Como o Art Nouveau influenciou a arquitetura italiana

Como o Art Nouveau influenciou a arquitetura italiana

Art nouveau, ou arte nova, foi um movimento artístico surgido na Bélgica do final do século XIX e que rapidamente se difundiu por diversos países do continente europeu e nos Estados Unidos. Arte “nova” porque rejeitava cânones e demarcava uma ruptura com o passado. Estimulados pelos resultados e mudanças trazidas à sociedade pela Segunda Revolução Industrial, os artistas do movimento buscavam criar uma linguagem que acompanhasse os avanços desse contexto e superasse a antiguidade, o academicismo e o conservadorismo na estética. Assim, em suas obras, elementos clássicos surgiam combinados a itens contemporâneos e diferentes estilos eram mesclados para formar um conjunto original.

Villino Ruggeri, em Pesaro. Obra do arquiteto Giuseppe Brega. Créditos: Andrea Speziali em flickrVillini delle Fate, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em UnsplashPiazza Mincio, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Livioandronico2013 em Wikimedia CommonsFenoglio -“La Fleur”, em Torino. Obra do arquiteto Pietro Fenoglio. Créditos: micio.macho em flickr+ 19

Inspirando-se em formas orgânicas, como plantas e flores, arabescos, elementos exóticos e referências fora do comum, como a fantasia, o movimento art nouveau se preocupava com a originalidade da forma combinada a novos materiais advindos da produção industrial, como o ferro e o vidro na construção, e novas tecnologias, como a litografia colorida nas artes gráficas. A representação do feminino também foi uma constante na art nouveau. Combinando influências orientais, do barroco, do rococó e até mesmo do gótico, o estilo art nouveau foi marcado pelo ecletismo e abrangeu uma ampla gama de artes para se expressar, da criação de objetos decorativos e de móveis, anúncios, tecidos, joias, à literatura, design e arquitetura.

Obras criadas por artistas da art nouveau para uso em propagandas, fugindo do comum e da padronização, fizeram da publicidade uma arte e tornaram suas peças icônicas, a exemplo do anúncio da Tournée du Chat Noir, em 1896, criada por Théophile Steinlen, e os pôsteres publicitários criados por Alphonse Mucha. Na pintura o movimento foi menos expressivo, embora não tenha sido inexistente. O simbolista Gustav Klimt, artista precursor do movimento moderno de Viena, chamado “Secessão de Viena”, e conhecido por obras como “O Beijo” (1907-1908), foi um de seus expoentes.

Esquerda: Tournée du Chat Noir de Rodolphe Salis, Theophile Steinlen (1896). Créditos: WikiArt. Direita: Heidsieck, Alphonse Mucha (1901). Créditos: WikiArt
Esquerda: Tournée du Chat Noir de Rodolphe Salis, Theophile Steinlen (1896). Créditos: WikiArt. Direita: Heidsieck, Alphonse Mucha (1901). Créditos: WikiArt

Em cada país onde se manifestou, o movimento adotou características específicas, um tanto quanto contextualizadas, e ficou conhecido por nomes distintos, como: style nouille ou art belle époque, na França; style coup de fouet, na Bélgica; modern style, na Inglaterra; jugendstil, na Alemanha e; stile liberty, ou floreale, na Itália. Como estilo arquitetônico, a art nouveau foi popular e dominante na Europa por pouco mais de duas décadas, quando foi substituída pela Art Déco e, posteriormente, pelo Modernismo. Entretanto, este curto período foi intenso o suficiente para deixar a sua marca em diferente locais, a exemplo das obras arquitetônicas de Antoni Gaudì, em Barcelona, da Paris da Belle Époque e dos edifícios Liberty em Roma e Milão.

O liberty italiano na arquitetura

salão no interior do Hotel Villa Igiea, em Palermo, Sicilia. Obra do arquiteto Ernesto Basile. Créditos: Wolfgang Moroder em Wikimedia Commons
salão no interior do Hotel Villa Igiea, em Palermo, Sicilia. Obra do arquiteto Ernesto Basile. Créditos: Wolfgang Moroder em Wikimedia Commons

Além das mudanças continentais que estimularam o surgimento da art nouveau na Europa, o movimento na Itália foi profundamente influenciado pela unificação do país. Havia uma sensação de renovação e transformação provocada pelo novo cenário político, econômico e social. Esse momento carregava consigo uma dinâmica de modernização e o desejo de distanciamento da mais tradicional, provinciana e, considerada obsoleta, arquitetura. A antiga nobreza deixava espaço para uma crescente burguesia empresarial que possuía capital financeiro para deixar sua marca nas principais cidades italianas por meio do investimento em novas mansões, vilas e edifícios comerciais e de escritórios.

