Materiais que deram forma às casas, interiores e edifícios públicos mais icônicos de 2020

Materiais que deram forma às casas, interiores e edifícios públicos mais icônicos de 2020

É difícil começar qualquer texto de retrospectiva de 2020 sem cair em clichês. O ano de 2020 nos ensinou, a duras penas, que a humanidade pode ser mais frágil do que imaginávamos. O mundo tem enfrentado um inimigo invisível que alterou o cotidiano de todos. Por outro lado, os edifícios são compostos por materiais, que têm peso, cheiro, textura e custos. Eles dependem de recursos naturais, processos de produção, mão-de-obra, transporte etc. Ainda é muito cedo para dizer como a crise causada pela Covid-19 mudará o mundo e, mais especificamente, a arquitetura. Mas será que nossa percepção do que é boa arquitetura mudou durante este ano? E nossa relação com a tectônica das construções se alterou com todas os impedimentos que tivemos? 

Geralmente, é durante as crises que dispensamos os supérfluos e nos concentramos no que é mais necessário. Na indústria da construção, temos observado o uso da tecnologia para tornar a indústria mais eficiente e sustentável, seguindo uma preocupação da sociedade em geral. Além disso, maiores preocupações com a exploração de recursos naturais e com a gestão dos resíduos sólidos são latentes na indústria.

Retiro de Veraneio em Whidbey Island / mwworks. Imagem © Kevin Scott
Retiro de Veraneio em Whidbey Island / mwworks. Imagem © Kevin Scott

Como era de se esperar, a internet ganhou muita força, e, felizmente, o ArchDaily alcançou números incríveis. Quando nos debruçamos nos projetos mais vistos do ano, podemos ter uma noção do que vem chamando a atenção do mundo da arquitetura. Veja, abaixo, uma análise dos materiais que deram forma às casas, interiores e edifícios públicos mais icônicos de 2020:

Casas e Habitações Coletivas

Residência V / Martin Skoček. Imagem © Matej Hakár
Residência V / Martin Skoček. Imagem © Matej Hakár

Este foi um ano que todos passaram muito tempo em casa. Tivemos que ressignificar nossa relação com a habitação, que muitas vezes precisou se tornar local de trabalho, esporte e de lazer. Por isso, também, para muitos este foi um ano de perceber que a habitação já não correspondia a todos os seus anseios. Formas de dar um novo aspecto à residência, principalmente através da pintura de paredes, chamaram a atenção de nossos leitores.

Mas, evidentemente, todos nós gostamos de nos imaginar em residências do sonho. De fato, casas sempre foram uma das categorias mais populares de busca no site e este ano isso não foi diferente. O que pudemos observar em 2020 é que mais que residências altamente modernas, com materiais tecnológicos e esteticamente austeras, os projetos mais acessados em 2020 apresentam um aconchego marcante no uso dos materiais. Vemos que as obras preferidas abusam no uso de materiais brutos, sobretudo grandes quantidades de superfícies de madeira, concreto aparente e, muito comumente, tijolos maciços aparentes. O toque, as texturas e as ligeiras variações que apresentam os materiais aparentes tornam tanto os interiores como os exteriores mais agradáveis e com “cara de casa”. Uma outra característica marcante é a presença de vegetação. Com a impossibilidade de sair de casa por longos períodos, muitos sentiram falta do verde, e jardins internos chamaram muita atenção.

Casa Pirueta / Wallmakers. Imagem © Jino Sam
Casa Pirueta / Wallmakers. Imagem © Jino Sam
Casa Theodora / ADEPT. Imagem © Rasmus Hjortshoj
Casa Theodora / ADEPT. Imagem © Rasmus Hjortshoj

Nas habitações multi-familiares as preferências não foram tão distintas. No caso dos edifícios habitacionais, observamos claramente o gesto de trazer a natureza para mais perto dos habitantes, seja com jardins e praças internas, paredes verdes ou grandes floreiras junto às janelas. Curiosamente, há também diversos exemplos com incríveis fachadas de tijolos aparentes, além de um largo uso do concreto aparente, seja em tetos, pisos ou paredes.

