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Como (não) projetar uma Bienal: "Freespace" é realmente um espaço livre?

Como (não) projetar uma Bienal: "Freespace" é realmente um espaço livre?
© Italo Rondinella
© Italo Rondinella

Este artigo foi originalmente publicado pela Metropolis Magazine sob o título "Taking a Second Look at This Year's Nebulous Venice Architecture Biennale."

Uma das poucas verdades incontestáveis que emergiram durante a 16ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, inaugurada no último dia 26 de maio e aberta ao público até o próximo dia 25 de novembro, é que a sensibilidade e habilidade em projetar não necessariamente fazem de um arquiteto um bom curador de uma bienal.

As curadoras da Bienal deste ano possuem um amplo e formidável portfólio de arquitetura. A Grafton Architects, sob a direção de Yvonne Farrell e Shelly McNamara, é um escritório de arquitetura de renome internacional, contando com uma série de obras construídas, em sua maioria edifício públicos. O maior desafio da dupla até o momento, o programa da bienal, sofre com a ânsia das arquitetas em reconhecer suas próprias influências. Alas estruturaram a exposição principal da bienal de Veneza deste ano em torno a um conceito bastante subjetivo, "Freespace" ou "espaço livre", uma idéia tão vaga que, em última análise, abrange uma infinidade de arquitetos, projetos e obras efêmeras que tem muito pouco em comum.

Ao longo das últimas duas décadas, a curadoria na disciplina da arquitetura operou uma enorme transformação. De um pequeno exercício teórico, ainda que de grande influência, converteu-se em uma atividade fundamental da prática da arquitetura fora do ambiente de escritório. Para os profissionais de arquitetura que não se adequam ou preferem não seguir a prática do projeto, a pesquisa e curadoria tornaram-se as alternativas preferidas. Farrell e McNamara não são este tipo de arquiteto: elas são projetistas determinadas e comprometidas, profissionais que se destacaram desenvolvendo projetos e construindo edifícios. Seus projetos mais famosos são o Campus Universitário UTEC, na cidade de Lima, no Peru, e também o projeto da Università Luigi Bocconi, em Milão. Evidenciando em ambos os casos um espírito comunitário sensível ao contexto no qual estão inseridos. Surpreendentemente, Farrell e McNamara recorreram a chavões bastante ingênuos ao articular o “Manifesto Freespace", o qual foi publicado um ano antes da inauguração oficial da Bienal: “Freespace se refere a uma generosidade de espírito e um senso de humanidade no exercício da arquitetura”. “A arquitetura é o jogo de luz, sol, sombra, lua, ar, vento e gravidade, capaz de revelar os mistérios do mundo.” Referir-se aos “dons da natureza” como uma dádiva à serviço dos arquitetos nos faz pensar na arquitetura como uma forma de mercadoria de luxo.

Angela Deuber's drawings in the Arsenale at the Venice Biennale. . Imagem © Italo Rondinella
Angela Deuber's drawings in the Arsenale at the Venice Biennale. . Imagem © Italo Rondinella

A arquitetura foi introduzida no mundo das Bienais com o objetivo explícito de democratizar uma instituição elitista, como Léa-Catherine Szacka caracteriza acertadamente em seu livro Exhibiting the Postmodern: The 1980 Venice Architecture Biennale. Os representantes da exposição decidiram organizar uma mostra bianual de arquitetura na cidade de Veneza em parte como uma resposta aos protestos contra a exclusividade segregadora dos eventos da Biennale. A arquitetura, para os gestores da Biennale, se traduzia como a mais cívica das disciplinas, aquela que estava voltada para o grande público e todos os profissionais das disciplinas criativas. Ela seria responsável por resgatar e ativar a cidade histórica de Veneza e transformar a Biennale em uma instituição totalmente acessível e transparente. Tendo isso em vista, Paolo Portoghesi, diretor artístico da primeira exposição de arquitetura da Bienal de Veneza, não poupou esforços para recuperar a estrutra do antigo Arsenale de Veneza do século XII, transformando um espaço esquecido e abandonado em dos lugares mais importantes para o circuito das artes no mundo todo.

Pelo menos em teoria, o programa concebido pela Grafton compartilha muitas dessas ambições iniciais. Entretanto, Freespace reflete o retrocesso da Bienal em relação ao exercício profissional da arquitetura, assim como em relação à disciplina de forma mais ampla, com um exposição pouco atraente para o grande público. Um problema recorrente nas últimas edições, especialmente na proposta desenvolvida pela Grafton, é a organização do histórico espaço do Arsenale. O antigo complexo naval, com seu corredor de mais de trezentos metros de comprimento, provou ser um espaço completamente inadequado às propostas expositivas pelo menos nas duas últimas edições do evento. O espaço conserva a sua assustadora linearidade enquanto as arquitetas procuravam estabelecer trajetórias alternativas dentro do percurso expositivo. Como resultado, o longo corredor do Arsenale dissimula a parte mais importante de seu conteúdo, sobrando apenas um aglomerado de coisas sem sentido. Dentro deste mar de incoerência são poucas as excessões que vale a pena mencionar - entre elas, o projeto de Angela Deuber para uma escola em Thal, na Suíça, e os modelos desenvolvidos pelo escritório de Mumbai Case Design para a Avasara Academy. O extenso corredor do Arsenale, ocupado com uma procissão de projetos individuais sem nenhuma coerência entre si, desvia a atenção do conteúdo real da exposição para a simples tarefa física de atravessar o longo Corderie.

Lebanon Pavilion at the 2018 Venice Biennale.
Lebanon Pavilion at the 2018 Venice Biennale.

