Saúde mental e arquitetura: seria este o momento de mudança?

Saúde mental e arquitetura: seria este o momento de mudança?

A relação entre saúde mental e os arquitetos, especialmente os estudantes de arquitetura, não é uma questão inédita. Em um contexto onde o estresse é um dos grandes problemas do século, atingindo mais de 90% da população mundial segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o universo da arquitetura e suas práticas, tanto profissionais quanto estudantis, normalizaram o estresse e a ansiedade como parte integrante da profissão. Entretanto, pesquisas recentes de estudantes mostram insatisfação com essa realidade, agora agravada devido a pandemia. Seria, portanto, o momento de rever as práticas institucionais e pressionar para uma mudança de cultura?

Não faltam pesquisas e artigos que mostrem como a vivência prática da arquitetura, seja dentro da universidade, seja na vida profissional, está atrelada à cobranças irreais, noites de insônia, estresse, ansiedade e todos os outros problemas de saúde provenientes dessa realidade. Em uma pesquisa de 2014, desenvolvida pela União do Estudante de Pós Graduação de Arquitetura, Paisagem e Design (GALDSU) da Universidade de Toronto, muitos alunos admitiram que regularmente viravam noites, pulando refeições, abandonando atividades sociais extracurriculares e raramente se exercitando para conseguir terminar os projetos no prazo.

Outra pesquisa, conduzida pelo Architect's Journal em 2016, revelou que mais de um quarto dos estudantes de arquitetura do Reino Unido buscam ou já buscaram tratamento para problemas relacionados à saúde mental e outros 25% preveem que precisarão de tratamento no futuro. Os resultados desta pesquisa levaram Anthony Seldon, vice-chanceler da Universidade de Buckingham, a descrever a situação como "quase uma epidemia de problemas de saúde mental."

Ateliê da Escola de Arquitetura da Universidade de Yale, 2008. . Image via Ragessos  Wikipedia CC
Ateliê da Escola de Arquitetura da Universidade de Yale, 2008. . Image via Ragessos Wikipedia CC

No Brasil, esse padrão também se repete. Em 2018 os alunos de graduação do Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp se organizaram em um Grupo de Trabalho sobre saúde mental buscando conduzir uma pesquisa que avaliasse os impactos do ambiente e do modelo acadêmico na saúde mental dos alunos. No total, 77,9% dos alunos entrevistados acham que o curso impacta negativamente na sua própria saúde física e mental, a maioria também já deixou de se alimentar corretamente e todos já deixaram de dormir por conta de trabalhos acadêmicos.

Avaliação pessoal da saúde mental. Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP
Avaliação pessoal da saúde mental. Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP

Apesar das diferenças de nacionalidade e período, há muitas similaridades entre essas pesquisas. De modo geral, elas apresentam um quadro onde os alunos apontam um excesso de carga horária e de exigências de trabalho, em um nível onde eles são conduzidos a perderem o sono e ultrapassarem seus limites, deixando de comer, praticar exercícios e desempenhar atividades de lazer. Outros apontamentos giram em torno da desorganização como consequência do excesso de trabalho, que leva ao estresse e suas consequências físicas e mentais. 

Porcentagens de alunos que procuraram ajuda profissional para lidar com saúde mental. . Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP
Porcentagens de alunos que procuraram ajuda profissional para lidar com saúde mental. . Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP

Uma preocupação latente na pesquisa britânica está relacionada ao pagamento das anuidades das universidades, que, segundo a pesquisa, é um dos principais fatores causadores de estresse entre os alunos. Por outro lado, apesar da Unicamp ser uma instituição de ensino pública e portanto não apresentar taxas de mensalidade, a preocupação financeira também está presente, não em relação à mensalidade, mas sim por exigências de materiais e outros insumos para as aulas e projetos, como equipamentos eletrônicos, livros, maquetes e plotagens. Mais da metade dos alunos já foram prejudicados por exigências financeiras relacionadas ao curso. 

Satisfação em relação aos métodos usados na academia.. Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP
Satisfação em relação aos métodos usados na academia.. Image via GT Saúde Mental - Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UNICAMP

Se somarmos aos gastos com insumos exigidos pelas aulas, o compromisso da mensalidade, é possível imaginar que o quadro de estresse entre os alunos de instituições privadas brasileiras deve se assemelhar à situação britânica apresentada pelo Architect's Journal. Para além disso, as pesquisas estudantis deixam de reunir dados que levantem, com profundidade, as dificuldades de raça, gênero, classe, sexualidade e cisgeneridade, o que nos faz presumir que as camadas de estresse e ansiedade devem ser ainda maiores, e mais complexas. 