Edifício de Apartamentos Edison Lite / Manuelle Gautrand Architecture. Imagem © Luc Boegly
Edifício de Apartamentos Edison Lite / Manuelle Gautrand Architecture. Imagem © Luc Boegly
Casa 6 em Berlin / Sauerbruch Hutton. Imagem © Jan Bitter
Casa 6 em Berlin / Sauerbruch Hutton. Imagem © Jan Bitter

Algo que chama bastante atenção é a ausência de edifícios de apartamentos tradicionais entre os mais vistos. Vemos que o que os leitores buscam mais são tipologias e volumes não convencionais, mais dinâmicos, com ângulos e texturas radicais. A madeira também aparece, tanto em diferentes revestimentos como na estrutura principal. Outro elemento recorrente é o uso da translucidez nas fachadas, como que criando um amortecimento entre o entorno urbano e o ambiente interno doméstico, seja através de chapas perfuradas ou painéis de policarbonato. Nos casos do projeto de Álvaro Siza e neste edifício de Sauerbruch Hutton em Berlim, o uso do mármore e do aço inoxidável nas fachadas, respectivamente, também provam que os materiais nobres sempre terão um espaço no nosso coração.

Edifícios Públicos e Arquitetura Cultural

Centro religioso e Cultural Islâmico em Ljubljana / Bevk Perović arhitekti. Imagem © David Schreyer
Centro religioso e Cultural Islâmico em Ljubljana / Bevk Perović arhitekti. Imagem © David Schreyer

Quanto mais distanciamento social, mais importância damos aos espaços públicos e culturais. Situações de quarentena ao redor do mundo têm ajudado a confirmar o que tem sido um lema para arquitetos e urbanistas há décadas: o grande valor da acessibilidade e do projeto de espaços públicos, que permitam que as pessoas possam se encontrar e desfrutar do ar livre. A presença de espaços públicos e culturais em um bairro tem efeitos multidimensionais, desde o enriquecimento da paisagem até a consolidação de comunidades. Os projetos de uso público que se destacaram este ano tendem a ir além de sua função, sobressaindo pela forma e cor, e tornando-se marcos que resgatam o valor simbólico dos espaços para a comunidade.

Coberturas e Pavilhões Bamboo Bamboo / IILab.. Imagem © Arch-Exist
Coberturas e Pavilhões Bamboo Bamboo / IILab.. Imagem © Arch-Exist

As obras são tão variadas quanto o contexto em que se inserem. Desde um teatro em Gana até um templo na Eslovênia, a coleção abrange técnicas e materiais construtivos que variam de acordo com sua localização, estética e tradições. Os projetos obedecem a estratégias comuns para enfrentar desafios de escala, dimensão e inserção no contexto, seja ele amplo ou mais adensado. Em espaços abertos, estruturas curvas, texturas e efeitos de iluminação delimitam espaços evocando características naturais. Nos edifícios, temos visto uma tendência em direção a figuras monolíticas: unidades homogêneas e mono-materiais, cujos padrões de modulação atribuem a escala humana. Assim, a envoltória do edifício assume uma importância particular, dando unidade a projetos de grande escala e facilitando sua incorporação à paisagem, seja por mimetismo ou por contraste.

Centro Comunitário Cabana do Pêssego / ATELIER XI. Imagem © Zhang Chao
Centro Comunitário Cabana do Pêssego / ATELIER XI. Imagem © Zhang Chao
Primavera de Tainan / MVRDV. Imagem © Daria Scagliola
Primavera de Tainan / MVRDV. Imagem © Daria Scagliola

Materiais como madeira e tijolo aparecem na maioria dos edifícios de média escala, enquanto o concreto preferencialmente para uma arquitetura mais monumental. A materialidade de cada edifício ajuda a estabelecer um contraste entre sua escala e as texturas de suas superfícies. Eles oferecem versatilidade para construir curvas, para serem usados na sua cor natural ou com tratamento, para serem incorporados em ambientes naturais, ou para romper com a rigidez habitual do tecido urbano. A cor é usada para acentuar a forma através do contraste e para ampliar os efeitos da iluminação. Nesta seleção tão diversificada de projetos, complexos, delicados ou monumentais, em contextos urbanos ou naturais, o material é fundamental para definir uma identidade e abrigar uma variedade de atividades criando assim uma experiência coletiva.

