Fim do desperdício: dez maneiras de incorporar a economia circular em um projeto arquitetônico

Fim do desperdício: dez maneiras de incorporar a economia circular em um projeto arquitetônico

Uma economia circular é um sistema econômico que visa eliminar o desperdício e o uso contínuo de recursos. Olhando para além do atual modelo industrial extrativo de coleta e descarte, uma economia circular visa redefinir o crescimento, com foco em benefícios positivos para toda a sociedade. Implica desvincular gradualmente a atividade econômica do consumo de recursos finitos e projetar os resíduos para fora do sistema. Apoiado por uma transição para fontes de energia renováveis, o modelo circular constrói capital econômico, natural e social.

É baseado em três princípios:

  • Eliminar o desperdício e a poluição.
  • Manter os produtos e materiais em uso.
  • Regenerar sistemas naturais.

Economia linear versus economia circular. Image via Wikimedia Commons
Economia linear versus economia circular. Image via Wikimedia Commons
Uma ilustração do conceito de Economia Circular. Image via Wikimedia Commons
Uma ilustração do conceito de Economia Circular. Image via Wikimedia Commons

Existem várias maneiras pelas quais as empresas dos setores de construção e manufatura podem incorporar ideais do pensamento da economia circular aos campos de produção e consumo.

1. O uso de vidro como acabamento externo

À medida que o foco do projeto sustentável continua a mudar fortemente do tópico central da eficiência dos edifícios para os outros dois pilares da discussão: suficiência e consistência, a conversa sobre “renovação” pula para o primeiro plano. Quando se trata de vidro, líderes da indústria como a Saint-Gobain estão constantemente desenvolvendo maneiras novas e inovadoras de pensar sobre o potencial do material e seu uso futuro, atualizando sistemas que se tornaram desatualizados. A simples troca de sistemas antigos com acabamento de vidro por outros novos, sustentáveis e eficientes pode fazer uma grande diferença na pegada ecológica e na classificação de eficiência energética de um projeto arquitetônico.

Por exemplo, a transformação de habitações sociais em Bordeaux e Paris pelo escritório francês Lacaton & Vassal, Frédéric Druot e Christophe Hutin mostra como os efeitos desse processo podem ser poderosos e duradouros. Os arquitetos explicam que “a transformação confere a todas as habitações novas qualidades de espaço e vivência, ao inventariar muito precisamente as qualidades existentes que devem ser preservadas e o que falta e deve ser complementado.” Os fabricantes Glassolutions, da Saint-Gobain em Coutras, forneceram o vidro para os elevadores externos totalmente envidraçados.

Antes da renovação e adição de vidro. Grand Parc in Bordeaux / Lacaton & Vassal. Image © Jordi García via EU Mies
Antes da renovação e adição de vidro. Grand Parc in Bordeaux / Lacaton & Vassal. Image © Jordi García via EU Mies
Após a renovação e adição de vidro. Grand Parc in Bordeaux / Lacaton & Vassal. Image © Jordi García via EU Mies
Após a renovação e adição de vidro. Grand Parc in Bordeaux / Lacaton & Vassal. Image © Jordi García via EU Mies

2. Remanufatura

Remanufatura - também conhecida como "manufatura com valor agregado" refere-se à reconstrução de um produto de acordo com as especificações do produto manufaturado original, usando uma combinação de peças reutilizadas, reparadas e novas. Requer o reparo ou substituição de componentes e módulos desgastados ou obsoletos. Muitas empresas estão começando a buscar ideias de remanufatura, especialmente nos setores automotivo e de construção, onde maquinários e materiais com grandes sistemas de manufatura podem ser recuperados e reutilizados para reduzir o impacto ambiental. Por exemplo, a madeira remanufaturada pode ser facilmente usada para estruturas, acabamentos e outras operações de valor agregado dentro de um projeto construído.

