As mulheres e o canteiro de obras autogestionário

As mulheres e o canteiro de obras autogestionário

Muitas vezes despercebida ou desconsiderada, a desigualdade de gênero na arquitetura traz consequências tanto às mulheres e suas carreiras quanto aos espaços e produtos criados. Há, porém, um nicho de trabalho dentro da construção civil que contradiz essa lógica, propondo a criar um espaço de trabalho mais igualitário. Este texto propõe uma reflexão sobre essa desigualdade e como ela é desafiada pelas práticas autogestionárias. 

Em seu artigo O peixe morto na praia: o problema das mulheres na arquitetura, Khensani de Klerk, arquiteta sul-africana relembra a citação de Dorte Mandrup no dia internacional das mulheres: “Permita-me explicar; Eu não sou uma arquiteta mulher. Eu sou arquiteta. Quando falamos de gênero, tendemos a falar sobre mulheres. Os homens não têm realmente um gênero. Eles são apenas... neutros. Sem gênero. É por isso que você não reconhece o termo “arquiteto homem”. Apesar de todos os esforços para que as arquitetas se sintam especiais, o resultado é exatamente o oposto”. Essa neutralidade pressuposta sobre o ser e os saberes masculinos é presente no imaginário das pessoas sobre as vivências profissionais na arquitetura e no urbanismo, o que camufla a hegemonia masculina e branca e as grandes desigualdades presentes na prática profissional.

“O peixe morto na praia: o problema das mulheres na arquitetura”, Khensani de Klerk. Image Cortesia de Matri-Archi(tecture)
“O peixe morto na praia: o problema das mulheres na arquitetura”, Khensani de Klerk. Image Cortesia de Matri-Archi(tecture)

Em 2020 o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU BR) divulgou um estudo sobre as desigualdades da profissão no Brasil. A partir de questionários, entrevistas e relatos de profissionais, o diagnóstico mostra as questões de gênero, tratado na pesquisa por uma perspectiva binária, em relação a temas como raça, orientação sexual, remuneração, assédio, reconhecimento profissional e outros. De maneira geral, a pesquisa demonstra os privilégios tanto de gênero, quanto de raça, do homem branco, colocando a situação brasileira muito próxima àquela tratada por Klerk em seu texto sobre a realidade sul-africana, ou ainda exposta por outras pesquisas que retratam a situação em países como Estados Unidos ou na União Europeia.

Infográfico demonstra ranking de inequidade de gênero e raça na Arquitetura e Urbanismo. . Image via Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo do CAU
Infográfico demonstra ranking de inequidade de gênero e raça na Arquitetura e Urbanismo. . Image via Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo do CAU

Apesar de uma forte presença feminina nas faculdades e escolas de arquitetura, os homens brancos são os que recebem mais dinheiro, estão majoritariamente em lugares de poder e também são os mais reconhecidos por seus feitos. Dos 44 ganhadores do Prêmio Pritzker, 5 foram dados a mulheres, e desses apenas dois foram exclusivos, Zaha Hadid em 2004 e a dupla Yvonne Farrell e Shelley Mcnamara em 2020. Como reflexo disso, a maioria de nossa literatura é ocidental e masculina e enfrentamos dificuldade de conceber as mulheres como referências em nossa profissão. 

Yvonne Farrell e Shelley McNamara.. Image © Andrea Avezzu. Cortesia de La Biennale di Venezia
Yvonne Farrell e Shelley McNamara.. Image © Andrea Avezzu. Cortesia de La Biennale di Venezia

Ao mesmo tempo, no espaço da construção civil o canteiro de obras é, notoriamente, um local masculino. Nas obras, a imensa maioria dos trabalhadores são homens, restando pouco, ou nenhum, espaço para que mulheres possam desempenhar ofícios como pedreiras, eletricistas, encanadoras etc. O canteiro de obras se torna, portanto, um espaço que afasta e desconfia das arquitetas, engenheiras e pedreiras. No Diagnóstico de Gênero da Arquitetura e Urbanismo do CAU, uma das participantes conta, sobre sua vivência na obra, que “o mais impactante é que, quando chego para fiscalizar obras, os trabalhadores ouvem mais o motorista que me conduziu do que eu”.

© Josue Isai Ramos Figueroa Via Unsplash
© Josue Isai Ramos Figueroa Via Unsplash

Há, portanto, uma realidade oposta à neutralidade agênera do imaginário da arquitetura e urbanismo. Quando desconsideramos a perspectiva de gênero nas discussões, debates e reflexões da arquitetura, automaticamente limitamos os conceitos e a prática da arquitetura ao conhecimento masculino, ocidental e branco, impactando tanto nas carreiras profissionais individuais, quanto na qualidade da arquitetura produzida. Nesse contexto, a barreira de gênero no espaço do canteiro de obras é ainda mais difícil de ser transposta. 

Mutirão São Rafael da Leste 1 assessorado pela USINA CTAH. . Image © Isac Marcelino
Mutirão São Rafael da Leste 1 assessorado pela USINA CTAH. . Image © Isac Marcelino

Se de um lado há um esforço recente de ampliar a visibilidade de arquitetas de diferentes raças, de outro, o canteiro de obras é ainda um lugar desafiador. O canteiro convencional é um lugar onde o homem quase perde sua humanidade, trabalhando em serviços pouco especializados e sendo conduzido por processos quase mecânicos de forma excessiva. É o local de produção e reprodução do capital, conforme descreve a arquiteta e socióloga Joana Barros em sua participação no evento Quem é você pra me dizer como se faz um prédio? As mulheres e o mutirão, um espaço masculino, hierarquizado e segregador das diferenças.