Design de Interiores e Reformas

Co-working Sfera Beauty / Eduard Eremchuk. Imagem © Inna Kablukova
Co-working Sfera Beauty / Eduard Eremchuk. Imagem © Inna Kablukova

Nos últimos anos, os arquitetos têm sido forçados a olhar para dentro dos edifícios, dando atenção para duas áreas que nem sempre foram o foco de nosso trabalho: reformas e design de interiores. Este olhar para o espaço interior tem gerado desdobramentos interessantes em nossa disciplina nos estimulando a observar e compreender melhor o ser humano, nos forçando a analisar a composição dos materiais e produtos mais profundamente, e nos atribuindo a grande responsabilidade de ajudar a criar espaços eficientes e saudáveis para a vida cotidiana, tudo isso considerando simultaneamente o passado, o presente e o futuro.

Extensão de antiga casa unifamiliar / Architekti B.K.P.Š. Imagem © Tomáš Manina
Extensão de antiga casa unifamiliar / Architekti B.K.P.Š. Imagem © Tomáš Manina

Dentro desta onda de novos projetos focados na qualidade do ambiente interior, notamos a repetição de práticas interessantes. Primeiro, as características essenciais, intrínsecas a cada material e/ou produto, estão sendo aproveitadas em seu potencial máximo, construindo espaços expressivos onde o elemento construtivo é mais um protagonista e menos um pano de fundo. O mobiliário começa a ser incluído desde a fase conceitual, dando sentido ao projeto, mas sem se comprometer com funções rigorosamente determinadas, o que contribui para a flexibilidade do projeto. A cor - monocromática ou com textura - está sendo utilizada como solução espacial definindo ambientes, dando destaque, orientação e até mesmo evocando sensações. O uso inteligente do espaço torna-se imperativo, e não apenas em projetos minimalistas, mas também como parte de uma promessa de adaptabilidade a novos usos e usuários. A vegetação, a luz natural e a ventilação terminam harmonizando o projeto inteiro.

Reabilitação de uma casa unifamiliar em Miraflores / fuertespenedo arquitectos. Imagem © Héctor Santos-Díez
Reabilitação de uma casa unifamiliar em Miraflores / fuertespenedo arquitectos. Imagem © Héctor Santos-Díez
Reforma de Casa com Teto Elíptico / MURAYAMA + KATO ARCHITECTURE. Imagem © Kenta Hasegawa
Reforma de Casa com Teto Elíptico / MURAYAMA + KATO ARCHITECTURE. Imagem © Kenta Hasegawa

Estas intervenções também podem ser vistas em projetos recentes de reforma e renovação. No entanto, destacamos os projetos que consideram principalmente a reutilização de materiais e elementos pré-existentes, a fim de revelá-los ou dar-lhes um novo valor, eliminando possíveis desperdícios. Pedras estruturais ancestrais reaparecem como revestimentos; telhados vernaculares são restaurados e atualizados como estufas futuristas; e técnicas esquecidas são recuperadas com a eficiência dos novos materiais disponíveis no mercado. Em muitos desses casos, os novos materiais aparecem respeitosamente como simples complementos, destacando a arquitetura do passado, e mesmo as novas funções são separadas da estrutura original, aproveitando suas amplas dimensões para criar níveis intermediários, pátios internos, salas de serviço, ou simplesmente novas perspectivas.

Casas Xiangyuxiangyuan / The Design Institute of Landscape and Architecture China Academy of Art. Imagem © Aoguan Performance of Architecture
Casas Xiangyuxiangyuan / The Design Institute of Landscape and Architecture China Academy of Art. Imagem © Aoguan Performance of Architecture

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Sobre este autor
Cita: Materials. "Materiais que deram forma às casas, interiores e edifícios públicos mais icônicos de 2020" [Materials that Shaped the Most Iconic Homes, Interiors and Public Buildings of 2020] 15 Jan 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Duduch, Tarsila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/953788/materiais-que-deram-forma-as-casas-interiores-e-edificios-publicos-mais-iconicos-de-2020> ISSN 0719-8906

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