3. Fabricação Cradle-to-Cradle

Design Cradle to Cradle (também conhecido como 2CC2, C2C, do berço ao berço ou design regenerativo) é uma abordagem biomimética para o design de produtos e sistemas que modela as indústrias humanas nos processos da natureza, onde os materiais são vistos como nutrientes circulando em metabolismos saudáveis e seguros. A ideia foi profundamente explorada e trazida à tona pelo arquiteto William McDonough em seu livro de 2002 "Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things." Desde então, as ideias de McDonough se firmaram nas áreas de ética de construção e design em geral.

Os nutrientes biológicos e tecnológicos do C2C. Image via Wikimedia Commons
Os nutrientes biológicos e tecnológicos do C2C. Image via Wikimedia Commons

O fabricante de pisos Desso foi um dos pioneiros na abordagem Cradle-to-Cradle. A empresa continua a inovar em torno dos princípios da economia circular, desenvolvendo programas de devolução e produtos com fios recicláveis que podem ser separados do forro e usados repetidamente. Ao usar eletricidade hidrelétrica 100% renovável em todos os estágios da fabricação de carpetes, bem como trabalhar no desenvolvimento de bases de materiais biodegradáveis para seus carpetes, como subprodutos de milho e fios de bambu, a Desso é um grande exemplo da aplicação prática dos princípios C2C em projeto arquitetônico.

4. Isolamento de lã de vidro

A lã de vidro é um material isolante feito de fibras minúsculas de vidro, dispostas com um aglutinante em uma textura semelhante à lã. O processo retém muitas pequenas bolsas de ar entre o vidro e essas pequenas bolsas de ar resultam em altas propriedades de isolamento térmico. A lã de vidro é produzida em rolos ou placas, com diferentes propriedades térmicas e mecânicas. A ISOVER da Saint-Gobain, por exemplo, produz isolantes em lã de vidro eficientes em termos energéticos e sustentável.

A lã de vidro ISOVER usa uma alta porcentagem de vidro reciclado - até 70% (e em média mais de 50%) e é totalmente reciclável com um baixo CO2 por desempenho de isolamento. Outros benefícios incluem a redução do volume de embalagem devido à alta compressão do produto, a leveza do produto que lhe permite caber muito bem em construções leves, fácil desmontagem (instalação em sistemas sem cola) e serviços de reciclagem oferecidos em diversos países.

ISOVER Glass Wool Insulation . Image Courtesy of Saint-Gobain
ISOVER Glass Wool Insulation . Image Courtesy of Saint-Gobain

A sala de conferências de reutilização adaptativa de Stefano Boeri Architetti em 2009, "House of the Sea", é um exemplo de projeto com foco na sustentabilidade que usa a lã de vidro para atender aos requisitos de emissão de gases.

House of the Sea / Stefano Boeri Architetti. Image © Iwan Baan
House of the Sea / Stefano Boeri Architetti. Image © Iwan Baan
House of the Sea / Stefano Boeri Architetti. Image © Iwan Baan
House of the Sea / Stefano Boeri Architetti. Image © Iwan Baan

5. Pay-Per-Lux

Vários novos modelos de negócios colaborativos surgiram nos últimos anos com o objetivo de aproveitar o excesso de capacidade que pode ser encontrado em muitos setores. Com essas ideias em mente, um projeto desenvolvido entre Thomas Rau e a Philips procurou projetar o excesso de capacidade desde o início, vendendo luz como um serviço. O conceito 'Pay per Lux' consiste em fornecer a quantidade exata de luz para os espaços de trabalho e salas de que os funcionários precisam ao usá-los para tarefas específicas - com custos de manutenção incluídos. Sempre que for necessário alterar a iluminação, a Philips pode adaptar o sistema existente aos desejos do cliente ou simplesmente recuperar os seus materiais e reciclá-los através do LightRec (parceiro da Philips responsável pela reutilização dos componentes de iluminação). A gestão eficaz dos sistemas resultou em uma redução total de energia de 55% - 35% como resultado da instalação de LED, bem como outros 20% através do processo de otimização da Philips.

