2020: O fim do século XX na arquitetura

2020: O fim do século XX na arquitetura

Toda vez que nos aproximamos do final do ano ouvimos as pessoas dispararem aos quatro ventos: “o mundo já não é mais o mesmo”. Acontece que, no epílogo do ano de 2020, esta profecia parece enfim, soar como algo verdadeiro. Embora tenhamos visto centelhas de esperança ao longo dos últimos meses, a pandemia de coronavírus definitivamente está provocando uma mudança de paradigma na arquitetura.

Na minha opinião, 2020 representará o fim do século XX na arquitetura. Isso porque mudanças radicais na nossa disciplina nunca coincidem com datas exatas e números redondos. O modernismo, como exemplo máximo disso, nasceu em um momento onde as monarquias ocidentais estavam em queda e com a efervescência de um mundo imerso em plena revolução industrial. É importante lembrar que o modernismo na arquitetura é uma decorrência deste contexto e não a sua razão.

Hoje, um século depois, esta estética quase inquestionável na arquitetura pode finalmente estar chegando ao fim. No contexto dos principais escritórios de arquitetura do mundo, sempre houve uma busca quase desesperada por construir edifícios relevantes e originais. O paradoxo da arquitetura como um luxo supérfluo encontrou seu status quo exatamente no século XX, tendo sido considerada uma ferramenta, ou até uma condição, para a transformação sócio-cultural e para a construção de um futuro mais brilhante e “moderno”.

Entretanto, depois de passarmos quase um ano inteiro trancafiados dentro de casa, aquilo que antes era visto como um bem de valor cultural e coletivo, parece estar adquirindo um significado menos abrangente e mais pessoal. O apelo social de um edifício magnificente em sua arquitetura—tão comum segundo o cânone arquitetônico do século XX—parece estar perdendo a relevância que lhe era tão oportuna. A maneira como levamos nossas vidas e, consequentemente, como concebemos e construímos nossos edifícios e cidades foi completamente contestada durante este ano de 2020. Sobrevivemos à um ano de muitas incertezas e mudanças, um ano onde fomos forçados à encarar de frente nossos medos e traumas, que nos fez ter que lidar com nossos próprios problemas e questões latentes: qual o significado da vida? Indiscutivelmente, o futuro nunca nos pareceu tão incerto e imprevisível, pelo menos desde a última crise existencial da era moderna: o pós Segunda Guerra Mundial.

Fibras Orientadas Office / Juan Alberto Andrade + María José Vascones. Image © JAG Studio
Fibras Orientadas Office / Juan Alberto Andrade + María José Vascones. Image © JAG Studio

Nada disso, 2021 será um ano diferente! Cada um de nós, habitantes dos quatro cantos do planeta, por pelo menos mais um ano, teremos de seguir lidando com a incerteza do futuro e com a sensação de perda que o acompanha. Desde o início da segunda metade do século XX, a estética na arquitetura assumiu um valor de bem cultural indiscutível. A arquitetura contemporânea, por outro lado, deixou de derivar de seu próprio contexto para ser a sua própria razão de si.

Ao invés de simplesmente perpetuar aquilo que fazíamos antes, cada vez mais somos confrontados com a forma como queremos levar nossas vidas. Isso definitivamente também afeta a maneira como nos relacionamos com a arquitetura. O culto à originalidade e à extravagância desapareceu quase por completo neste ano de 2020. O mundo da arquitetura deixou de celebrar tão ostensivamente suas monumentais conquistas. No lugar do rolo compressor da arquitetura, dirigido por uma pequena elite de arquitetos-estrela que julgam a nossa disciplina de cima para baixo, mais projetistas, arquitetos e arquitetas, assim como clientes, estão procurando entender seus próprios valores, ao invés de apenas dizer “sim” àquilo que eles nos dizem que é certo.

HOM, a portable workspace designed by Atelier Marko Brajovic in partnership with the agency ℓiⱴε (Live) and Oca Brasil. Image © Alexander Bogorodskiy
HOM, a portable workspace designed by Atelier Marko Brajovic in partnership with the agency ℓiⱴε (Live) and Oca Brasil. Image © Alexander Bogorodskiy

Como é que eu posso afirmar algo assim categoricamente? Como quase todas as previsões para 2020 falharam miseravelmente, a realidade tem um tom mais anedótico:

A maioria das faculdades dos Estados Unidos assistiram a uma significativa queda no número de alunos matriculados. Instituições culturais, responsáveis por promover e disseminar o conhecimento e a cultura estão praticamente paradas e inoperantes.

Por outro lado, o consumo de livros aumentou consideravelmente neste mesmo período—os textos até certo ponto desconhecidos (e também caros) de Christopher Alexander nunca venderam tão bem. Pequenos escritórios de arquitetura voltados à construção de casas unifamiliares e edifícios residenciais estão crescendo a um ritmo acelerado, enquanto o comércio nas cidades parece ter tocado o fundo do poço.

Neste complexo e desafiador ano de 2020, parece que o interesse no conceito de “beleza” voltou com tudo. Em um campo onde antes reinava absoluta e indiscutivelmente a figura do arquiteto-estrela, o ano da pandemia nos trouxe um pouco mais de diversidade. Este é o assunto de “Built Beautiful”, um novo documentário do NOVA que será lançado na primeira metade deste ano de 2021.

A patética postura de “não se mexe em time que está vencendo” quando o mundo inteiro parece ter virado de cabeça para baixo simplesmente ignora o fato de que períodos de grandes mudanças trazem consigo novas oportunidades. Se nossas escolhas fossem baseadas apenas em resultados, nosso maior patrimônio cultural e social seria de fato, as casas de apostas. E é nesta imprevisibilidade que reside a “beleza” da vida, a beleza da arquitetura que, como parte fundamental da condição humana, também se transforma de acordo com o contexto específico que a humanidade atravessa em um determinado momento.

No ano de 1920, em meio aos caos da penúltima pandemia que sacudiu o mundo, Warren G. Harding foi eleito presidente dos Estados Unidos. O slogan “Retorno à Normalidade” de fato nunca chegou a se concretizar. Muito pelo contrário. Hoje todos nós sabemos como a década de 20 terminou e, pior do que isso, o que a década de 30 nos trouxe e como entramos na década de 40.

Obviamente, ninguém sabia o que o futuro reservava para a humanidade no final do fatídico ano de 1920. Hoje, após enterrarmos os fantasmas de 2020, tampouco o futuro nos parece mais claro e previsível. Mas se há algo que podemos afirmar neste momento é que o século XX parece finalmente ter chegado ao fim.

Convidamos você a conferir a cobertura do ArchDaily relacionada à COVID-19, ler nossas dicas e artigos sobre Produtividade ao trabalhar em casa e aprender sobre as recomendações técnicas para criar uma arquitetura saudável em seus futuros projetos. Além disso, lembre-se de revisar os conselhos e informações mais recentes sobre COVID-19 no site da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sobre este autor
Cita: Dickinson, Duo. "2020: O fim do século XX na arquitetura" [2020: The End of the 20th Century in Architecture] 07 Jan 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/954320/2020-o-fim-do-seculo-xx-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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