Arquitetura e economia circular na era dos espaços compartilhados

Arquitetura e economia circular na era dos espaços compartilhados

A economia circular tem sido um modelo também aplicado no setor de arquitetura e construção com objetivo de produzir projetos de edificações mais eficientes, funcionais e sustentáveis. Os 3R’s (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) utilizados como estratégias da economia circular já estão famosos, sendo que o primeiro R, “Reduzir", deve ser o item inicial buscado nos projetos. Nessa ótica, um dos itens mais eficientes para reduzir o consumo de materiais, recursos naturais e custos nos projetos de edificações é a diminuição do tamanho dos ambientes ocupados e da área construída (isto é, mantendo os níveis adequados de qualidade do espaço, como acessibilidade, ventilação e iluminação natural, compatibilidade com o layout, etc.).

Espaços biofílicos, com uso de ventilação e iluminação natural.  Imagem © Hirouyki OkiUso de painéis fotovoltaicos. Imagem © Ivar KvaalDivisórias de madeira. Imagem: © Haruo MikamiÁrea comum no WeWork em Londres. Imagem © WeWork+ 9

Essa é uma tendência que tem sido observada em muitos projetos como alternativa ao maior adensamento do espaço urbano devido entre outros fatores aos elevados custos de moradia. Em alguns países, observa-se que cidades estão sendo “esvaziadas” com o envelhecimento da população e saída do grupo mais jovem para locais onde existe maiores oportunidades, que, normalmente são cidades mais conectadas à economia global e altamente densificadas. Dessa forma, cidades mais compactas e densamente ocupadas tendem a ser o modelo buscado seja pela busca de locais concentradores de empregos e oportunidades, questões relacionadas à eficiência de recursos e mudanças climáticas ou, recentemente, pela a crise sanitária causada pelo COVID-19. É nesse tipo de organização espacial que é possível encontrar com maior facilidade o acesso a diversos serviços essenciais, como energia, água, saúde, infraestrutura, comunicação, etc. e maior proximidade com os locais de oferta de emprego.

Somado a isso, o modelo que conhecemos de sociedade está mudando, em que uma parcela grande da população permanecerá solteira, sem filhos e muitas vezes solitária. Nesse sentido, é de se esperar que muitos dos projetos atuais não conseguirão atender bem as necessidades dessa “nova” sociedade.

Cidades globais, o exemplo de Kuala Lumpur, Malásia. Imagem © iwillbehomesoon, via Flickr. Licença Creative Commons
Cidades globais, o exemplo de Kuala Lumpur, Malásia. Imagem © iwillbehomesoon, via Flickr. Licença Creative Commons

Compartilhamento de espaços: coworking, cohousing, coliving e co-lares  

A partir do contexto apresentado, o modelo de compartilhamento ou sharing (que também é uma estratégia importante da economia circular) de espaços parecia ser cada vez mais oportuno e aceito pela sociedade (atual e futura). O novo questionamento é, será que esta forma de pensar o ambiente construído continuará a ser uma tendência pós-COVID-19? Por um lado, a necessidade de isolamento das pessoas, para evitar a contaminação do vírus, e, por outro a importância do contato humano e físico para o bem estar social dos indivíduos. Dessa forma, o que esperar? 

Como o ser humano é uma espécie altamente social e pensando em um futuro com maior necessidade de projetos mais eficientes (entre outros fatores, devido à falta de espaço nos grandes centros urbanos, escassez de recursos, impactos causados pelas mudanças climáticas, etc) acredita-se que esse compartilhamento de espaços não entrará em colapso, e, sim haverá uma evolução e adaptação desse modelo. Por exemplo, com o uso de tecnologias de desinfecção, como cabines de ozônio ou ultravioleta, aumento de tecnologias touchless, uso de sensores ligados a dispositivos da internet das coisas (IoT) e inteligência artificial (IA) para visualização em tempo real do risco de contaminação e nível de qualidade do ar do ambiente. Outro aspecto importante será a forma de gestão desses espaços, que muitas vezes é realizada por empresas especializadas, também chamadas de facilities managers, que já estão criando procedimentos de segurança mais rígidos e inteligentes. 

É esperado também que muitas pessoas, principalmente aquelas que moram em grandes centros urbanos, busquem formas menos rígidas de vida, seja na forma de contratos de aluguel ou na forma de adaptar seus espaços (privados ou comunitários). O isolamento social mudou e está mudando completamente a forma de usar esse espaço, que agora é utilizado além dos serviços básicos, para praticar exercícios físicos, home office, lazer ou até mesmo servindo de estúdio para fazer shows e apresentações artísticas.  

