As casas pintadas de Tiébélé: um modelo de colaboração comunitária

As casas pintadas de Tiébélé: um modelo de colaboração comunitária

No sul de Burkina Faso, compartilhando fronteiras com a região norte de Gana, está Tiébélé; uma pequena vila que exibe padrões fractais de volumes circulares e retangulares, abrigando um dos mais antigos grupos étnicos da África Ocidental: a tribo Kassena. Com casas vernaculares que remontam ao século XV, a vila possui um caráter distintivo através de suas paredes pintadas com símbolos. É uma arquitetura de decoração de paredes onde a comunidade utiliza seu envoltório como uma tela para formas geométricas e símbolos do folclore local, expressando a história e a herança cultural. Essa arquitetura é o produto de uma colaboração comunitária única, onde todos os homens e mulheres da comunidade são responsáveis pela construção e acabamento de qualquer nova casa. Essa prática serve como um ponto de transmissão da cultura Kassena entre as gerações.

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As Casas Pintadas de Tiébélé. Imagem © tumblr

A arte decorativa na sociedade Kassena está enraizada na história cultural, refletindo deveres tradicionais, posições hierárquicas e costumes. Essa arte é mais evidente nas variações entre as edificações da corte real, localizada no centro da vila de 1,2 hectares, e outras residências que se expandem a partir dela em uma estrutura fractal contínua à medida que novas famílias surgem. A vila é lar de 54 famílias nativas que traçam sua história, tradições e habilidade arquitetônica em Loumbila, perto de Ouagadougou, também em Burkina Faso.

As casas de Tiébélé são construídas inteiramente com materiais locais, como terra, madeira, palha e esterco de vaca. As paredes são construídas com espessura de 30cm, criando um clima interno favorável e servindo como mecanismo de defesa contra inimigos. Essas casas são tradicionalmente conhecidas como "sukhala", e de acordo com os costumes da sociedade Kassena, são construídas pelos homens durante a estação seca (novembro a março) e decoradas pelas mulheres pouco antes da estação chuvosa. As decorações servem principalmente para proteger as paredes de barro contra a erosão, mas também evoluíram para uma forma de arte usando motivos e símbolos que transmitem os costumes, a religião e as crenças da sociedade.

Um aspecto interessante das casas de Tiébélé é o método de construção comunitária. Quando a casa de alguém vai ser decorada, todas as mulheres da comunidade são convidadas a participar do processo, fornecendo-lhes alimentos e bebidas. A mulher mais idosa da comunidade geralmente lidera o trabalho e define os padrões de pintura, enquanto as outras realizam as tarefas com maestria de gestos tradicionais e coordenação única. As decorações das paredes de barro são bastante complexas. As paredes precisam ser preparadas durante todo um dia, depois pintadas com cores locais e finalmente finalizadas com tratamentos superficiais à mão ou com outras ferramentas (como vassouras, pedras e penas) dependendo do acabamento desejado. O envolvimento comunitário de todas as mulheres não apenas torna o processo eficiente, mas também cria uma oportunidade para encontros intergeracionais e um ponto de transmissão da cultura Kassena. Atualmente, as mulheres da comunidade também são testemunhas únicas de práticas centenárias, o que lhes permite criar uma infinidade de motivos com vários significados.

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As mulheres de Tiébélé decorando uma casa, 2018. Imagem © Patber33/Tripadvisor

As técnicas de decoração para a arquitetura Kassena envolvem três métodos: pintura à mão livre, gravuras e relevos. Pinturas à mão livre são criadas desenhando sinais diretamente na superfície usando pincéis. As gravuras são feitas criando incisões no reboco fresco com um rolo de formato adequado. Os relevos são criados projetando padrões para fora das paredes de terra, tornando-os visíveis. Uma vez que a decoração está completa, as cores são adicionadas. A laterita é usada para produzir vermelho, argila de caulim para branco e grafite para preto. Essas cores possuem significados específicos para o povo Kassena. O vermelho simboliza coragem, o branco representa honestidade e pureza, e o preto simboliza a noite e o mundo invisível.

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As belas casas de terra pintada em Tiébélé, Burkina Faso. Imagem © Rita Willaer/Flickr

Ao percorrer o labirinto de casas em Tiébélé, há uma infinidade de padrões, desde formas geométricas e símbolos celestiais até símbolos animistas. Cada um fala de forma diferente sobre as famílias que vivem neles. Por exemplo, símbolos de estrelas e lua projetam esperança, símbolos de flechas indicam a família de um guerreiro, símbolos animistas como crocodilos e cobras são considerados sagrados e desenhados para afastar a má sorte e doenças, enquanto geometrias simples como o semicírculo comunicam objetos cotidianos como o porongo. A arquitetura em Tiébélé se torna uma tela em branco para a expressão direta de valores e aspirações. Ela vai além de apenas um abrigo que protege do clima severo e se torna uma bela envoltória de comunicação entre diferentes famílias, como uma voz coletiva dentro do ambiente urbano fractal.

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Padrões Simbólicos de Tiébélé, Burkina Faso. Imagem © Rita Willaer/Flickr

No entanto, as pinturas precisam ser retocadas a cada três anos, o que se tornou um fardo financeiro para os moradores devido aos preços atuais dos materiais e às distâncias que precisam percorrer para adquiri-los. Além disso, devido à topografia, a erosão e as inundações representam ameaças significativas para a existência das casas de barro. Apesar desses desafios, a comunidade respeita as tradições decorativas e realiza um festival ocasional de pintoras que atrai pessoas de toda a região. O festival permite a restauração dos volumes na praça real. Há esperança de que Tiébélé eventualmente seja incluída como Patrimônio Mundial da UNESCO, o que ajudaria a sustentar a arquitetura e suas tradições.

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As casas pintadas de Tiébélé

Tiébélé continua sendo um testemunho excepcional das ricas tradições e habilidades artísticas do povo Kassena enquanto perdura ao longo do tempo. Suas decorações artísticas têm inspirado os acabamentos de novos edifícios modernos na região e têm sido utilizadas como modelos para moda, mobiliário e outros produtos. Sua forma única de construção comunitária e decoração colaborativa representa um exemplo no qual a colaboração arquitetônica pode unir a todos, independentemente de status, sendo também um espaço para compartilhar outros valores da vida.

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Paisagem Urbana Fractal de Tiébélé cortesia de Daily Afrika/Medium

Esse artigo é parte de uma série do ArchDaily intitulada AD Narratives, onde compartilhamos a história por trás de um projeto selecionado, mergulhando em suas particularidades. A cada mês, exploramos novas construções de todo o mundo, destacando suas histórias e como elas aconteceram. Nós também conversamos com arquitetos, construtores e com a comunidade que busca ressaltar sua experiência pessoal. Como sempre, no ArchDaily, nós apreciamos muito as sugestões de nossos leitores. Se você acha que deveríamos apresentar algum projeto, por favor, mande sua sugestão.

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Sobre este autor
Cita: Yakubu, Paul. "As casas pintadas de Tiébélé: um modelo de colaboração comunitária" [The Painted Houses of Tiébélé: A Model for Communal Collaboration] 21 Out 2023. ArchDaily Brasil. (Trad. Ghisleni, Camilla) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/1007672/as-casas-pintadas-de-tiebele-um-modelo-de-colaboracao-comunitaria> ISSN 0719-8906

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