A estetização da desigualdade: paisagens contrastantes na periferia da Cidade do México

A região que conhecemos hoje como a Zona Metropolitana do Vale do México (ZMVM) tem tido uma ocupação contínua e dinâmica há mais de 4.000 anos. Evidências arqueológicas e antropológicas revelam a presença de sociedades humanas complexas nas margens da bacia, começando com Tlatilco e Cuicuilco no período pré-clássico mesoamericano, passando por Teotihuacan no período clássico, e culminando com os diferentes centros urbanos da afiliação Nahua no período pós-clássico, com destaque as cidades do México de Tenochtitlan-Tlatelolco, assim como Texcoco, Azacapotzalco, Iztapalapa e Chalco, entre muitas outras.

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Aquelas "tantas cidades sobre as águas", como refere a crônica de Bernal Díaz del Castillo, formavam um complexo sistema econômico e social entrelaçado com o ecossistema lacustre que na época do contato com o Ocidente era conhecido como Anáhuac (lugar junto à água). O estabelecimento do regime colonial e sua continuidade a partir da nação independente trouxe consigo a deterioração ecológica regional a fim de privilegiar uma centralidade que omitia, a partir de uma visão parcial do poder político, a existência de seu ambiente natural e social e se definia como a única cidade, legitimando-se como a única entidade capaz de absorver e consumir todos os recursos territoriais e naturais em seu próprio benefício. Outras experiências urbanas foram historicamente negadas, relegadas para as margens da narrativa, para a periferia. Esta periferia se tornou desde então recurso de exploração, território de desapropriação sem outro uso que não seja satisfazer as necessidades da cidade central, a capital. 

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Mapa do Lago de Texcoco (1350). Imagem © Tomás Filsinger

No início do século XX, a zona urbana da Cidade do México mal excedia a área poligonal da cidade do período do vice-reino, construída sobre o contorno da preexistência mexicana. Após séculos de numerosas e dispendiosas obras de engenharia hidráulica para drenar a bacia, nos anos 50 o leito das águas representou uma oportunidade de desenvolvimento e assentamento tanto para os especuladores imobiliários quanto para a imigração da classe trabalhadora que se reuniram para construir a infra-estrutura que traria o "milagre econômico mexicano".

Sem dúvida, a explosão urbana dos anos 1960 em diante não poderia ser totalmente compreendida sem mencionar certas particularidades do desenvolvimento do país e de sua capital nas décadas de 40 e 50. A partir do mandato de seis anos do Presidente Miguel Alemán, a industrialização, o início de uma cultura civil que deixou para trás os antigos chefes militares, produziu uma modernização que determinou a expansão urbana, não apenas na capital, mas em boa parte do país. A habitação moderna da cidade surgiu com construções como o Centro Urbano Presidente Alemán (CUPA), inaugurado em 1949, e a Cidade do México viu surgir importantes obras como a Cidade Universitária, uma obra difícil de ser superada e que foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2007. A cidade também recebeu obras rodoviárias, como o Viaduto Miguel Alemán e obras essenciais para uma cidade moderna, como o Aeroporto Internacional da Cidade do México.- Alejandro de Antuñano Maurer. “Cinco décadas del acelerado desarrollo urbano de la Ciudad de México”.

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Centro Urbano Presidente Alemán. Imagem © Archivo Fundación ICA

Hoje, o que conhecemos como periferia foi moldado para preencher as lacunas de uma cidade sem planejamento urbano. Em alguns lugares, isso foi promovido por instituições como o INFONAVIT, que surgiu como uma instituição que tinha agência direta sobre a construção de moradias, mas que depois delegou ao capital privado estas responsabilidades resultando no que Jorge Taboada retratou como "Paisagens Sinistras" promovidas por construtoras como Casas GEO e ARA em Ixtapaluca, Chalco, Los Reyes, La Paz, etc. no leste da cidade, fora dela, quase inacessíveis, sem serviços e sem infra-estrutura urbana.

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"Paraísos Sinistros". Imagem © Jorge Taboada

Por outro lado, em direção ao extremo noroeste encontramos o caso paradigmático da Cidade Satélite, um empreendimento imobiliário projetado no contexto do modernismo, cuja intenção era trazer o "sonho americano" para o México, e que pretendia libertar a Cidade do México da pressão habitacional, mas acabou se tornando um ímã para inúmeras subdivisões que suprimiram as áreas rurais e de conservação e preencheram o que havia entre a cidade e a periferia.

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Torres de Satélite / Luis Barragán. Imagem © Suriel Ramzal | Shutterstock

Muitas cidades "satélites" tiveram o mesmo efeito, desde bairros como Balbuena, Villa Coapa e Lindavista, até as mais famosas e exclusivas Lomas de Chapultepec, Pedregal e Santa Fe. Esta última foi construída no oeste da cidade em um terreno que costumava ser um depósito de lixo onde grandes edifícios corporativos e apartamentos de luxo eram construídos sem considerar a classe trabalhadora que se desloca mais de duas horas todos os dias para chegar lá. A consequência disso foi o surgimento de assentamentos irregulares autoconstruídos onde as condições de vida são muito diferentes e cuja estética nada remete a dos edifícios que se elevam dezenas de metros acima deles.