A postura das arquitetas da Grafton, celebrando a extensão deste território, expõe de forma categórica um dos maiores problemas das exposições da Bienal de Arquitetura dos últimos anos: ela é grande demais. Só nos resta acreditar que uma considerável redução no conteúdo do evento faça com que os curadores escolham apresentar apenas aquilo que é realmente importante. Apesar de todo um discurso sobre “generosidade”, a incapacidade ou falta de vontade em "curar" esta exposição, reduzindo excessos e valorizando o seu conteúdo, na melhor das hipóteses, transformou este espaço em um local inóspito. O equilíbrio desta Bienal, resultado parte da ampla experiência profissional das arquitetas, parte do seu incipiente exercício de curadoria, é mais evidente no Pavilhão Central, onde o conjunto de projetos - muitos deles convincentes - foi complementado pela decisão das arquitetas em transformar o recinto histórico em um objeto expositivo. Um momento de rara felicidade da dupla foi a descoberta de uma janela originalmente projetada por Carlo Scarpa. Revisando o projeto do Pavilhão Central, as arquitetas se depararam com uma janela inexistente, a qual foi aberta restabelecendo a conexão visual entre o edifício e os reservatórios venezianos.

De fato, o talento das curadoras em harmonizar projetos históricos e contemporâneos transforma a exposição do pavilhão central na mais palatável do conjunto dos espaços da Biennale. Excepcionalmente interessante são as galerias autobiográficas dedicadas a arquitetos notáveis, porém negligenciados, do século XX, as quais foram organizadas por curadores convidados. Três capelas projetadas pelo arquiteto proto-modernista sueco Sigurd Lewerentz, por exemplo, são apresentadas aqui como uma celebração à sua obra, uma síntese de escala e espaço de encontro e reflexão desenvolvida pela equipe da ArkDes de Estocolmo para a exposição Freestanding. Outro exemplo, apresentado por Cino Zucchi, retrata o trabalho de Luigi Caccia Dominioni em Everyday Wonders, uma perspectiva admiravelmente pessoal impulsionada pela amizade entre os dois arquitetos. Algumas galerias à frente, Robert McCarter amplia este percurso retrospectivo, apresentando de forma magistral quatro projetos não construídos na cidade de Veneza por Wright, Corbusier, Kahn e Noguchi. Este percurso histórico-arquitetônico constitui uma conexão muito bem-vinda com a Bienal de Arquitetura de 2016, curada pelo arquiteto chileno Alejandro Aravena. Apesar disso, é importante ressaltar a confiança permanente dos curadores no trabalho de arquitetos majoritariamente de origem européia ou americana, os quais já são em grande maioria, amplamente conhecidos e celebrados.

© Jan Bitter
© Jan Bitter

O pavilhão central, concebido por Farrell e McNamara, apresenta uma série de escritórios de arquitetura que foram referências marcantes para a carreira da Grafton Architects, transformando o exercício de curadoria em um recorte subjetivo à partir de um ponto de vista individual, ao invés de um exercício de pesquisa preocupado em articular uma questão ou posição que diz respeito ao exercício profissional da arquitetura de forma mais ampla. Os projetos contemporâneos escolhidos estão de acordo com a abordagem dos projetos históricos apresentados - placemaking, materiality, improvisation - os quais também estão presentes na obra da Grafton. A exposição de maquetes, produzidas pelo atelier de Peter Zumthor, introduz uma espécie de fragilidade ao Freespace. Produzidas em cera e outros materiais frágeis, as maquetes de Zumthor questionam a firmitas, tão frequentemente associada à arquitetura; elas evocam o ethos do local, evitando a representação da realidade para obter um efeito mais dramático. Próximo ao conjunto de Zumthor, a Caruso St John Architects apresenta uma série de ilustrações de fachadas de edifícios acompanhadas de levantamentos fotográficos. A aparência altamente estetizada e bidimensional dos desenhos transforma os projetos em objetos singulares, mas infelizmente não possui nenhum vínculo compreensível com o espaço anterior; de qualquer modo, nenhuma lógica ou texto explicativo encontra-se disponível para esclarecer essas adjacências. É óbvio que as curadoras nutrem uma profunda admiração por todos os arquitetos escolhidos, mas isso dificilmente seria motivo suficiente para incluí-los em uma bienal de arquitetura. Concluindo, não parece haver nenhuma correlação especial entre a capacidade projetual de um arquiteto, sua orientação estética e a sua capacidade de organizar uma exposição de arquitetura em grande escala.

Nos próximos anos, a Bienal de Arquitetura de Veneza enfrentará uma concorrência crescente de novas exposições de arquitetura de grande magnitude, mais dispersas fisicamente mas muito mais relevantes quanto à conteúdo - como a Bienal de Arquitetura de Tbilisi, a ser inaugurada em outubro e a Trienal de Arquitetura de Sharjah, em 2019, mesmo ano que a Bienal de Arquitetura de Chicago chegará a sua terceira edição. Essas bienais e trienais, devido as suas menores dimensões, são mais ágeis e permitem explorar de forma mais precisa questões latentes na disciplina e no exercício profissional da arquitetura contemporânea. Por isso mesmo, estes espaços possibilitarão um maior engajamento para ampliar as discussões em torno de questões polêmicas que, devido ao excesso de projetos apresentados em Freespace, estão insuficientemente representadas em Veneza.

© Federico Cairoli
© Federico Cairoli
Sobre este autor
Cita: Kats, Anna. "Como (não) projetar uma Bienal: "Freespace" é realmente um espaço livre? " [How (Not) to Design a Biennale: Is Freespace Free? ] 06 Set 2018. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/901481/como-nao-projetar-uma-bienal-freespace-e-realmente-um-espaco-livre> ISSN 0719-8906

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