Quem são Lacaton & Vassal? 15 fatos sobre os vencedores do Prêmio Pritzker 2021

Quem são Lacaton & Vassal? 15 fatos sobre os vencedores do Prêmio Pritzker 2021

House in Bordeaux. Photo courtesy of Philippe RuaultMultipurpose Theater. Photo courtesy of Philippe RuaultTransformation of G, H, I Buildings, Grand Parc. Photo courtesy of Philippe RuaultLatapie House. Photo courtesy of Philippe Ruault+ 12

Com uma abordagem formal e material que se distingue do cenário que encontramos usualmente na arquitetura, Lacaton & Vassal - escritório francês que marca sua influência na contemporaneidade ao ser laureado com o Prêmio Pritzker 2021 - traz uma visão aberta e generosa à arquitetura.

Por trás de um portfólio de obras premiado, eles se destacam principalmente por seus esforços na reabilitação de edifícios habitacionais e no modo como enxergam a liberdade das pessoas que os habitam. A seguir, conheça 15 fatos por trás de suas histórias, pensamentos e projetos que servem como grande fonte de inspiração para todos aqueles que enxergam a arquitetura como uma ferramenta transformadora da vida.

Anne Lacaton and Jean-Philippe Vassal. Photo courtesy of Laurent Chalet
Anne Lacaton and Jean-Philippe Vassal. Photo courtesy of Laurent Chalet

1. Anne Lacaton (1955, Saint-Pardoux, França) e Jean-Philippe Vassal (1954, Casablanca, Marrocos) se encontraram no final dos anos 70 durante suas graduações em arquitetura na École Nationale Supérieure d'Architecture et de Paysage de Bordeaux. Hoje, ambos trabalham e residem em Paris.

2. Lacaton prosseguiu com um mestrado em planejamento urbano pela Universidade Bordeaux Montaigne (1984), enquanto Vassal se mudou para o Níger, África Ocidental, para praticar planejamento urbano. Lacaton visitava frequentemente seu parceiro, e foi lá que a gênese do pensamento arquitetônico do escritório iniciou, pois eles foram profundamente influenciados pela humildade em poupar recursos dentro das paisagens desérticas do país.

"O Níger é um dos países mais pobres do mundo, e o povo é tão incrível, tão generoso, fazendo quase tudo sem nada, encontrando recursos o tempo todo, mas com otimismo, cheio de poesia e inventividade. Foi realmente uma segunda escola de arquitetura", lembra Vassal.

Lacaton nos conta, na Oris - nº 24 (2003), que houve um choque quando chegaram ao Níger, pois não havia arquitetura no sentido em que a aprenderam. Ver casas muito simples e básicas com telhados de palha e construção em terra foi "como um terremoto na mente". Ela diz que após alguns meses eles estavam completamente livres do que haviam aprendido e começaram a observar e analisar os detalhes e como as pessoas viviam em seu contexto, enchendo a mente com exemplos que mudaram seus conceitos sobre arquitetura.

Transformation of G, H, I Buildings, Grand Parc. Photo courtesy of Philippe Ruault
Transformation of G, H, I Buildings, Grand Parc. Photo courtesy of Philippe Ruault

3. Em Niamey, Níger, Lacaton e Vassal construíram seu primeiro projeto em conjunto, uma cabana de palha, construída com galhos de arbustos de origem local, o que produziu uma surpreendente impermanência, cedendo ao vento dentro de dois anos após a conclusão. Eles prometeram nunca demolir o que poderia ser redimido e, em vez disso, tornar sustentável o que já existe, estendendo-se assim através da adição, respeitando o luxo da simplicidade, e propondo novas possibilidades.

4. Eles estabeleceram o escritório Lacaton & Vassal em Paris (1987), e desde então têm demonstrado ousadia através de seus projetos seja em novas construções ou reformas transformadoras. Por mais de três décadas, eles projetaram habitações privadas e sociais, instituições culturais e acadêmicas, espaços públicos e estratégias urbanas. A arquitetura da dupla reflete sua defesa da justiça social e sustentabilidade, priorizando a generosidade do espaço e a liberdade de uso através de materiais econômicos e ecológicos. Segundo o Júri do Pritzker: "Eles começam cada projeto com um processo de descoberta que inclui observar intensamente e encontrar valor no que já existe".

Multipurpose Theater. Photo courtesy of Philippe Ruault
Multipurpose Theater. Photo courtesy of Philippe Ruault

5. Lacaton & Vassal desenvolve os projetos de dentro para fora. Eles tentam imaginar como as pessoas vão se mover e viver nos interiores. A pergunta sobre como abordar o exterior oferece respostas de acordo com que tipo de relações você quer estabelecer entre o interno e externo, como, por exemplo, "se você quer ver ou não, se você quer ser visto ou não". Assim, para eles, a fachada e seus materiais vêm muitas vezes no final do processo projetual. 

