A fenomenologia da luz na arquitetura religiosa contemporânea

A luz do dia excede sua função de iluminação dos espaço. É uma ferramenta criativa manipulada por arquitetos para imbuir o espaço de um significado metafísico, influenciando os estados emocionais de seus ocupantes. Tendo um efeito fenomenológico na psique humana, a luz e a sombra têm sido usadas para evocar um senso de divindade e espiritualidade no caráter dos edifícios religiosos. A interação entre arquitetura e a luz é poderosa, e molda experiências mais profundas de espiritualidade.

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A associação da luz com o divino, presente em várias culturas, tem se refletido em espaços sagrados desde tempos imemoriais. Do Stonehenge às pirâmides, dos templos do sol aos zigurates, a qualidade arquitetônica das estruturas antigas enfatizou a relação das pessoas com o sol. O espaço construído era centrado na luz solar, protegendo seu papel inerente nas rotinas diárias das comunidades antigas. À medida que as sociedades se afastavam de visões de mundo simbólicas e religiosas e se aproximavam de visões mais racionais e cosmopolitas, a relação das pessoas com o sol perdia importância. Porém, a arquitetura religiosa contemporânea ainda mantém o diálogo entre luz e espaço por suas qualidades fenomenológicas.

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Bahá’í Temple / Hariri Pontarini Architects. Imagem © Daniela Galdames

A visão é o sentido mais dominante e impacta em como o espaço arquitetônico é percebido fisicamente, emocionalmente e espiritualmente. Através da visão, a luz traz consciência. As qualidades efêmeras da luz - brilho, cor, textura - criam vários efeitos psicológicos e fisiológicos em combinação com sua contraparte de sombra. Símbolo de iluminação, sabedoria, bondade e pureza, o dinamismo da luz natural nos locais de culto é capaz de elevar a mente humana além das limitações materiais. Na arquitetura sagrada, muitas vezes assume facetas de misticismo e santidade, enfatizando outros elementos do espaço.

A luz é inseparável do espaço. A arquitetura não apenas hospeda a luz natural, mas é organizada para fazer o melhor uso dela. O ritmo das qualidades de luz reflete áreas de pausa, movimento e ênfase na maioria dos espaços religiosos. O design da incidência da luz muda de acordo com a intenção do espaço. Enquanto as religiões em todo o mundo reverenciam a luz como um símbolo divino, sua articulação varia com as práticas culturais e as metáforas espirituais. A luz é exclusivamente utilizada como uma ferramenta para a experiência fenomenológica.

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Abrahamic Family House / Adjaye Associates. Imagem cortesia de Adjaye Associates

Os edifícios da antiguidade direcionava a luz do dia através de muitos elementos derivados da cultura, como os oculi do império romano e a Mashrabiya (tela perfurada) do período otomano. A luz era trazida principalmente através de telhados, cúpulas e extremidades mais altas do que as paredes, como uma forma de simbolizar o todo-poderoso acima. Algumas culturas adotaram o uso de vitrais para alterar a cromaticidade da luz natural. A luz foi usada para santificar o espaço arquitetônico e construir um senso de espiritualidade.

Espaços de culto contemporâneos seguem o exemplo e trazem a luz do sol de perto e de cima, embora em expressões mais abstratas. Ao contrário de seus precedentes que mantiveram uma identidade dominante, a arquitetura religiosa moderna combina pós-modernismo, minimalismo e estilos futuristas para expressar a espiritualidade no espaço. As tipologias se inspiram em suas raízes e promovem a relevância fenomenológica cultural da luz.

Mesquitas

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Mesquita Aman / Nakshabid Architects. Imagem © Maruf Raihan
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Mesquita Punchbowl / Candalepas Associates. Imagem © Rory Gardiner

Na arquitetura religiosa islâmica, a luz é usada para fazer com que os materiais de construção pareçam transparentes. É usado como elemento decorativo para diminuir a solidez e frieza da estrutura. Além de simbolizar a iluminação espiritual, os padrões de luz e sombra das telas perfuradas trabalham a mente.