Instalação Arquitetura na Periferia. Image © Thiago Silva
Instalação Arquitetura na Periferia. Image © Thiago Silva

Desafiando essa lógica, o canteiro do mutirão autogestionário é um local que polemiza essas relações de trabalho, apresentando-se como um espaço que contradiz a lógica de reprodução do capital do canteiro convencional. Em São Paulo, historicamente acompanhados dos movimentos de moradia, os canteiros de obras dos mutirões representam espaços predominantemente femininos. “Atualmente as mulheres representam maioria em diversos movimentos sociais de luta por moradia e direito à cidade em São Paulo. No MST-Leste 1, cerca de 75% das representações familiares são feitas por mulheres, e das 3.000 famílias participantes aproximadamente 1.403 são chefiadas por mulheres”, afirma Maria Pia de Vasconcelos Fahham.

cristiane lima rose queiroz e mariza dutra em entrevista realizada por paula constante direcao e camera e bruno augustin som em 02 jul 2017. Image © Paula Constante
cristiane lima rose queiroz e mariza dutra em entrevista realizada por paula constante direcao e camera e bruno augustin som em 02 jul 2017. Image © Paula Constante

Se considerarmos a crise financeira e a profunda desigualdade social brasileira, as mulheres periféricas são responsáveis não só pela manutenção da casa, mas também por parte da renda para mantê-la – quando não toda. Esse fato, somado ao machismo estrutural e ao risco de violência doméstica, é o combustível que aproxima as mulheres das lutas nos movimentos sociais, descobrindo assim um lugar de apoio e solidariedade que amplifica a batalha pelo direito à moradia digna. Muitas vezes, o movimento e a luta por moradia é a salvação para situações de violência e vulnerabilidade, funcionando como um caminho à liberdade. 

Frame do documentário Os Mutirões da Leste 1 107min. Image © FERA FILMES
Frame do documentário Os Mutirões da Leste 1 107min. Image © FERA FILMES

Enquanto os movimentos sociais que pautam a autogestão são movimentos formados majoritariamente por mulheres, as principais assessorias técnicas de São Paulo atualmente também contam com muitas profissionais para tocar seus projetos e obras. Não à toa, tradicionalmente, as assessorias técnicas de maneira geral têm como pressuposto o trabalho em canteiro como um espaço de trânsito entre os saberes escolarizados e os tradicionais. Essa perspectiva de desconstrução da hierarquia do canteiro de obras tradicional abre espaço para a inserção da mulher como técnica e também como trabalhadora.

Frame do documentário Os Mutirões da Leste 1 229min. Image © FERA FILMES
Frame do documentário Os Mutirões da Leste 1 229min. Image © FERA FILMES

Porém, nos lembra Joana Barros, é importante destacar que o canteiro autogestionário não é exclusivamente esse lugar libertário. Durante a semana, fora dos mutirões, o canteiro funciona como canteiro tradicional, sendo frequentado majoritariamente por homens. Já nos fins de semana as mulheres participam dos mutirões de construção, potencializando sua vivência dentro do movimento e seu empoderamento. Barros afirma que o trabalho das arquitetas nesse cenário “é um jogo complexo, delicado e violento de construção de um lugar de fala a partir da afirmação do seu lugar como mulher e como detentora do conhecimento técnico”. É necessário e desafiador acionar saberes que desestabilizam os conhecimentos tradicionais de canteiro, que são basicamente masculinos. 

© Carina Guedes e Pedro Thiago
© Carina Guedes e Pedro Thiago

Dessa forma, em uma perspectiva de construção de pensamentos de equidade, o canteiro autogestionário é uma experiência que busca corrigir os desequilíbrios existentes, atualmente não discutindo somente gênero, mas também raça, classe e sexualidade. Conforme discorrido pela USINA, nos mutirões autogestionários: 

a dimensão social do trabalho também aparece, e com ela todas as dimensões da sociabilidade. Entre elas cabe ressaltar a questão de gênero: antes de ser uma questão autônoma trazida de cima para baixo, ela aparece na prática, no momento em que as mulheres se colocam a priori como iguais. Esta mudança abrupta da sociabilidade traz diversos questionamentos no nível do cotidiano destas pessoas, do trabalho ao casamento. [...] Trata-se aqui de mudanças que se dão em diversas escalas. Na sociabilidade, na relação política entre indivíduos, na relação entre estes e a sociedade, nas relações de produção e no tipo de produto criado.

A experiência dos mutirões autogeridos ensinam que há outras possibilidades de organização e sociabilidade que fogem das lógicas capitalistas e empoderam aqueles subjugados na organização social atual. O trabalho dos arquitetos nessa construção é criar oportunidades dentro do trabalho de discussões que incentivem as pessoas a terem autonomia para buscar outras e novas formas de se organizar.

Referências:

  • TOZZI, Giovanna Furlan. Mulheres e a luta por moradia: trajetórias de empoderamento e autonomia na experiência do MST-Leste 1. Acesse aqui.
  • DURAN, Sabrina. As mulheres e o mutirão, entrevista em parceria com USINA CTAH e as mulheres do Grupo de Moradia do Jardim Natal. Acesse aqui.
  • KLERK, Khensani. O peixe morto na praia: o problema das “mulheres na arquitetura”. Acesse aqui
  • USINA Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado. Encontros USINA 25 -- #02: Quem é você pra me dizer como se faz um prédio? As mulheres e o mutirão. Acesse aqui.
  • USINA Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado. arquitetura, política e autogestão: um comentário sobre os mutirões habitacionais. Acesse aqui.
  • CAU BR, 1º Diagnóstico de “Gênero na Arquitetura e Urbanismo”. Acesse aqui.

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Sobre este autor
Cita: Giovana Martino. "As mulheres e o canteiro de obras autogestionário" 16 Out 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/969249/as-mulheres-e-o-canteiro-de-obras-autogestionario> ISSN 0719-8906

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