Dessa forma os projetos “co”, como coworking, coliving, cohousigng e co-lares tendem ainda ser buscados e, talvez ganhando ainda mais espaço no futuro próximo. Coworkings são os mais comuns, já sendo comercializado por grandes empresas e bancos como WeWork, Google (Google for Startups em São Paulo) e Itaú (Cubo), como uma grande influência do boom de modelos de negócio do tipo startups. O coworking por definição significa o compartilhamento do espaço, recursos e outros serviços (internet, telecomunicações, cafés ,etc.) relacionados ao trabalho. Muitas tipologias de edificações já possuem seus espaços dedicados ao coworking, como shoppings, hotéis, uso misto (residencial e comercial) ou até mesmo edificações inteiras com ambientes de coworking.

Área comum no WeWork em Londres. Imagem © WeWork
Área comum no WeWork em Londres. Imagem © WeWork

O co-housing e o co-living são semelhantes entre si pois são destinados à moradia, no entanto, estruturalmente diferentes. O co-housing teve sua origem na Dinamarca, em meados de 1960. No co-housing as pessoas moram em uma mesma área ou terreno, em que cada morador tem sua própria moradia, compartilhando alguns espaços comuns (como jardim, cozinha, área de lazer etc.). O segundo é caracterizado pela divisão da mesma edificação ou casa, com seus ambientes individuais (quarto, banheiro etc.) preservados, mas com um maior grau de compartilhamento das áreas comuns (cozinha, sala de estar, escritório entre outros). Uma diferença importante entre eles, é que, no co-housing, os moradores são mais responsáveis pelo planejamento e no desenvolvimento dos espaços e atividades, enquanto no co-living, normalmente, a moradia e os serviços são desenvolvidos e oferecidos como serviços por uma empresa (CELERE, 2018).

O co-living, em especial, tem despertado o interesse principalmente do grupo de pessoas mais jovens e solteiras (na casa dos 30 anos), que já possuem sua independência financeira, que buscam ter uma vida mais flexível e prezam por uma moradia moderna e funcional, de boa localização (próxima ao trabalho e atividades cotidianas), com facilidade e variedade nas opções de serviço oferecidos. Um projeto famoso é o “The Collective Old Oak” um dos maiores co-livings do mundo, localizado em Londres (CELERE, 2018).

Exemplo de Co-living. Cortesia de WeLive
Exemplo de Co-living. Cortesia de WeLive

Os co-lares são especialmente destinados a pessoas mais idosas ou que que querem ter uma vida menos solitária, formada por um conjunto de moradias autônomas e próximas, com espaços de uso comum (cozinhas, áreas de lazer, etc.). É comum ocorrer entre diferentes moradores de uma mesma vizinhança, sendo necessária uma gestão adequada. Os co-lares poderiam ser uma alternativa e evolução dos asilos e espaços de repouso? Esse tipo de organização parece ser bastante interessante e funcional, ainda mais se formos considerar que grande parte da população está envelhecendo e não possuirá família ou filhos.  

Do ponto de vista da economia circular  todos esses espaços têm em comum: (1) a redução da área construída utilizada pela pessoa, ou em outras palavras diminuição do consumo de materiais e dos impactos ambientais do ciclo de vida devido a construção da edificação: (2) uma divisão das contas de energia, água, limpeza e etc que tende a ficar muito menos onerosa quando comparada ao modelo convencional de apartamentos ou escritórios; (3) normalmente esses espaços são projetados para serem adaptáveis e multifuncionais; (4) as edificações ou espaços passam a ser vistas como serviço e não como produtos; (5) benefícios sociais diretos e indiretos, como ajuda mútua entre os diferentes usuários (moradores ou trabalhadores da edificação ou conjunto habitacional).  

Estratégias de projeto e especificação de materiais

Algumas estratégias são básicas e essenciais, como por exemplo pés-direitos altos, plantas livres, menor quantidade de pilares (que envolve o uso de estruturas mais leves, como lajes alveolares ou protendidas), concentração da parte técnica (elevadores, tubulação, e etc.) em lugares específicos da edificação, uso de tubulações aparentes, forros e divisórias móveis e leves. Materiais leves como a madeira, o bambu, o alumínio, o plástico, e em alguns casos, o papel/papelão tendem a ter sucesso nesse tipo de projeto. 

Divisórias de madeira. Imagem: © Haruo Mikami
Divisórias de madeira. Imagem: © Haruo Mikami

O chamado Projeto para Desconstrução (do inglês Design for Disassembly – DfD), em que ainda na etapa de projeto são pensadas em formas de construção de encaixe, de montagem e desmontagem, que possibilite que o elemento construtivo seja desmontado quando não for mais utilizado, com o total reaproveitamento dos materiais utilizados,  tem uma grande importância. Somado a essa estratégia, uma arquitetura pensada em ter uma manutenção facilitada também se torna muito importante. Um sistema que pode ser bastante interessante para esse modelo de projeto são os pisos elevados, que possibilitam a instalação de cabeamento e tubulação no espaço entre a laje e o piso e que são facilmente retirados para o caso de manutenções e reparos. 