A Mesquita Aman da Nakshabid Architects em Bangladesh apresenta uma única massa de concreto perfurada com pequenas aberturas triangulares, reminiscentes do tradicional Mashrabiya. As perfurações permitem que a luz do sol crie um cenário sublime e místico. Na Austrália, um óculo paira sobre as galerias de oração e um salão na Mesquita Punchbowl. A Candalepas Associates projetou o espaço para aproveitar raios de luz do dia através de Muqarnas (cofres em forma de favo de mel), criando uma atmosfera espiritual que muda ao longo do dia.

Igrejas

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Church of Seed / O Studio Architects. Imagem cortesia de O Studio Architects
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Igreja Bancho / Tezuka Architects. Imagem © FOTOTECA

Nos primórdios do Cristianismo - quando era ilegal e não tinha estruturas religiosas - os devotos se organizavam em locais escondidos em cavernas e morros. Dizem que sua prática inicial de esculpir pequenos orifícios como janelas levou à prática de incorporar janelas de clerestório nas igrejas. Oculis e vitrais foram amplamente utilizados, alinhados com os valores cristãos da estética. Na arquitetura da igreja, a luz também tem sido usada para separar os espaços.

A Church of Seed da O Studio Architects, localizada na China, comunica sutilmente uma atmosfera de sonho através do jogo de luz e sombra. A luz transforma o espaço interior e traduz a mensagem da cultura religiosa da sua região. A Igreja Bancho, da Tezuka Architects, homenageia as aberturas coloridas das igrejas tradicionais com perfurações no teto projetadas para direcionar a luz.

Templos Budistas

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Kuhon-ji Buddhist Temple / Furuichi and Associates. Imagem © Hiroshi Ito

Para os budistas, a luz simboliza a obtenção da "iluminação" do Buda. Na arquitetura budista, a luz é usada principalmente para iluminar a estátua de uma divindade em vez da própria arquitetura. No Templo Budista Kuhon-ji, no Japão, os reflexos da luz do sol são lançados nas paredes e no chão, dando uma sensação metafísica, de amplitude.

Templos Hindus

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Temple in Stone and Light / SpaceMatters. Imagem © Akash Kumar Das
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Shiv Temple / Sameep Padora & Associates. Imagem © Edmund Sumner

Os antigos templos hindus orquestravam movimentos da luz para a escuridão, da entrada externa ao santuário mais interno. À medida que se anda pelo templo, pontos agudos de luz quebram espaços menos brilhantes, trazendo uma sensação de admiração. Como no Shiv Temple de Sameep Padora & Associates, muitos templos hindus orientam a luz para cair sobre o ídolo da divindade principal. Como a luz do dia não é tão substancial para a arquitetura do templo hindu, lâmpadas a óleo e outra iluminação artificial inevitavelmente iluminam o espaço à noite, como visto no Temple in Stone and Light, da SpaceMatters.

Sinagogas

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Synagogue / SeARCH. Imagem © Iwan Baan
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Sinagoga Ulm / Kister Scheithauer Gross Architects And Urban Planners. Imagem © Christian Richters

A existência difundida da comunidade judaica e a relação instável entre o judaísmo e outras religiões têm dificultado a evolução de um estilo arquitetônico reconhecido. A luz tem um significado cultural e metafórico no judaísmo e a Sinagoga da SeARCH na Holanda a celebra através de grandes aberturas e um corte no telhado para a luz natural. Com 600 aberturas, a Sinagoga Ulm na Alemanha é iluminada em muitos pontos e tem um foco central no santuário.

Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Luz e Arquitetura.

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Sobre este autor
Cita: Gattupalli, Ankitha. "A fenomenologia da luz na arquitetura religiosa contemporânea" [The Phenomenology of Light in Contemporary Religious Architecture] 08 Abr 2023. ArchDaily Brasil. (Trad. Simões, Diogo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/998014/a-fenomenologia-da-luz-na-arquitetura-religiosa-contemporanea> ISSN 0719-8906

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