise, uma jovem de 19 anos que trabalha na região central. Ela compartilhou seu receio de assaltos, embora não tenha sido vítima de nenhum. Ela observa que a sensação de insegurança é exacerbada pela falta de estrutura de segurança, especialmente a iluminação insuficiente no entorno do Terminal do Guadalupe, o que facilita abordagens indesejadas.

Em outra entrevista, com Adenilson, um homem de 40 anos que trabalha como segurança terceirizado no terminal, ele conta que já testemunhou inúmeros furtos na área, afetando tanto homens quanto mulheres, além de ladrões em bicicletas que arrancam colares das vítimas. As mulheres, frequentemente, se aproximam de Adenilson para pedir informações ou ficarem próximas a ele para poderem mexer no celular, buscando um pouco mais de segurança em sua presença.

A pesquisa proporcionou muitos relatos interessantes. Além destes, as observações realizadas revelaram que as mulheres tendem a caminhar mais rápido e encolhidas quando estão sozinhas, evitando fones de ouvido para manter a atenção. Homens, por sua vez, demonstram posturas mais eretas. As mulheres costumam carregar bolsas e sacolas próximas ao corpo, provavelmente por segurança. Quando acompanhadas por outras mulheres ou crianças, a tensão diminui, e a presença masculina, como marido ou namorado, traz uma sensação de relaxamento notável.

Os muros altos, concertinas, vias rápidas, calçadas estreitas também influenciam nas reações corporais. Em termos de simbolismo, observou-se que o Terminal do Guadalupe, nomeado em homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe, uma figura feminina, destoa da predominância de nomes masculinos nas ruas adjacentes, como João Negrão, Pedro Ivo e André de Barros.

Nas regiões da Praça General Osório e do trecho pedonal da Rua XV de Novembro, as mulheres desfrutam de uma maior sensação de segurança e um pouco mais de liberdade. Elas caminham mais devagar, com bolsas soltas e permitem que as crianças brinquem com maior desenvoltura. A contemplação de lojas e vitrines ocorre de maneira espontânea e tranquila, o tempo de travessia nos semáforos também é maior e confortável. A presença de moradores de rua e usuários de drogas é menos impactante devido à movimentação constante de pessoas, comércio e serviços.

É importante destacar que esse recorte espaço-temporal foi específico, realizado no período da manhã em horário comercial de um dia de semana. Os resultados podem ser diferentes se coletados em outros momentos. De todo modo, esse exercício etnográfico provocou um olhar atento, o que é raro em ruas tão movimentadas, nas quais passamos distraídos ou apressados. E revelou algumas facetas como segurança pessoal, estereótipos, comportamentos que, embora assuntos substanciais, tornaram-se “normais” e percebidos com certa naturalidade pelas mulheres que aprendem desde cedo a ter resiliência.

Ser mulher nas ruas do centro de Curitiba e em demais municípios é uma experiência que mescla sutileza, dificuldade, muito questionamento e poucas respostas efetivas. Pois, além do comportamento visível e características físicas dos ambientes, as ruas transparecem o emaranhado das relações socioculturais, que moldam os hábitos e, por isso, abre espaço de discussão sobre qual é a influência do desenho das cidades para essa temática, e o que seria um planejamento urbano seguro e inclusivo.

Não é de hoje tais questões no mundo. A jornalista estadunidense Jane Jacobs, consolidou uma interpretação pioneira e revolucionária para os fenômenos urbanos, confrontando o sistema autoritário e desumanizado das cidades. Desmoralizada no início, sua voz foi reverberando até se tornar ensurdecedora aos seus opositores, encorajando a população a se apropriar de suas próprias cidades, e mudando radicalmente a forma de ver e pensar a urbe.

Para ela, manter a segurança urbana para todos era a tarefa principal das ruas e das calçadas. Instituiu o conceito de “olhos da rua”, em que defendia a multiplicidade de atividades e diversidade como ferramentas de seguridade, ao contrário das soluções de arquitetura hostis com essa mesma finalidade. Esses elementos puderam ser identificados nos registros da pesquisa, assim como a falta de compromisso com o tema, mesmo após mais de 60 anos do lançamento de seu livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”.

Ainda, para ajudar nesta jornada reflexiva, é possível citar algumas filósofas que contribuíram para o entendimento das perspectivas da experiência de ser mulher. Alguns anos antes da obra de Jacobs, Simone de Beauvoir argumentou que a construção da identidade da mulher é influenciada pela sociedade patriarcal e pelas normas de gênero. Por isso, pode-se dizer que o espaço urbano manifesta o enfrentamento das mulheres às expectativas e regras sociais. Nesse sentido, para Judith Butler a performatividade, que advém da identidade de gênero, é uma construção social que ocorre por meio de atos repetidos. Ou seja, dia após dia as mulheres nas ruas colocam em xeque as noções tradicionais de feminilidade.

A pioneira feminista negra, bell hooks, explorou a interseccionalidade das experiências das mulheres, destacando como raça, classe social e gênero se entrelaçam na vivência em centros urbanos, e ressaltou a importância da solidariedade entre mulheres na busca dos seus direitos. Por fim, Gayatri Chakravorty Spivak explorou questões de subalternidade e voz, enfatizando como as mulheres nas cidades muitas vezes enfrentam opressão sistemática e é vital amplificar suas vozes.

A partir destas diferentes perspectivas sobre o como é ser mulher no centro das cidades, é possível compreender que estes aspectos são um reflexo das complexas dinâmicas sociais, econômicas e culturais. Embora os espaços públicos ofereçam uma ampla gama de oportunidades e acesso a serviços, eles também apresentam desafios significativos para as mulheres. Por isso, tentam nos convencer que o mais seguro é velar o que se é, mas, ao contrário disso, o tema está latente e são muitas as representantes dessa causa em prol da nossa expressividade.

Com este texto, nosso intuito é convidar vocês, caras leitoras e caros leitores, a refletir sobre como é ser mulher em centros urbanos e o que podemos fazer para contribuir com melhorias nessa realidade, além de buscar inspiração para a luta contínua pela manifestação feminina nas cidades. E para você cara leitora, como é ser mulher em sua cidade?

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Os dados de campo mencionados neste trabalho foram coletados pelas alunas  do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade Positivo (PPGAmb) Luíza Chiarelli de Almeida Barbosa e Ingrid Buccieri, e pela aluna da Graduação da mesma instituição, Raílle Almeida, para a disciplina de Análise Qualitativa, módulo Etnografia conduzido pelo Prof.  Dr. Rivail Vanin de Andrade.

Referências

  • Jane Jocobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, Martins Fontes, São Paulo, 2011.
  • Simone Beauvoir. O segundo sexo: A experiência vivida, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1967.
  • Judith Butler. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2018.
  • Iris Marion Young. Inclusion and Democracy. Oxford University Press, Oxford, 2000.
  • Martha Nussabum. Sex and Social Justice. Oxford University, Oxford, 1999.
  • Bell Hooks. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. Elefante, São Paulo, 2019.
  • Gayatri Chakravorty Spivak. Pode o subalterno falar?. Editora UFMG, Belo Horizonte, 2014.

Sobre este autor
Cita: Luíza Chiarelli de Almeida Barbosa e Aline Barbosa. "Ser mulher nas ruas da cidade: um olhar filosófico e etnográfico" 12 Jan 2024. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/1012023/ser-mulher-nas-ruas-da-cidade-um-olhar-filosofico-e-etnografico> ISSN 0719-8906

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