6. Reutilização de móveis

Só nos Estados Unidos, 15 milhões de toneladas de móveis são desperdiçados anualmente e apenas 2% são recuperados para reciclagem. Ao mesmo tempo, a cada ano em uma cidade como Nova York, 250 mil pessoas se mudam de ou para ali. O potencial real no mercado de móveis usados foi estimado em U$ 10 bilhões por ano. Alpay Koralturk fundou a Furnishare (agora Kaiyo) em 2014, após uma série de mudanças frustrantes, tendo que vender e comprar móveis todas as vezes.

Cansado do desperdício e da qualidade baixa dos móveis causados por este modelo linear de produção e consumo, Koralturk patenteou o modelo Kaiyo no qual vários componentes giram em torno de um conceito central: manter móveis de alta qualidade em uso, criando assim valor adicional para os anteriores proprietários e opções de acesso mais flexíveis para futuros compradores. O modelo dá às pessoas a chance de monetizar um ativo pesado ou subutilizado, em vez de simplesmente descartá-lo, um processo que pode custar dinheiro. Quando os itens são devolvidos à Kaiyo após o período de locação, eles são reparados, limpos e reintroduzidos no mercado.

7. Modularidade

A demanda por móveis de escritório está crescendo rapidamente - em 2024 o tamanho da indústria será estimado em 100 bilhões de dólares (USD). A fabricação de móveis de escritório requer muitos materiais e energia, e 80-90% desses valiosos recursos são perdidos após um curto período de uso. Ahrend, uma empresa holandesa de design de espaços de trabalho, oferece aos seus clientes móveis como serviço (furniture-as-a-service - FAAS), onde os clientes pagam uma taxa mensal e devolvem os móveis quando não precisam mais deles.

"Furniture as a Service é uma assinatura na forma de arrendamento operacional. Isso significa que Ahrend continua sendo o dono dos móveis e você paga apenas pelo período de uso do produto. Assim, você mantém seu capital de giro disponível para sua atividade principal e nunca pague muito porque você paga apenas o que está usando ", disse o ex-vice-presidente sênior de Ahrend, Peter Veer.

8. As possibilidades do Concreto reforçado com vidro pós-consumo

Concreto reforçado com vidro (Glass Reinforced Concrete - GRC) compreende fibras de vidro de alta resistência a cargas e a álcalis que são incorporadas em uma matriz de concreto. Essas fibras atuam como o principal componente de transporte de cargas estruturais, enquanto a matriz circundante as mantém em posição e transfere cargas entre as fibras. Tanto as fibras quanto a matriz são boas em reter suas identidades físicas e químicas, combinando essas propriedades para criar um composto de alto desempenho. Isso difere do concreto pré-moldado tradicional, que usa o aço como principal elemento de carga. Embora isso funcione bem a médio prazo, todos sabemos que o aço tem tendência a sofrer corrosão, levando a possíveis problemas estruturais em algumas décadas. As fibras de vidro não enferrujam.

A tendência para a construção sustentável e a economia circular é uma grande influência no clima atual da arquitetura - e a nova geração de GRC leve é definitivamente um bloco de construção chave desse movimento. Testes recentes mostram que o GRC é agora visto como um material de construção com eficiência energética, capaz de atingir uma classificação de material BREEAM A+. O Rieder Group é uma empresa austríaca que oferece produtos GRC a partir de materiais brutos e naturais. Os painéis de concreto reforçado com fibra de vidro são incombustíveis, sustentáveis e duráveis. Eles podem ser fixados visivelmente ou escondidos em uma subestrutura de metal e tingidos com pigmentos de cor natural.

