Wang Shu e a reciclagem de materiais na arquitetura chinesa contemporânea

Wang Shu e a reciclagem de materiais na arquitetura chinesa contemporânea

Ao longo dos dois últimos séculos, a China passou por um vertiginoso processo de expansão demográfica e urbana, resultando na completa descaracterização de sua paisagem histórica, onde inúmeras pequenas cidades e vilarejos acabaram sendo varridos do mapa, substituídos por novas infra-estruturas urbanas e edifícios cada vez mais altos. À medida que a antiga paisagem chinesa vai desaparecendo sob o novo tecido urbano da China do século XXI, importantes elementos da cultura cívica e social também estão sendo esquecidos e negligenciados. Wang Shu, o primeiro arquiteto chinês a ser galardoado com o Prêmio Pritzker, tem lidado com esta delicada situação cotidianamente desde o início de sua carreira, desenvolvendo uma arquitetura que busca construir pontes entre o passado e o presente. Utilizando materiais reciclados e recuperados de antigas estruturas abandonadas ou destruídas, Wang Shu está resignificando a arquitetura tradicional chinesa no contexto de um país em rápido e incansável processo de desenvolvimento e expansão urbana. A seguir, discutiremos algumas das principais obras construídas por Wang Shu, como o Museu de arte contemporânea (2005) e o Museu Histórico de Ningbo (2008), e o Campus da Nova Academia de Arte de Hangzhou (2004).

Rebirth Brick. Imagem Cortesia de Jiakun Architects
Rebirth Brick. Imagem Cortesia de Jiakun Architects

Na ocasião da entrega do Prêmio Pritzker de Arquitetura de 2012, o juri declarou: “a proposta de Wang Shu em construir novas relações entre o passado e o presente é particularmente oportuna neste contexto, pois o recente processo de urbanização na China nos convida a debater se a arquitetura contemporânea deve estar ancorada na tradição ou se deve apenas olhar para o futuro.” Sem sombra de dúvida, o avassalador crescimento econômico da China ao longo dos últimos anos muito se deve ao recente processo de urbanização do país, uma receita composta por construção massiva de infra-estrutura urbana e arranha-céus. Entretanto, este avassalador processo de crescimento urbano não trás apenas benefícios para o país e seus habitantes, muito pelo contrário. Antigos vilarejos e pequenas comunidades rurais estão sendo demolidas dia após dia, e com elas, a memória coletiva também vai se perdendo, tradições que foram passadas de geração em geração também estão desaparecendo aos poucos. De fato, os arquitetos passaram a ser os principais responsáveis por preservar estas memórias — para que uma parte fundamental da história e cultura deste país não se perca para sempre.

Rebirth Brick. Imagem Cortesia de Jiakun Architects
Rebirth Brick. Imagem Cortesia de Jiakun Architects

Neste contexto, o projeto do Museu Histórico de Ningbo, desenvolvido por Wang Shu em colaboração com sua esposa e parceira Lu Wenyu e inaugurado em 2008, representa uma monumental contribuição para a preservação desta história. Segundo a dupla de arquitetos, eles buscaram inspiração nos processos compositivos utilizados pelos tradicionais pintores chineses, primeiramente estudando a configuração da paisagem, seja ela urbana, natural ou uma mistura das duas coisas. Então, à medida passamos a melhor compreender a estrutura da paisagem onde um projeto será inserido, o edifício se materializa naturalmente em nossa mente, a partir de um profundo entendimento e respeito por seu contexto.

Amateur Architecture Studio, Ningbo History Museum, 2008. . Imagem Cortesia de Louisiana
Amateur Architecture Studio, Ningbo History Museum, 2008. . Imagem Cortesia de Louisiana

Para o projeto do Museu Histórico de Ningbo, a dupla concebeu a fachada do edifício como se fosse a seção de uma montanha, composta por camadas de telhas de barro, pedras e concreto armado. Ao reaproveitar os detritos dos antigos edifícios existentes no local, Wang procura chamar a atenção para um passado quase esquecido, ressignificando o substrato da memória em elementos fundamentais da estrutura do novo edifício, resíduos descartáveis que o arquiteto utiliza e incorpora na construção da cofragem permanente da estrutura de concreto do edifício, cimentando a história na própria arquitetura.

Ningbo History Museum, 2008. . Image © Clement Guillaume
Ningbo History Museum, 2008. . Image © Clement Guillaume

“O contexto, em certa medida, é mais importantes do que a própria arquitetura”, argumenta Wang, “é a arquitetura que deve prestar homenagem à paisagem, e não o contrário.” O Museu Histórico de Ningbo é uma estrutura construída a partir das reminiscências daquilo que antes ali existia, resíduos corporificados em uma nova fortaleza de concreto, um lugar de memória que desenterra um passado negligenciado, opondo-se à lógica da cidade contemporânea. Dessa forma, o edifício do Museu Histórico de Ningbo encontra ressonância em seu contexto histórico e cultural, em sua materialidade e imaterialidade.

Amateur Architecture Studio, Ningbo History Museum, 2008. . Imagem Cortesia de Louisiana
Amateur Architecture Studio, Ningbo History Museum, 2008. . Imagem Cortesia de Louisiana

Wang Shu é o principal defensor de uma “poética da reciclagem” na arquitetura. O arquiteto afirma que “um edifício não se materializa apenas durante a sua fase de construção, ele deve florescer com o tempo.” Opondo-se drasticamente aos herméticos arranha-céus da China do século XXI, a obra de Wang Shu encontra-se profundamente enraizada nas tradicionais técnicas construtivas chinesas. Ao conectar-se com os artesãos locais, Wang nos convida à redescobrir os materiais mais tradicionais, trazendo-os de volta à superfície depois de muito tempo esquecidos. Durante o desenvolvimento do projeto, o arquiteto procura descobrir a procedência destes antigos materiais, solicitando a participação e o engajamento das comunidades locais no processo de construção.