Exemplo de sistema construtivo pensado com uso de peças que são adaptáveis, reutilizáveis e reconfiguráveis. Cortesia de Fastmount
Exemplo de sistema construtivo pensado com uso de peças que são adaptáveis, reutilizáveis e reconfiguráveis. Cortesia de Fastmount
Uso de pisos elevados. Crédito: Hunter Douglas Brasil
Uso de pisos elevados. Crédito: Hunter Douglas Brasil

Como é um espaço que tende a passar por modificações (layout, revestimento, etc.) em um menor tempo, é interessante também que seja revisto a forma de execução e contratação de alguns elementos, por exemplo revestimentos e mobiliários. Aqui, mais uma vez é possível enxergar uma diferença no modelo de entrega de um serviço no lugar de produto, que é uma estratégia muito importante quando pensamos em economia circular. Por exemplo, já existem empresas que oferecem como serviço a instalação de revestimentos ou mobiliários que serão trocados em curtos períodos, sendo que elas ficarão responsáveis por todo o processo e destinação do material que será trocado, que dependendo do caso (que deveria ser o modelo buscado pelas empresas) pode ser aproveitado em outros projetos, fazendo que o produto circule em vez de ser descartado. 

Finalmente, o COVID-19 evidenciou ainda mais a importância de se pensar em espaços mais confortáveis e eficientes do ponto de vista do consumo de energia elétrica e água. Essas características estão diretamente interligadas à economia circular que preza pelo uso eficiente dos recursos naturais. Dessa forma, questões relacionadas a um melhor sombreamento, a possibilidade de maior aproveitamento da ventilação e iluminação natural (que são estratégias básicas de conforto térmico e qualidade do ar) e a importância do uso da vegetação (a questão da biofilia) devem voltar a ganhar mais espaço nos projetos. O incentivo para o emprego de tecnologias para geração de energia renovável local (na própria edificação), como placas fotovoltaicas e o aproveitamento de águas residuais e da chuva também ganharão mais peso. Vamos torcer que essa previsão se concretize!

Espaços biofílicos, com uso de ventilação e iluminação natural.  Imagem © Hirouyki Oki
Espaços biofílicos, com uso de ventilação e iluminação natural. Imagem © Hirouyki Oki
Uso de painéis fotovoltaicos. Imagem © Ivar Kvaal
Uso de painéis fotovoltaicos. Imagem © Ivar Kvaal

Considerações finais 

Neste artigo foram apresentadas diferentes formas de pensar o compartilhamento dos espaços e como o projeto de arquitetura pode ser pensado com esse objetivo, ficando cada vez mais próximo de um modelo de economia circular. Vivemos em uma sociedade em constante mutação, seja por questões sociais, econômicas ou ambientais. A crise sanitária causada pelo COVID-19 modificou ainda mais a relação das pessoas com os espaços construídos, resultando em novas formas (algumas delas já sabidas há muito tempo, mas que se perderam ao longo do tempo) de projetar e utilizar esses espaços. Somado a isso, a crescente difusão de soluções tecnológicas baseadas em grande quantidade de dados e informática, como big data, IoT, IA, realidade virtual e realidade aumentada também já estão modificando o jeito de projetar, construir e morar nas edificações. Nessa ótica, é de se esperar que o modelo de compartilhamento de espaços se fortaleça nos próximos anos, com crescentes melhorias, principalmente em um contexto pautado por um modelo circular da economia e necessidade de cidades mais sustentáveis, saudáveis e inclusivas.

Referência bibliográfica

CELERE, 2018. Cohousing e coliving: moradias coletivas como ferramentas de socialização. Por Equipe Celere em 30 de julho de 2018 em Tendênciashttp://celere-ce.com.br/tendencias/cohousing-e-coliving-moradias-coletivas-como-ferramentas-de-socializacao/

Lucas Rosse Caldas é engenheiro civil, ambiental e sanitarista. Pesquisador do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Materiais e Tecnologias de Baixo Impacto Ambiental na Construção Sustentável (NUMATS/COPPE/UFRJ). Professor na Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente da COPPE/UFRJ e ministra cursos sobre construções e cidades sustentáveis no Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ).

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Sobre este autor
Cita: Lucas Rosse Caldas. "Arquitetura e economia circular na era dos espaços compartilhados" 27 Mai 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/940408/arquitetura-e-economia-circular-na-era-dos-espacos-compartilhados> ISSN 0719-8906

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