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Habitação social na América Latina: Sequência de desenho

Habitação social na América Latina: Sequência de desenho
Habitação social na América Latina: Sequência de desenho, <a href='https://www.plataformaarquitectura.cl/cl/785617/conoce-la-nube-una-nueva-forma-de-contemplar-caracas-venezuela'>Proyecto "La Nube" en Caracas, Venezuela</a>. Imagem © Miguel Braceli
Proyecto "La Nube" en Caracas, Venezuela. Imagem © Miguel Braceli

Apresentamos a seguir mais um artigo da série de textos de Nikos A. Salingaros, David Brain, Andrés M. Duany, Michael W. Mehaffy e Ernesto Philibert-Petit. Desta vez, enfocando a importância das sequências de layout e dos códigos geradores para a habitação social na América Latina. Reveja também os demais artigos já publicados:

© Miguel Braceli
© Miguel Braceli

9 - Habitação social na América Latina: Sequência de layout

O espírito da adaptação incremental

As práticas do século XX para construir habitação social podem ter sido bem intencionadas, mas na verdade estavam equivocadas. Elas não ajudam a conectar os residentes ao seu ambiente. Grande parte do tecido urbano poderia ter sido feito mais saudável e sustentável, pelo mesmo custo, mas, ao contrário, exerce um efeito mortal em seus residentes e, em última instância, torna-se insustentável. Infelizmente, os planejadores dos governos estiveram determinados a impor um experimento social mal concebido como parte de um utópico programa de industrialização. Nós apontamos aqui, por outro lado, soluções práticas e sensíveis que podem ser aplicadas imediatamente a qualquer contexto, com algumas pequenas modificações para atender às condições locais.

Os autores fazem estas recomendações baseados em considerável experiência em projetos práticos. Nós seremos os primeiros a nos comprometermos e a fazer as necessárias adaptações para implementar nossa metodologia a qualquer projeto particular, no espírito da adaptação incremental. É muito melhor se comprometer e ter alguma coisa construída do que insistir em seguir cada componente de nosso sugerido processo, mas ter o projeto rejeitado. Desta maneira, nós podemos efetivar uma transição rápida para um tipo de casa do futuro mais robusta, mais vivaz e mais sustentável.

© Miguel Braceli
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Códigos geradores

Alexander (2001-2005, livro 3) aplicou “códigos geradores” mais avançados a projetos e nós resumimos aqui parte de seu procedimento. Esta é uma versão mais incremental da metodologia de layout descrita anteriormente para o “esqueleto de serviços”.

Alexander observou os processo de auto-organização que criaram vários assentamentos informais ao longo da história humana, e tentou desenvolver “códigos geradores”, baseados em regras, para explorar estes processos. As suas geometrias naturais são tão fortes que, por exemplo, ao observar as fotos aéreas de Querétaro, no México (onde um de nós realiza pesquisas) verifica-se que a morfologia dos assentamentos se parecem muito com as pequenas vilas admiradas no mundo inteiro de Provença, na França, e de Toscana, na Itália. Todas elas utilizam artifícios para adaptarem-se ao terreno, para as visuais, a diferenciação das funções comerciais e outras representações autopoiéticas (de auto-organização).

O desafio é não construir, por antecipação a partir de uma estrutura baseada em um modelo, sobre uma tabula rasa (isto é, arrasando para limpar), mas colocar as instalações e outros elementos humanos nestas já complexas e sofisticadas “cidades medievais”. Nós desejamos a complexidade orgânica e o caráter adaptativo da atividade de-baixo-para-cima com alguns dos standards e condições de equidade social presentes em intervenções de-cima-para-baixo. Há uma maneira para que isso possa ser construído de forma sequencial, descontinuada, de acordo com uma simples série de regras, que é como os códigos geradores propõem que seja feito. Após isso ser feito, então os resultados são levantados e os limites são marcados para propósitos legais.

© Miguel Braceli
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O projeto tem que ser iterativo e determinado no local

Um layout gerador que inclui ruas estabelece os lotes de acordo com a topografia, com as aflorações naturais e a percepção psicológica dos melhores fluxos, conforme é determinado ao se caminhar no solo. Então o processo de desenho acontece — e não o inverso. Este seria a abordagem “alexandrina” para “cidades medievais com encanamentos”. Embora isto possa ocorrer antecipadamente, como parte do processo “código gerador” pela comunidade, ele tem que acontecer gradualmente. O layout não deve ser baseado em um modelo ou desenhado para ser visto de um avião.