Propriedades que se tornaram ícones deste estilo arquitetônico foram encomendadas por grandes empresários italianos, como Oreste Ruggeri, da indústria farmacêutica e da cerâmica, o qual contratou o arquiteto Giuseppe Brega para criar a Villa Ruggeri, entre 1902 a 1907, em Pesaro, tornando-a o retiro de sua família. O design é inspirado em elementos do mar, da fauna e da flora. Entretanto, pouco se sabe sobre o interior da residência, a qual permanece fechada para o público.

Villino Ruggeri, em Pesaro. Obra do arquiteto Giuseppe Brega. Créditos: Andrea Speziali em flickr
Villino Ruggeri, em Pesaro. Obra do arquiteto Giuseppe Brega. Créditos: Andrea Speziali em flickr

A cidade de Palermo teve um papel de destaque no desenvolvimento do liberty, tanto pelo número de obras neste estilo pela cidade quanto pela fama do arquiteto Ernesto Basile, de origem local, e que se tornou um dos arquitetos mais celebrados do liberty italiano. Algumas de suas obras mais conhecidas em Palermo são o Grand Hotel Igiea (1899-1901) e o Villino Florio (1899-1902), duas das primeiras obras do estilo no país. Ambas as propriedades pertenciam à família Florio, uma das mais tradicionais da Sicilia. Os membros desta família foram, inicialmente, mercadores, mas devido ao sucesso de seus negócios, tornaram-se figuras centrais da economia e da sociedade de seu tempo.

Fenoglio -“La Fleur”, em Torino. Obra do arquiteto Pietro Fenoglio. Créditos: micio.macho em flickr
Fenoglio -“La Fleur”, em Torino. Obra do arquiteto Pietro Fenoglio. Créditos: micio.macho em flickr

Na Itália, a variante arquitetônica da art nouveau foi designada originalmente como stile floreare, devido à inspiração e presença constante de flores em sua expressão, mas posteriormente passou a ser conhecida como stile liberty ou liberty italiano, numa referência ao nome da loja inglesa “Liberty & Co”. Esta loja, fundada em Londres em 1875, era especializada na venda e distribuição de produtos orientais, uma das grandes inspirações desse movimento por seu exotismo, mistério e longinquidade.

O liberty pode, ainda, ser associado às ideias de John Ruskin e William Morris, os quais defendiam a capacidade criativa de artistas que se inspiravam em formas da natureza, ainda que imprecisas, buscando um equilíbrio orgânico. Os edifícios construídos no estilo liberty costumam apresentar linhas curvas ou onduladas, delicadas, dinâmicas, irregulares e assimétricas, com elementos ecléticos e muitas cores. Afrescos em áreas externas e internas são marcas desse estilo arquitetônico e, para alguns, há também certo romantismo nestes edifícios. No Itália, esse estilo marcou presença em diversas cidades, como Nápoles, Milão, Palermo, Torino e Roma.

O liberty em Roma

Roma, especificamente, tornava-se a capital italiana e assistia ao aumento substancial de seu número de habitantes, assim como da necessidade de diversidade de espaços para abrigar novas funções e novos moradores, quando surgiu o estilo liberty. Inúmeros edifícios neste estilo foram criados durante o período que se seguiu, muitos dos quais permanecem preservados na cidade até hoje, como Villino Ximenes, Teatro Ambra Jovinelli, Villa Torlonia, Villino Cagiati e Villino Astengo. Abaixo, exploramos três espaços especiais na cidade de Roma que são ícones do stile liberty italiano.

Galeria Sciarra

Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash

Reestruturada em 1885, sob encomenda do príncipe e mecenas Maffeo Barberini-Colonna di Sciarra, a Galleria Sciarra, ou Palazzo Sciarra Colonna di Carbognano, é uma obra-prima da arquitetura italiana, repleta de mosaico e afrescos. O complexo de edifícios que compõem a galeria abriga também uma passagem de pedestres aberta ao público entre a Via Marco Minghetti e a Via dell’Umiltà, na área central de Roma. O espaço adquiriu as características atuais por meio de uma reforma, quando o príncipe Maffeo, então proprietário do palazzo, tinha como objetivo torná-lo um imponente centro comercial.

Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Galleria Sciarra, em Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash

Entretanto, ele veio a se tornar sua mansão particular e a sede editorial das atividades do jornal diário La Tribuna e da revista literária Cronaca Bizantina, ambos empreendimentos de Maffeo. O arquiteto responsável pela obra foi Giulio De Angelis (1885-1888), que produziu um icônico teto abobadado de vidro e ferro fundido que permite que a luz do sol penetre no pátio e ilumine os detalhes nos afrescos das paredes. Estes foram confiados ao trabalho do pintor Giuseppe Cellini (1890-1895), que utilizando a técnica encáustica seguiu projeto iconográfico concebido pelo poeta e literato Giulio Salvadori para exaltar a figura da mulher na sociedade da época, uma verdadeira glorificazione della donna.

La Casina delle Civette

Casina delle Civette nella Villa Torlonia, em Roma. Créditos: Hugo DK em Wikimedia Commons
Casina delle Civette nella Villa Torlonia, em Roma. Créditos: Hugo DK em Wikimedia Commons

Localizada dentro da Villa Torlonia, a Casina delle Civette, ou “casinha das corujas”, era a cabana suíça para onde o príncipe Giovanni Torlonia Jr. escapava quando não queria ser encontrado em sua residência principal. Apesar de se localizar no interior da mesma propriedade, que é um parque urbano e hoje museu, a cabana privada fica propositadamente escondida por uma colina artificial. Os demais edifícios da Villa exibem o estilo neoclássico, fazendo com que a cabana, reformada no estilo liberty, entre 1908 e 1915, apresente um charmosocontraste.

Casina delle Civette nella Villa Torlonia, em Roma. Créditos: Sailko em Wikimedia Commons
Casina delle Civette nella Villa Torlonia, em Roma. Créditos: Sailko em Wikimedia Commons

A denominação da cabana está ligada à representação recorrente de corujas em suas paredes, esculturas, móveis e vitrais. Como é possível imaginar pela escolha da coruja, um animal ligado como símbolo a diversos significados e superstições, o príncipe Giovanni foi um apaixonado por esoterismo e assuntos místicos, o que se reflete na decoração da cabana e é fonte de inspiração para o estilo liberty. Suas arcadas, vitrais coloridos, mosaicos, itens em ferro forjado, tecidos nas paredes e estátuas de mármore, refletem o liberty na Casina delle Civette.

Quartiere Coppedè

Arco na saída do Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Arco na saída do Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash

Ainda que seja conhecido internacionalmente como um bairro, o Quartiere Coppedè é na verdade um conjunto de cerca de trinta edifícios que ocupam quase dois quarteirões do bairro Trieste, próximo ao centro da capital italiana. Em seu centro, ligando todo o conjunto, está a Piazza Mincio. Apesar de em sua criação não ter buscado se tornar uma comunidade ou bairro planejado, a obra foi encomendada por uma empresa privada, a Società Anonima Edilizia Moderna, que buscava utilizar o lote na construção de prédios e apartamentos para a classe média alta. Atualmente, além das residências privadas, o Coppedè também abriga três embaixadas: África do Sul, Marrocos e Bolívia.

Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Villini delle Fate, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash
Villini delle Fate, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Ágatha Depiné em Unsplash

O espaço leva o nome do arquiteto, escultor e decorador florentino Gino Coppedè, que o projetou se inspirando no gótico, no barroco e no medieval. Os edifícios ainda são envolvidos por elementos de fantasia, como fadas e figuras angelicais, elementos da natureza, como flores e animais, símbolos esotéricos e referências históricas da cultura italiana, como Dante e Petrarca na poesia, e as figuras de Rômulo e Remo, da fundação da cidade de Roma. O filme Cabiria, dirigido por Giovanni Pastrone, em 1914, foi inspiração para o enorme arco que conecta dois edifícios e sob o qual se adentra o quartiere (foto acima). Além dos elementos citados, o liberty também está presente no uso do ferro fundido, do mármore, nos afrescos em partes externas e internas dos edifícios e nos diversos arcos e torres dos edifícios.

Piazza Mincio, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Livioandronico2013 em Wikimedia Commons
Piazza Mincio, Quartiere Coppedè, Trieste, Roma. Créditos: Livioandronico2013 em Wikimedia Commons

Na plataforma Google Arts & Culture é possível explorar um pouco mais do liberty pela exibição “From Revival to Liberty: Palermo and the Belle Epoque”.

Via Urban Studies.

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Sobre este autor
Cita: Ágatha Depiné. "Como o Art Nouveau influenciou a arquitetura italiana" 13 Mai 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/960383/como-a-art-nouveau-influenciou-a-arquitetura-italiana> ISSN 0719-8906

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