Em 2020 a realidade ganhou ainda mais uma camada, a pandemia de Covid-19. Segundo uma pesquisa elaborada pelo RIBA, os jovens estudantes estão sob significativa carga de estresse e preocupados com o futuro de suas carreiras. Os resultados destacam que 58% dos alunos estão com problemas de saúde mental e quase metade está preocupada com as perspectivas de emprego. Além disso, a mudança da estrutura de ensino, que obriga o EAD, ensino à distância, também é um gatilho para situações estressantes.

Invenções como o Sleep Suit de Forrest Jessee são sintomáticas de um problema cultural no estúdio?. Image © Forrest Jessee
Invenções como o Sleep Suit de Forrest Jessee são sintomáticas de um problema cultural no estúdio?. Image © Forrest Jessee

No Brasil, podemos facilmente elevar as dificuldades devido à pandemia de Covid, e não somente para os estudantes, como também para os profissionais formados. Ausência de material adequado, como computadores, mesas e cadeiras, problemas de conexão de internet e as próprias dificuldades do convívio do lar são algumas das questões enfrentadas pelo ensino e trabalho à distância. Soma-se a isso o contexto político brasileiro, que é pautado pela ineficiência no combate à pandemia e às altas taxas de desemprego, podemos entender que para além de ser um mal da geração, e um aspecto inerente à prática da arquitetura desde a universidade, o estresse e a ansiedade são consequências também do contexto em que vivemos. 

Não somos os únicos.. Image via Flickr  Usuário Simon Law via CC
Não somos os únicos.. Image via Flickr Usuário Simon Law via CC

Apesar das evidências de que o estresse vinculado à prática profissional da arquitetura é um problema sistêmico, que abrange não só os estudantes e profissionais brasileiros como também aqueles do mundo todo, as soluções colocadas são sempre individualizadas. A revista Forbes elaborou um artigo que apresenta como reverter oito hábitos ruins, e comuns, que fomentam o estresse. Dormir melhor, comer melhor e regularmente e o sedentarismo são alguns dos pontos levantados por eles. Não há dúvidas de que essas são práticas que melhorariam a qualidade de vida das pessoas, porém, o apoio somente a estas desvia a atenção do sistema que é o causador dos problemas.

É importante nos atentar à responsabilidade das instituições e rever as práticas nos escritórios e ambientes de trabalho. Um ponto comum entre as pesquisas estudantis é o destaque à necessidade de ação das instituições de ensino sobre as exigências e demandas que recaem sobre os estudantes. Segundo um dos alunos entrevistados da Unicamp “parece que o termo ‘dedicação integral’ é usado como método para te culpar por dormir 8 horas por dia ou praticar seus hobbies e passear”. Dessa forma, para além das soluções individuais, que transferem um problema que é coletivo para o indivíduo, é necessário olhar e questionar as instituições, escritórios e espaços de trabalho em que estamos inseridos. 

Referências e fontes
Pesquisa GT Saúde Mental - CACAU Unicamp: https://issuu.com/cacau.arqurb.unicamp/docs/saude_mental_final
GALDSU Mental Health Report: https://issuu.com/joelleon1/docs/galdsu_mentalhealth_report2014?utm_medium=website&utm_source=archdaily.com.br
Mental health problems exposed by AJ Student Survey 2016: https://www.architectsjournal.co.uk/news/mental-health-problems-exposed-by-aj-student-survey-2016?utm_medium=website&utm_source=archdaily.com.br
Reportagem Saúde Mental na Pandemia: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/saude-mental-na-pandemia/
Geração Z e millennials sentem mais os impactos da pandemia: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/saude-mental-na-pandemia/
8 hábitos que deixam os millennials estressados https://forbes.com.br/colunas/2018/11/8-habitos-que-deixam-os-millennials-estressados/#foto6

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Sobre este autor
Cita: Giovana Martino. "Saúde mental e arquitetura: seria este o momento de mudança?" 10 Jun 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/961892/saude-mental-e-arquitetura-seria-este-o-momento-de-mudanca> ISSN 0719-8906

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