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Um novo desenho urbano pode melhorar a qualidade de vida nos conjuntos habitacionais?

Um novo desenho urbano pode melhorar a qualidade de vida nos conjuntos habitacionais?
Um novo desenho urbano pode melhorar a qualidade de vida nos conjuntos habitacionais?, Cortesia de Marco Suassuna
Cortesia de Marco Suassuna

Há uma extensa bibliografia acadêmica evidenciando os malefícios que enormes conjuntos habitacionais, monofuncionais e afastados dos centros trazem às cidades. Geralmente eles se tornam espaços altamente segregados, estigmatizados e, muitas vezes, com condições degradantes de vida. Após a ocupação, é frequente que os próprios moradores comecem a criar modificações, abrindo pequenos comércios e se apropriando dos espaços de formas muito distintas do que foi imaginado na etapa projetual. Mas há a possibilidade do desenho urbano melhorar a qualidade de vida desses conjuntos? Veja essa proposta realizada em João Pessoa:  

 O caso do Conjunto Habitacional Gervásio Maia-João Pessoa-PB

Uma das motivações desse estudo projetual, é investigar outras alternativas espaciais na gleba plana de 30 hectares onde foram construídas 1336 casas térreas no conjunto habitacional Gervásio Maia (CHGM), localizado no bairro Colinas do Sul, periferia de João Pessoa-PB. Comparar o que foi construído com o que poderia ter sido é o propósito final desta reflexão. Inaugurado em 2007, o uso comercial local no CHGM não foi previsto e foram gastos na obra R$ 24.070.130,40. Passado uma década, o que se observa in loco é a descaracterização predominante do ambiente urbano, muitas vias ainda sem pavimentação, equipamentos comunitários em mal estado de conservação, alguns comércios improvisados na mesma casa de forma fragmentada nas quadras, calçadas inacessíveis, ruas sem movimentação de pessoas, lotes murados que negam os espaços públicos e autoconstruções espontâneas.

Cortesia de Marco Suassuna
Cortesia de Marco Suassuna

Apesar do empreendimento possuir diversos equipamentos comunitários (escola, creche, ginásio esportivo, praça) e da inegável contribuição social, o desenho urbano existente com distribuição monofuncional dos usos, e tipologias habitacionais unifamiliares isoladas no lote, confirmam as consequências danosas deste modelo, necessitando de uma reflexão crítica para as futuras ações governamentais na temática.

O estudo é, portanto, investigativo e não pretende que seja executado. Mas visa evidenciar o equívoco do partido urbanístico adotado através de outra simulação espacial. Para tal, usa o projeto como discurso e crítica. Os dados comparativos e qualitativos entre os casos real e hipotético sobre quantidade de moradias, densidade, espaços públicos e equipamentos urbanos reforçam outro ponto de vista. 

Transformações ao longo do tempo. Image Cortesia de Marco Suassuna
Transformações ao longo do tempo. Image Cortesia de Marco Suassuna
Localização. Image Cortesia de Marco Suassuna
Localização. Image Cortesia de Marco Suassuna

Mesmo beneficiando famílias de baixa renda, este modelo anacrônico do caso real demonstra um desperdício de terra no contexto da habitação social. Em João Pessoa, cerca de 25.000 mil famílias precisam de novas moradias, e a baixa densidade urbana alcançada pelo CHGM agrava o quadro por não ter sido eficiente no combate ao déficit habitacional. Lamentavelmente esse modelo ainda é seguido no estado da Paraíba e em alguns estados do país. Especialistas estimam que os governantes da capital paraibana entre 2017 a 2020, devem investir em políticas públicas habitacionais para construir pelo menos 3000 novas residências por ano se quiserem reduzir em 26% o déficit habitacional até 2020. Mas é preciso construir mais e melhor, e com qualidade arquitetônica e urbanística. 

Na mesma gleba, o estudo do caso espacial hipotético considerou noções de integração com o tecido urbano, diversidade de usos e de tipologias, favorecimento aos pedestres e a escala humana no âmbito do habitar. A proposta desenvolve um urbanismo da quadra aberta híbrida que privilegia o caminhar, as pequenas distâncias, as trocas sociais, e a mistura equilibrada dos usos. Contempla 3354 moradias de tipologias variadas, comércios nos térreos e possibilidade de expansão.  Foram previstos equipamentos urbanos, áreas de lazer e interações sociais, e espacialidades que vão do íntimo e acolhedor, ao coletivo e integrador ao espaço público. A ocupação e aproveitamento do solo também foi melhor otimizado pelo aumento da densidade urbana bruta, no caso hipotético 380,12 hab/ha contra 151,41 hab/ha no caso real.

Diagramas Urbanismo. Image Cortesia de Marco Suassuna
Diagramas Urbanismo. Image Cortesia de Marco Suassuna

O entorno do Bairro Colinas Sul, é uma área de expansão urbana que existem muitas glebas parceladas porém desocupadas, mas visadas pelo setor imobiliário que detém grande parte de terras. A tendência atual é que essas glebas sejam ocupadas, como vem sendo, pelo modelo de condomínios fechados de habitação multifamiliar, sem previsão de comércios e isolado do tecido urbano. Como contraponto, a proposta apresentada é antes de tudo, uma visão otimista de morar com qualidade urbana em bairros que precisam elevar seus indicadores socioeconômicos, valorizar os espaços públicos e as interações saudáveis entre as pessoas. 

Ficha técnica

Arquiteto: Marco Suassuna
Localização: João Pessoa - Paraíba, Brasil
Área: 300.000,00 m²
Ano do projeto: 2017
Fotografias: Acervo pessoal/Google
Imagens Virtuais: Abel Taiguara, Bárbara Meurer, Felipe Meira, Igor Neves, Mariana Daltro, Pablo Henrique e Sávio Vale

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Cita: Marco Suassuna. "Um novo desenho urbano pode melhorar a qualidade de vida nos conjuntos habitacionais?" 30 Jan 2018. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/887973/um-novo-desenho-urbano-pode-melhorar-a-qualidade-de-vida-nos-conjuntos-habitacionais> ISSN 0719-8906