6. Como Andrew Ayers escreve na The Architectural Review N°1463 (2019), "O arquivo mental da dupla inclui as estufas de aclimatação dos jardins botânicos do século XIX, que sugerem todas as possibilidades inerentes aos espaços intermediários que são uma marca registrada de sua obra". Esta declaração destaca uma das principais fontes de inspiração da dupla para proporcionar bem-estar físico e emocional. A Latapie House em Floirac, França (1993) foi o primeiro projeto em que eles trabalharam depois de voltarem do Níger. Foi também a primeira intervenção na qual foram aplicadas tecnologias de estufa para criar condições bioclimáticas. Lacaton & Vassal utilizaram o sol, em harmonia com a ventilação natural, sombreamento e isolamento solar, para criar microclimas ajustáveis e desejáveis.

Latapie House. Photo courtesy of Philippe Ruault
Latapie House. Photo courtesy of Philippe Ruault

"Desde muito cedo, estudamos as estufas dos jardins botânicos com suas impressionantes plantas frágeis, a bela luz e transparência, e a capacidade de simplesmente transformar o clima ao ar livre. É uma atmosfera e um sentimento, e estávamos interessados em trazer essa delicadeza para a arquitetura", compartilha Lacaton. 

Latapie House. Photo courtesy of Philippe Ruault
Latapie House. Photo courtesy of Philippe Ruault

7. Tanto através da nova construção como da transformação de edifícios, honrar o pré-existente é autêntico ao seu trabalho. Uma residência particular em Cap Ferret, França (1998) foi construída em um lote não desenvolvido ao longo da baía de Arcachon, com o objetivo de perturbar o mínimo possível o ambiente natural. Ao invés de remover as 46 árvores do local, os arquitetos cultivaram a vegetação nativa, elevando a casa e construindo ao redor dos troncos que a cruzavam, permitindo que os moradores vivessem entre a vida vegetal.

Lacaton explica, "o pré-existente tem valor se você tomar o tempo e o esforço para analisá-lo cuidadosamente. Na verdade, é uma questão de observação, de se aproximar de um lugar com olhos frescos, atenção e precisão... para compreender os valores e as carências, e para ver como podemos mudar a situação, mantendo todos os valores do que já existe". 

Cap Ferret House. Photo courtesy of Lacaton & Vassal
Cap Ferret House. Photo courtesy of Lacaton & Vassal

8. Em uma entrevista com Ioana Zacharias Vultur para a Zeppelin n°148 (2019), Anne Lacaton fala sobre como a cinematografia influenciou seu trabalho: "O diretor de cinema constrói seu filme sobre 'uma série de micro-sequências' e há sempre 'movimento': cada sequência cria espaços. Estas sequências não têm em geral uma continuidade espacial na realidade ou a proximidade do real. É o trabalho de montagem que cria unidade, que fabrica um lugar, composto de todas essas sequências. Na verdade existem 'fragmentos de espaço', e a concepção do projeto é a montagem e a maneira como passamos de um fragmento para o outro, como criamos junções, umbrais. Para nós isso é 'a produção do espaço' e a arquitetura".

9. Conhecidos como inventores de uma nova abordagem de concepção de habitação social, segundo Anne Lacaton, esse termo "não deve constituir uma categoria específica", uma vez que "trabalhar no contexto de operações subsidiadas não requer uma mudança na própria maneira de pensar e de imaginar as melhores condições de vida possíveis para as pessoas".

Transformation of G, H, I Buildings, Grand Parc. Photo © Laurian Ghinitoiu
Transformation of G, H, I Buildings, Grand Parc. Photo © Laurian Ghinitoiu

10. Ao longo de suas carreiras, os arquitetos rejeitaram trabalhar com planos urbanos que exigiam a demolição de moradias sociais, concentrando-se em projetar de dentro para fora a fim de priorizar o bem-estar dos habitantes de um edifício e seus desejos unânimes por espaços maiores. Ao lado de Frédéric Druot e Christophe Hutin, Lacaton & Vassal transformaram 530 unidades em três edifícios no Grand Parc em Bordeaux, França (2017), para atualizar as funções técnicas, mas mais notavelmente, para adicionar espaços generosos e flexíveis a cada unidade sem deslocar seus moradores durante a construção, e mantendo a estabilidade do aluguel para os moradores.

"Nós nunca vemos o existente como um problema. Olhamos com olhos positivos porque há uma oportunidade de fazer mais com o que já temos", afirma Lacaton. "Fomos a lugares onde edifícios teriam sido demolidos e conhecemos pessoas, famílias que estavam apegadas às suas casas, mesmo que a situação não fosse a melhor. Na maioria das vezes eles se opunham à demolição porque desejavam permanecer em seu bairro. É uma questão de gentileza", continua Vassal. 

