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Convertendo o sagrado em profano

Convertendo o sagrado em profano

Cotidianamente nos deparamos com imagens de edifícios históricos que foram recentemente modernizados, ressignificados e trazidos de volta à vida. O contraste entre passado e presente, entre memória e a história viva de um determinado lugar ou edifício e a tensão entre estas duas coisas é algo que muito contribui para com a experiência da arquitetura e do espaço construído. E mais do que isso, a reabilitação de estruturas históricas pode ter um significado ainda mais profundo, principalmente quando tratamos da vida das pessoas que habitam estes lugares. Neste sentido, a arquitetura pode ser vista como um contentor de memórias coletivas compartilhadas, e o seu desenvolvimento, um livro que narra a própria história da humanidade, seus desafios, conquistas e traumas.

O crescimento populacional e o consequente desenvolvimento econômico que seguiu o término da 2ª Guerra Mundial nos Estados Unidos, provocou uma completa e radical transformação das paisagens urbanas do país, com a grande maioria das grandes cidades americanas sendo retalhadas pelo avanço e expansão das atividades industriais em bairros urbanos centrais. Mais de meio século depois, nossas cidades estão testemunhando uma outra transformação, talvez tão radical quanto aquela da metade do século XX. Na atual era da informação, muitas cidades americanas estão passando por um amplo processo de transformação, colocando em cheque o tradicional conceito de subúrbio americano assim como as atividades econômicas conectadas a este. Todos parecem profetizar que estamos nos aproximando do fim das grandes cidades—de como as conhecemos hoje—e de seus arranha-céus, de que nossa experiência física do espaço urbano está sendo deslocada pela introdução de novas tecnologias—impulsionada e agravada pela eclosão da recente pandemia.

Outro tipo de estruturas construídas que parecem estar sendo esvaziadas de sentido, deslocadas de sua antiga posição de referência no espaço urbano e também na vida em comunidade, são os edifícios religiosos. Segundo o estudo America’s Changing Religious Landscape, desenvolvido pela Pew no ano de 2015, a paisagem religisosa nos Estados Unidos também está passando por um amplo processo de transformação, com as novas gerações cada dia menos interessadas e mais afastadas da vida religiosa e dos espaços de espiritualidade nas cidades americanas. Segundo dados publicados pela Patheos, estima-se que atualmente cerca de 10.000 igrejas fechem suas portas nos Estados Unidos a cada ano que passa. De forma complementar, uma pesquisa realizada pelo Public Religion Research Institute (PRRI) em 2017 indica que no dia de hoje, 30% dos americanos se declaram “pessoas espirituais, porém não religiosas”, sendo a imensa maioria destes jovens—um dado que aponta para uma ruptura ainda mais drástica no futuro próximo. 

 Medieval Mile Museum Kilkenny, Ireland McCullough Mulvin Architects. Image © Christian Richters
Medieval Mile Museum Kilkenny, Ireland McCullough Mulvin Architects. Image © Christian Richters

Edifícios religiosos são estruturas sociais, espaços de convívio e socialização de extrema importância para a vida em comunidade. A espiritualidade e a arquitetura  caminham juntas. Ao longo dos séculos, espaços de culto e oração desempenharam um papel fundamental na construção da identidade de nossas cidades. Neste sentido, muitos destes edifícios ocupam posições de destaque na paisagem construída. Edifícios religiosos cumprem apenas uma função social, eles não produzem nada assim como tampouco podem ser explorados como fonte de renda e lucro. Pequenas estruturas ilhadas no mar especulativo que se tornaram nossas cidades. E a medida que estes espaços de espiritualidade vão sendo esvaziados de sentido, cabe nos perguntar qual será o destino que estas estruturas terão que encarar no futuro próximo? Será mesmo que a religião está se tornando irrelevante para a humanidade, ou será que estamos testemunhando apenas uma cisão do histórico laço entre a arquitetura e a espiritualidade?

O resultado pático dessas mudança são bastante previsíveis. Muitas igrejas foram construídas há séculos pelos primeiros habitantes que chegavam a uma determinada cidade. Isso significa dizer que atualmente, estas estruturas ocupam uma posição bastante privilegiada no espaço urbano. Em uma era onde muito se fala sobre a sustentabilidade e a energia incorporada na arquitetura, preservar ou ressignificar estas estruturas históricas abandonadas é fundamental, não apenas em termos econômicos. Mas, além da sustentabilidade, a algo importante a se refletir quando nos deparamos com espaços religiosos que já não cumprem mais a sua função primordial.

Tas's Church Sopuerta, Spain Garmendia Cordero Arquitectos. Image © Carlos Garmendia Fernández
Tas's Church Sopuerta, Spain Garmendia Cordero Arquitectos. Image © Carlos Garmendia Fernández

Embora antigas estaturas industriais possam ser facilmente adaptadas e transformadas em edifícios de apartamentos ou escritórios, nos deparamos com uma série de desafios quando precisamos lidar com estrutura religiosas que já não servem mais o seu antigo propósito. Ainda que muitos dos templos religiosos sejam estruturas históricas e, portanto, muitas vezes tombadas e protegidas, estes edifícios geralmente possuem uma atmosfera própria, a qual nasce do desejo der conectar as pessoas com o sagrado. Embora a dessacralização de um templo possa transformar o seu espaço, a sua história jamais poderá ser apagada.

Tempos de mudanças e grandes transformações devem nos fazer refletir sobre os nossos próprios valores. No estado da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, florestas foram derrubadas continuamente para dar espaço à agricultura—uma atividade que consumiu com praticamente 90% de toda a mata nativa pré-existente. Posteriormente, as áreas de cultivo foram migrando para o meio-oeste do país, empurradas pelo estabelecimento de um novo sistema ferroviário mais abrangente. Naquele momento, as pessoas foram em busca de trabalho, migrando para outras regiões do país em busca de novas oportunidades. Imensas áreas de cultivo foram esvaziadas da noite para o dia na Nova Inglaterra, deixando para trás mais de 350 mil quilômetros de muros de pedra utilizados para dividir as antigas propriedades de terra da região. Estas estruturas, quase que topográficas, agora encontram-se soterradas em meio as novas florestas que avançam rapidamente, recobrando o seu antigo território.

Este fenômeno me faz pensar que, o desinteresse das novas gerações e o abandono da prática religiosa em nossa sociedade hoje, provocará uma nova onda de transformação do ambiente construído—algo que transformará para sempre a paisagem urbana de nossas cidades. A maneira como enfrentaremos essa enxurrada de mudanças nos dirá muito sobre quem nós somos e como vivemos no futuro próximo.

Ao destituir as estruturas religiosas de seu conteúdo simbólico, estamos apagando parte de nossa própria história. Mas não seria um paradoxo que o sagrado seja uma estrutura construída por mãos profanas? Pensar que o sagrado possa ser fruto do trabalho do homem, talvez seja o motivo por trás do evidente declínio das estruturas religiosas nos dias de hoje.

 Abandoned church, Italy . Image © Roman Robroek
Abandoned church, Italy . Image © Roman Robroek

Este artigo faz parte do tema do mês no ArchDaily: Reabilitações. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Dickinson, Duo. "Convertendo o sagrado em profano " [Adapting The Sacred To Be Profane] 15 Nov 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/970502/convertendo-o-sagrado-em-profano> ISSN 0719-8906

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