
No início do século XIX, em uma Paris prestes a ter seu tecido medieval rasgado pelos enormes bulevares de Haussmann, a romancista George Sand se vestia como homem para andar pelas ruas. Segundo seus diários, “de calças e botinas podia voar de uma ponta a outra da cidade, qualquer que fosse o clima, a hora e o local”. Ninguém lhe dava atenção, ninguém adivinhava seu disfarce, ninguém a olhava ou criticava, ela era mais um “átomo perdido naquela imensa multidão”. Graças às vestes masculinas, Sand vivenciou incursões destemidas e percursos solitários, como um verdadeiro flâneur. Experiências que, posteriormente, se tornaram fundamentais para a construção de suas narrativas de sucesso.
Por definição, o flâneur – conforme Walter Benjamin descreveu a partir da obra de Charles Baudelaire – é um personagem errante e observador, típico da literatura europeia do século XIX. Essa figura anônima que vagava lenta e ociosamente pelas ruas de Paris, foi conceituada desde sua origem como exclusivamente masculina, já que as mulheres não possuíam a mesma liberdade dos homens para andar pelas cidades pois estavam entrincheiradas na esfera doméstica. Ademais, ao que tudo indica, para se ter o status de flâneur, além de estar "autorizado" a vagar pela cidade, era preciso gozar de certos privilégios, como ter tempo livre para tal, sem responsabilidades que o impediriam de andar a esmo pelas ruas.