Esta renovação inovadora de três grandes blocos de habitação social foi premiada com o 2019 European Union Prize for Contemporary Architecture – Mies van der Rohe Award. O projeto foi elogiado por "melhorar radicalmente o espaço e a qualidade de vida de seus ocupantes" e por otimizar seu custo de vida econômico e ambiental.

11. Ambos arquitetos também são ativos no campo da educação de Arquitetura. Lacaton é professora associada de Arquitetura e Design no Swiss Federal Institute of Technology ETH Zurich desde 2017 e professora visitante em outras universidades na Europa e nos EUA. Vassal é professor associado da Universität der Künste Berlin desde 2012 e já lecionou em outras universidades na Alemanha e na França, incluindo sua alma mater. Juntos, eles já foram professores visitantes na Itália, França e Suíça.

Anne Lacaton já mencionou que ela usa um método de projeto com seus alunos baseado na construção de uma coleção de fragmentos de espaços. Na verdade, "cada fragmento fala a uma qualidade do espaço: uso, relação com outros espaços, atmosferas, sensações".

École Nationale Supérieure d’Architecture de Nantes. Photo courtesy of Philippe Ruault
École Nationale Supérieure d’Architecture de Nantes. Photo courtesy of Philippe Ruault

12. O escritório já imaginou diversas maneiras pelas quais um edifício pode fazer parte da educação arquitetônica. Além do projeto de destaque da Escola de Arquitetura de Nantes, em concursos internacionais, o escritório apresentou diferentes propostas para escolas de arquitetura: NEW AARCH - Escola de Arquitetura em Aarhus (2016), Escola de Arquitetura LOCI em Tournai (2014), Escola de Arquitetura em Paris Val de Seine (2002), Escola de Arquitetura em Compiègne (1997).

13. Parte do refinamento dos projetos de Lacaton & Vassal está na escolha dos materiais, na abordagem e nas pesquisas que realizam. “Para nós não se trata de material barato e caro. O material é interessante ou não", afirma Lacaton. Na mesma entrevista ela apresenta o exemplo da Latapie House, em que eles não tentaram encontrar apenas um material barato, mas um que estivesse de acordo com suas intenções. Neste caso, o plástico foi escolhido por proporcionar coberturas e paredes translúcidas de grandes dimensões, com poucas estruturas, por ser muito leve e econômico. Outro exemplo de sua abordagem na pesquisa de materiais nos leva a 2002, quando propuseram novos usos para elementos de cerâmica na construção civil. O projeto envolveu a criação de componentes de porcelana para revestimento de elementos estruturais em aço, protegendo-os contra o fogo.

53 Units, Low-Rise Apartments, Social Housing. Photo courtesy of Philippe Ruault
53 Units, Low-Rise Apartments, Social Housing. Photo courtesy of Philippe Ruault

14 - Em 2018, Lacaton & Vassal participou da 16ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza, ocupando uma sala no Pavilhão Central. A mostra geral teve curadoria das arquitetas do Grafton Architects – laureadas com o Prêmio Pritzker 2020. Intitulada Freedom of Use, ou Liberdade de Uso, a exposição consistiu em uma “escavação profunda em cada projeto para encontrar um novo entendimento, uma forma de liberar componentes latentes e não descobertos, de forma que cada projeto seja revigorante e criativo, simultaneamente alegre e sério. (...) Para eles, generosidade de espaço, liberdade de uso e economia são valores indissociáveis”, como podemos ver no vídeo a seguir.

15 - Para além do prêmio de 2019 concedido pela Fundació Mies van der Rohe, Lacaton & Vassal já foi foi homenageado com o Grande Prêmio BDA de 2020; o Prêmio Global de Arquitetura Sustentável, Cité de l’Architecture & du Patrimoine, 2018, juntamente com Frédéric Druot; a Académie d’Architecture Gold Medal, 2016; a Medalha Heinrich Tessenow, 2016; o Prêmio Rolf Schock de Artes Visuais, 2014; o Prêmio Daylight & Building Components, da Villum Foundation e Velux Foundation, 2011; o International Fellowship do Royal Institute of British Architects, 2009; o Grand Prix National d'Architecture, França, 2008; o Schelling Architecture Award, 2006; e o Prêmio da Trienal de Lisboa pelo Conjunto da Obra em 2016.

House in Bordeaux. Photo courtesy of Philippe Ruault
House in Bordeaux. Photo courtesy of Philippe Ruault

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Sobre este autor
Cita: Delaqua, Victor. "Quem são Lacaton & Vassal? 15 fatos sobre os vencedores do Prêmio Pritzker 2021" [Who Are Lacaton & Vassal? 15 Things to Know About the 2021 Pritzker Architecture Laureates] 21 Mar 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/958577/quem-sao-lacaton-and-vassal-15-fatos-sobre-os-vencedores-do-premio-pritzker-2021> ISSN 0719-8906

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