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Caminho até o "Complexo Residencial Bosque Real". Imagem © Mónica Arellano

No final do século XX e início do século XXI, o modelo neoliberal de cultura de consumo promovido e importado dos Estados Unidos trouxe para a Cidade do México a incorporação de condomínios fechados. Essas gated communities materializaram o humor alienante e paranóico do setor mais privilegiado da sociedade que exigia exclusividade e distinção, através de espaços privatizados que só podiam ser acessados por carro particular e com "serviços" e "amenidades" para "clientes diferenciados" como campos de golfe, clubes equestres e de tênis. No entanto, essas subdivisões também exigiam funcionários de serviço para atender às suas necessidades, o que mais uma vez levou ao surgimento de assentamentos irregulares nas margens para abrigar seus habitantes. Esta estética de contrastes que vemos nas fotografias aéreas de Johny Miller revela a dinâmica de poder entre aqueles que detêm o capital e compram o território como uma mercadoria e aqueles que os servem e ocupam o território como uma necessidade.

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Santa Fe, Cidade do México. Imagem © Johny Miller

As estéticas formalizadas a partir dessas ambições e necessidades são diametralmente opostas mas, paradoxalmente, confluente. Enquanto nos loteamentos-clubes, promove-se a arquitetura pós-moderna, com exemplos de revivals tão rudimentar e de gosto kitsch desde o estilo "rural inglês" no Condado de Sayavedra, à sempre presente predileção pela arquitetura neoclássica que deriva até mesmo em marcos urbanos como o agora arruinado Centro Comercial Lomas Verdes da Acrópole Lomas, as universidades Humanitas e West Point. Por outro lado, as moradias autoconstruídas das comunidades marginais também respondem a um desejo de pertencer a esses "luxos" e também recorrem, quando possível, a linguagens plásticas que imitam essas aspirações de "falso bem-estar" encontradas nas casas de seus patrões.

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"Arquitetura Livre". Imagem © Adam Wiseman

Outro exemplo recente é o Bosque Real, um complexo atualmente em construção que consiste em 900 novos apartamentos, que será erguido como uma cidade murada ao norte da cidade em Huixquilucan, Estado do México, em terreno elevado que promete uma melhor qualidade de vida do ar em relação ao que é oferecido sobre a bacia hidrográfica. Foram consideradas casas de 3 a 30 milhões de pesos e terá o segundo maior campus universitário depois da Cidade Universitária. O empreendimento promete segurança extrema e é vendido quase como uma cúpula que protege habitante do crime, da poluição e do contato com o mundo real.

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Maquete "Complexo Residencial Bosque Real". Imagem © Mónica Arellano

É possível ver diferentes estéticas dentro desta análise. Em algumas áreas, como o leste da cidade, é possível ver um grande número de moradias precárias autoconstruídas que respondem a questões sociais e econômicas que são herdadas, onde vivem várias gerações. Esta estética responde a diferentes influências, por um lado, como aponta a artista Sandra Calvo, trata-se de um fenômeno que responde às remessas de famílias separadas pela fronteira entre o México e os Estados Unidos, onde ocorre uma tradução ou tropicalização de certos gestos de design que ocorrem em um contexto muito diferente. Alguns outros respondem a funções meramente práticas e/ou econômicas.

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"Cópias de Abandono". Imagem © Sandra Cuevas

Hoje, a Cidade do México é um palimpsesto de camadas que se sobrepõem violentamente umas sobre as outras em nome do "desenvolvimento" e em resposta à superpopulação e ao capitalismo feroz por trás do mercado imobiliário. O que a estética destas periferias nos diz além do que é ou não agradável ao olho?

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Este artigo é parte dos Tópicos do ArchDaily: Estética. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos do ArchDaily. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

León Villegas (Cidade do México, 1987). É arquiteto pela UNAM com estudos em restauração do patrimônio arquitetônico. Desenvolve sua prática a partir da escrita crítica, assim como do projeto e da edição de livros e publicações sobre arquitetura. Seus principais interesses são as cidades - sua história e seu futuro - assim como as práticas artísticas e as possibilidades que elas permitem a partir do público e do coletivo. É também um artista sintetizador e multidisciplinar sob o nome: ACOLMIZTLI.

Mónica Arellano (Cidade do México, 1994). É formada pela Faculdade de Arquitetura, UNAM (2019). Atualmente atua como Editora do ArchDaily. Participou de várias pesquisas e congressos relacionados ao estado da educação, bem como do projeto museográfico de exposições sobre a memória da Cidade do México. Contribuinte de várias publicações impressas sobre arquitetura e poesia. Ela participou como bailarina em oficinas como "Arquitectura Móvil" (2017) dirigida pelo coreógrafo Edwin Vargas (Colômbia), coordenada pelo Centro de Producción de Danza Contemporánea (CEPRODAC) e "Lo personal colectivo" (2018) dirigida pela coreógrafa Isabelle Schad (Alemanha).

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Sobre este autor
Cita: Mónica Arellano y León Villegas. "A estetização da desigualdade: paisagens contrastantes na periferia da Cidade do México" [La estetización de la desigualdad: paisajes de contraste en la periferia de la Ciudad de México] 03 Jul 2022. ArchDaily Brasil. (Trad. Daudén, Julia) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/983213/a-estetizacao-da-desigualdade-paisagens-contrastantes-na-periferia-da-cidade-do-mexico> ISSN 0719-8906

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