Para o projeto do Campus da Nova Academia de Arte de Hangzhou, outro importantíssimo edifício concebido por Wang Shu e Lu Wenyu, os arquitetos adotaram um sistema construtivo local utilizado na construção dos muros de pedra dos campos de chá de Hangzhou. Através desta abordagem, eles procuraram ancorar simbolicamente o edifício na paisagem histórica e cultural da região. Wang projetou um muro composto por uma coleção de antigos tijolos e telhas de barro recicladas com 20 dimensões diferentes, além de corrimãos feitos de estrutura mista em aço e bambu.

China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. . Imagem Cortesia de Louisiana
China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. . Imagem Cortesia de Louisiana

“Queremos criar uma arquitetura voltada para as pessoas, adequada em suas relações de escala e uso. Procuramos privilegiar o uso materiais naturais e locais, como se o edifício brotasse da própria terra, enraizado em seu contexto cultural, social e natural. Não queremos que este edifício pareça deslocado, trazido de longe. Outro dado importante, é que com o passar do tempo, o edifício pareça cada vez mais adequado ao seu contexto, evoluindo no tempo e com o tempo”, disseram Wang Shu e Lu Wenyu durante entrevista à CNN realizada em seu escritório de arquitetura, o Amateur Architecture Studio. O emprego de materiais locais, encontrados nos arredores do canteiro de obras e processados pelas mãos dos principais artesãos locais, também é um fator determinante para que estes edifícios encontrem ressonância em seu contexto específico.

Wa Shan Guesthouse / China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. Imagem Cortesia de Louisiana
Wa Shan Guesthouse / China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. Imagem Cortesia de Louisiana

É importante ressaltar que, quando a arquitetura é consciente de sua relação com o entorno, ela não é vista apenas como uma simples construção, mas como um elemento constituinte da própria paisagem. Por exemplo, quando Wang Shu propôs a construção de uma casa de hóspedes no campus de Xiangshan, enfatizando os elementos característicos dos edifícios existentes com as suas fachadas revestidas de bambu e paredes de terra batida, ele procura adaptar-se ao entorno ao invés de impor-se à ele.

Wa Shan Guesthouse / China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. Imagem Cortesia de Louisiana
Wa Shan Guesthouse / China Academy of Art Xiangshan Campus, Hangzhou, 2013. Imagem Cortesia de Louisiana

A estrutura da pousada — ou casa de hóspedes — do Campus de Xiangshan ilustra a intenção dos arquitetos em “desenhar” o edifício a partir do local, ao invés de “projetá-lo” sobre ele. O edifício foi concebido como uma espécie de “paisagem vertical”, simulando as tradicionais pinturas de paisagens chinesas, conhecidas por suas seqüências espaciais sobrepostas. Quando utilizamos inúmeros materiais para construir um edifício, justapondo-os em camadas sobre camadas, procuramos criar espaços flexíveis e adaptáveis à diferentes usos e programas, transformando a arquitetura contemporânea em uma expressão poética do passado.

Cortesia de Lars Müller Publishers
Cortesia de Lars Müller Publishers

A pesar de ter recebido importantes comissões ao longo dos últimos anos, na China, arquitetos como Wang Shu ainda dependem muito do apoio do governo local, sendo praticamente invisíveis aos olhos das grandes incorporadoras. No final das contas, projetos como estes só chegam a ver a luz do dia quando há uma estreita colaboração entre os arquitetos, a comunidade e as autoridades locais.

Em relação ao Museu de Arte Contemporânea de Ningbo, implantado na antiga área portuária da cidade de Ningbo, os arquitetos afirmam que este projeto é “um belo exemplo de um processo colaborativo desenvolvido entre arquitetos e autoridades locais.” Foi somente por causa do apoio incondicional do governo local que o projeto do Museu pode ser concretizado tal e como os arquitetos haviam idealizado. Embora muitos edifícios históricos do antigo porto tenham sido demolidos por questões de segurança, Wang Shu e Lu Wenyu tentaram reconstruir a “essência original do espaço”, incorporando os tijolos do edifício demolido para construir a base do edifício principal do Museu.

Amateur Architecture Studio, Ningbo Contemporary Art Museum, 2005. . Imagem Cortesia de Lv Hengzhong
Amateur Architecture Studio, Ningbo Contemporary Art Museum, 2005. . Imagem Cortesia de Lv Hengzhong
Amateur Architecture Studio, Ningbo Contemporary Art Museum, 2005. . Imagem Cortesia de Lv Hengzhong
Amateur Architecture Studio, Ningbo Contemporary Art Museum, 2005. . Imagem Cortesia de Lv Hengzhong

Para concluir, a obra construída de Wang Shu e Lu Wenyu nos ensina que através do reaproveitamento de materiais tradicionais, é possível construir uma nova relação não apenas com o meio ambiente, mas com a tradição construtiva local e a história do lugar. Como arquitetos e arquitetas que somos, também fazemos parte da história, e desta forma, uma arquitetura atemporal e profundamente enraizada em seu contexto específico é responsabilidade de todos nós.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Reciclagem de Materiais. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais aqui. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Miao, Scarlett. "Wang Shu e a reciclagem de materiais na arquitetura chinesa contemporânea" [Amateur Architecture Studio’s Works on Contemporary Chinese Architecture with Recycled Materials] 12 Jul 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/943112/wang-shu-e-a-reciclagem-de-materiais-na-arquitetura-chinesa-contemporanea> ISSN 0719-8906

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