Para conseguir a complexidade emergente de uma vizinhança viva, ela tem que ser descontinuada e determinada no sítio. Deve ser garantido que o desdobramento orgânico possa acontecer, e isto não é fácil em um mundo rigidamente codificado. Nós temos o desafio de invocar bons processos a partir de circunstâncias que apresentam muitos condicionantes e obstáculos.

Isso reflete o padrão medieval de projetar ruas e lotes. Isso também segue o princípio de Léon Krier de que os prédios e os espaços sociais vêm antes, e depois vêm as ruas (KRIER, 1998). Nas cidades medievais, o processo era altamente regulado. Uma cidade baseada numa malha também pode ser bem ordenada: nosso ponto é que se use a malha que mais se adapte ao local, e que surge do terreno. A implementação prática, mesmo de um processo gerador radical, não é tão difícil como se poderia pensar. Pode-se contornar os problemas legais colocados pela lei convencional de loteamentos ao criar uma sequência de lotes irregulares “encaixados” que serão depois detalhados de acordo com o processo gerador, então é feita a versão final do esquema, com os ajustamentos na linha dos lotes e oferecidos os acessos para direito de passagem. Normalmente, há alguma maneira de passar por cima dos processos convencionais para esse tipo de atividade, mas o governo precisa apoiar e não bloquear o processo, porque isso parte de práticas já estabelecidas.

Entrando ainda mais no detalhe do layout, a rua principal deve ser proposta com base na topografia e na conexão com a parte externa. Depois, decidir sobre os espaços urbanos, que devem ser vistos como nós de atividades para pedestres, conectados pelas ruas. Nova decisão: as ruas laterais que alimentam a rua principal são decididas — mesmo pensando que essa decisão significa a marcação com estacas no solo. Depois: definir a posição das casas (não ainda do lote, apenas a construção) usando estacas marcadas no solo, de tal maneira que as fachadas frontais reforcem o espaço urbano.

Agora, cada família decide o plano total da casa que considera um pátio e um jardim, nos fundos. Este processo sofre limitações pelas ruas do entorno, caminhos de pedestres e vizinhos, mas se espera que o pátio e o jardim formem um conjunto o mais coerente possível, isto é, uma área semi-aberta confortável para as pessoas ficarem e trabalharem, e não apenas um espaço residual. Esta parte, finalmente, permite fixar o lote, que é então gravado. Os planos são desenhados com gravetos no chão.

À medida que as linhas dos lotes começam a ser decididas, então as ruas podem começar a tomar uma forma mais definida no plano (mas ainda não construídas). Espera-se que as ruas conectem e alimentem os segmentos dos espaços urbanos, que são definidos pelas frentes das casas (note-se que isso é o oposto de posicionar as casas para seguir as ruas existentes). A flexibilidade no desenho das ruas será mantida até que todas as casas sejam construídas. Claramente, não se verão muitas ruas retas cortando o loteamento (para o espanto dos burocratas do governo), porque elas não foram colocadas no início. Nem as ruas precisam ter uma largura uniforme, elas se abrem para o espaço urbano. As ruas surgem à medida que surge todo o loteamento. Agora começa a construção. Primeiro construir os passeios, depois então as casas, e, por último, pavimentar as ruas — se é que isso vai ser feito.

Uma sequência de layout mais detalhada será apresentada nos artigos que seguem a este, nos próximos números.

Versão anterior deste artigo foi apresentada por NAS como uma palestra no Congresso Ibero-Americano de Habitação Social, Florianópolis, Brasil, 2006. Publicado em URBE: Revista Brasileira de Gestão Urbana, Vol. 2 No. 2 (Julho/Dezembro 2010), páginas 191-211.

Tradução para Português: Lívia Salomão Piccinini.

Bibliografia

  • Christopher Alexander (2001-2005) The Nature of Order: Books One to Four (Center for Environmental Structure, Berkeley, California).
  • Léon Krier (1998) Architecture: Choice or Fate (Andreas Papadakis Publisher, Windsor, England). New edition entitled: The Architecture of Community (Island Press, Washington, DC, 2009).

Sobre este autor
Cita: Nikos A. Salingaros, David Brain, Andrés M. Duany, Michael W. Mehaffy & Ernesto Philibert-Petit. "Habitação social na América Latina: Sequência de desenho" [Vivienda Social en Latinoamérica: Secuencia de diseño] 04 Jun 2019. ArchDaily Brasil. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/918385/habitacao-social-na-america-latina-sequencia-de-desenho> ISSN 0719-8906

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