Concrete Panel - Glossy | Rieder Group. Image Courtesy of Archdaily
Concrete Panel - Glossy | Rieder Group. Image Courtesy of Archdaily
Concrete Panel - Glossy | Rieder Group. Image Courtesy of Archdaily
Concrete Panel - Glossy | Rieder Group. Image Courtesy of Archdaily

9. Edifícios Circulares

“Temos um problema de materiais nos lugares errados” é uma frase muito citada do pioneiro do Cradle to Cradle, William McDonough. Na verdade, a maioria dos recursos encontrados nos produtos são simplesmente "usados", em vez de "esgotados". Os próprios materiais ainda estão por aí, mas frequentemente são difíceis de coletar e recuperar ou não podem ser agregados de uma forma que torne sua coleta viável.

Villa Welpeloo é uma casa e estúdio de arte projetada e construída em 2005 pela Superuse Studios. Embora a casa seja certamente impressionante do ponto de vista arquitetônico, há duas características em sua criação que a tornam especialmente notável. Em primeiro lugar, 60% da casa é composta de materiais recuperados da região, e Superuse empregou uma estratégia nova, mas acessível, para encontrar essa matéria-prima. “Conversamos com pessoas que têm acesso a fluxos de resíduos - o Google Earth nos ajuda a identificar estoques de resíduos em zonas industriais", explica Jan Jongert, arquiteto e chefe de pesquisa do Superuse Studios.

Villa Welpeloo, Allard van der Hoek. Image Courtesy of Superuse Studios. Image Courtesy of Superuse Studios
Villa Welpeloo, Allard van der Hoek. Image Courtesy of Superuse Studios. Image Courtesy of Superuse Studios

O aço era obtido a partir de maquinários anteriormente usados na produção têxtil, uma indústria que já foi proeminente na região de Enschede, na Holanda, onde a casa está localizada. A madeira utilizada na fachada foi retirada de 200 bobinas de cabos danificadas, o que gerou peças de tamanho e formato uniformes. Essa madeira tradicionalmente seria transformada em aglomerado (ou pior, acabaria sendo incinerada), reduzindo efetivamente a utilidade do material. O desejo de salvar também fez com que o processo de design fosse conduzido em paralelo com o processo de materialização. A estratégia de "superuso" para mudar o desempenho de um material não foi apenas adotada como o nome da própria empresa, mas também foi pesquisada e usada em cerca de 90% de seus 180 projetos.

Villa Welpeloo, Allard van der Hoek. Image Courtesy of Superuse Studios. Image Courtesy of Superuse Studios
Villa Welpeloo, Allard van der Hoek. Image Courtesy of Superuse Studios. Image Courtesy of Superuse Studios

10. Passaportes de produto

A indústria naval depende atualmente de duas commodities em particular - combustível e aço, com o aço representando cerca de 98% do volume médio de um navio de contêineres. Em resposta à volatilidade dos preços do aço e do combustível, a Maersk desenvolveu um "Passaporte Cradle to Cradle". O Passaporte, o primeiro para o setor de transporte marítimo, compreende um banco de dados online para criar um inventário detalhado que pode ser usado para identificar e reciclar os componentes do navio com uma qualidade mais alta do que nunca.

Como resultado, os materiais - incluindo as 60.000 toneladas de aço por navio - podem ser classificados e processados de forma mais eficaz, mantendo suas propriedades inerentes e, com sorte, alcançando um preço melhor quando revendidos.

Uma vez que a indústria da construção depende fortemente do transporte global de materiais e produtos, um sistema como o "Passaporte C2C" pode fazer uma grande diferença na pegada geral de cada projeto, do início ao fim.

Sobre este autor
Cita: Bartolini, Olivia. "Fim do desperdício: dez maneiras de incorporar a economia circular em um projeto arquitetônico" [No More Waste: 10 Ways to Incorporate the Circular Economy into an Architectural Project] 21 Jun 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Souza, Eduardo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/962504/fim-do-desperdicio-dez-maneiras-de-incorporar-a-economia-circular-em-um-projeto-arquitetonico> ISSN 0719-8906

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